quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Uma macumba no Brasil, by Albert Camus

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Tela: Djanira, Três Orixás (1966). Pinacoteca de São Paulo
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Como havia prometido em um post anterior, vamos retomar aqui o relato de Camus em seu Diário de Viagem pelas terras brasileiras. Achei importante separar essa passagem das outras porque o tema me pareceu interessante sobre um ponto de vista antropológico. Temos nessa narrativa sobre a macumba a visão de um estrangeiro que parece se esforçar em detalhar de maneira imparcial um rito religioso, o que não quer dizer que seu testemunho esteja isento de preconceitos e visões deturpadas de uma realidade totalmente alheia à sua, como é o caso. Entretanto, na minha opinião, Camus se saiu muito bem.

Nessa passagem, Camus é levado a um ritual de macumba. Para quem não tem muita noção do que se trata, (e porque o termo é muito carregado de preconceitos) podemos de maneira muito simplista definir a macumba como sendo uma prática mágica, muito mais do que religiosa. Própria das religiões que chegaram ao Brasil com os negros africanos, a macumba é um ritual que envolve dança (e o transe a ela associado), cantos e cerimoniais que podem variar entre os grupos de praticantes (ou de escolas iniciáticas). Tem muita importância na macumba a comida, a bebida, os objetos mágicos, o vestuário, as imagens, e a hierarquia dos participantes.

No imaginário popular, a macumba (cujo termo vem do nome de um instrumento de percussão africano) acabou se transformando em sinônimo de feitiço e baixa magia, um “trabalho” que só pode ser anulado com um contra-feitiço. Para muitos, a macumba também serve para designar as religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, um conceito totalmente equivocado. Se Camus usou o termo “macumba” foi porque no Rio de Janeiro se usava (não sei se ainda se usa) essa expressão para aquilo que na Bahia se conhece como Candomblé. Ao que parece, não há uma aplicação pejorativa do termo no contexto dessa narrativa em particular. E pelo que lemos na descrição ritual de Camus, o culto a que ele assistiu foi mesmo o do candomblé.

O ator negro de nome Abdias, quem levou Camus até o local onde se passa a narrativa é o escritor, jornalista e político Abdias do Nascimento, à época diretor do Teatro Experimental Negro, que encenara a peça Calígula, de Camus, com um elenco só de negros (informação que consta da nota sumária).

Para terminar, uma observação que não poderia deixar passar. Camus, ao escrever a seguinte afirmação “Echou (Exu), espírito do mal e deus africano” comete o grande erro de associar Exu com o mal, tal como fazem muitas religiões cristãs. Nem entrarei na questão da origem do preconceito associado a essa entidade da Umbanda. No Candomblé, por exemplo, Exu não é considerado uma entidade mas sim um Orixá, que pode ser interpretado como sendo um semi-Deus, devido a sua importância dentro dessa religião. Não importa a maneira como Exu é visto na Umbanda ou no Candomblé, a não ser o fato de que, sob nenhum aspecto, se deve relacionar Exu com algo negativo ou associado ao mal. Essa idéia não é nada mais do que o fruto da ignorância e do preconceito em relação à religião do próximo.

Boa viagem.

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Uma macumba no Brasil

Quando chego à casa da Sra. M., reina a inquietação. O “pai-de-santo” (padre e primeiro-bailarino), que devia organizar a macumba, consultou o santo do dia, que não deu sua autorização. Abdias, o ator negro, pensa, sobretudo, que ele não prometeu dinheiro suficiente para forçar a boa vontade do santo. Seu parecer é de que tentemos, no entanto, numa expedição a Caxias, aldeia dos arredores, a 40 quilômetros do Rio, e que procuremos uma macumba ao acaso. Durante o jantar, deixo que me expliquem as macumbas. São cerimônias cujo propósito parece constante: obter a descida do deus em si, por meio de danças e cantos. O objetivo é o transe. O que distingue a macumba das outras cerimônias é a mistura de religião católica e dos ritos africanos.

Como deuses ou santos, há Echou, espírito do mal e deus africano, mas também Ogoun, que é o nosso São Jorge. Há também santos Cosme e Damião, etc. ..., etc. ... O culto dos santos está integrado, aqui, nos rituais de possessão. Todo dia tem o seu santo, que não é festejado em nenhum outro dia, salvo por autorização especial do principal “pai-de-santo”. O pai-de-santo tem suas filhas (e filhos, suponho), cujos transes ele é encarregado de supervisionar.

Munidos dessas informações elementares, partimos. 40 quilômetros numa espécie de bruma. São 10 horas da noite. Caxias, que me faz pensar numa aldeia-exposição feita de stands. Detemo-nos na praça da aldeia, onde já se encontram uns vinte carros e muito mais gente do que imaginávamos. Mal paramos e um jovem mulato precipita-se diante de mim, oferecendo-me uma garrafa de aguardiente e perguntando se eu havia trazido Tarrou comigo. Ri às gargalhadas, faz brincadeiras, apresenta-me aos colegas. É poeta. Explicam-me, afinal, que ao saberem no Rio que iriam mostrar-me uma macumba (no entanto, haviam me recomendado segredo, que eu, inocentemente, guardei), muita gente quis aproveitar-se disso. Abdias faz algumas perguntas, e depois não se mexe mais. Ficamos ali, conversando no meio da praça. Aparentemente, ninguém mais trata de nada, e cada um sonha com as estrelas. De repente: precipitação geral. Abdias me diz que é preciso ir até a montanha. Embarcamos, rodamos durante alguns quilômetros por uma estrada esburacada, e, sem razão aparente, subitamente paramos. Espera, sem que ninguém pareça ocupar-se de nada. Depois, continuamos. De repente, o carro faz uma volta de 45 graus e toma um caminho de montanha. O carro sobe, arrasta-se, depois pára: a ladeira é abrupta demais. Descemos e caminhamos. O morro é liso, a vegetação escassa, mas parece que estamos em pleno céu, em meio às estrelas. O ar tem cheiro de fumaça. É tão pesado que se tem a impressão de tocá-lo com a testa.

Chegando ao topo da colina, ouvimos tambores e cantos bastante longínquos, mas que logo cessam. Caminhamos em direção ao som. Nem árvores nem casas, é um deserto. Mas num vão, vemos uma espécie de hangar, bastante amplo, sem paredes, com vigas aparentes. Estendidas pelo hangar há guirlandas de papel. De repente, entrevejo uma procissão de moças negras, que sobem em nossa direção. Estão vestidas de branco, de seda grosseira, a cintura baixa. Segue-as um homem, trajando uma espécie de casaca vermelha, com colares de dentes multicoloridos. Abdias o detém e o apresenta a mim. A acolhida é séria e cordial. Mas há uma complicação. Eles vão juntar-se a uma outra macumba, que fica a vinte minutos a pé, e gostariam que os acompanhássemos. Partimos. Consigo ver, numa encruzilhada, uma vela acesa, fincada em plena terra, umas espécies de nichos, nos quais estão metidas estátuas de santos ou de diabo (aliás, muito toscas e de estilo Saint-Sulpice) e uma cuia de água. Mostram-me Echou, vermelho e feroz, de faca na mão. O caminho que seguimos ondula através dos morros sob o céu cheio de estrelas. Os dançarinos e dançarinas precedem-nos, rindo e brincando. Tornamos a descer uma colina, atravessamos a estrada pela qual viemos e reescalamos um outro morro. Barracos de ramagem e de taipa, cheios de sombras que cochicham. Depois, o início da procissão imobiliza-se diante de um terreiro elevado e cercado de uma parede de bambus. No interior, ouvem-se tambores e cantos. Quando estamos todos reunidos, as primeiras mulheres sobem ao terreiro elevado e atravessam aos tropeços a porta de bambus. Depois, os homens.

Entramos num pátio cheio de detritos. De uma pequena casa de sapê e de taipa, à nossa frente, chegam cantos. Entramos. É uma cabana, bastante grosseira, cujas paredes, no entanto, são caiadas. O teto é sustentado por um mastro central, o chão de terra batida. Ao fundo, o pequeno alpendre abriga um altar, encimado por uma gravura representando São Jorge. Como essa, várias outras, parecidas, guarnecem os tabiques. A um canto, sobre um pequeno estrado, ornado de folhas de palmeira, os músicos: dois tambores baixos e um tambor longo. Havia uns quarenta bailarinos e bailarinas quando chegamos. Nós mesmos somos também uns quarenta, e respiramos, portanto, com dificuldade, espremidos uns contra os outros. Encosto-me num tabique e fico olhando.

Os dançarinos e dançarinas dispõem-se em dois círculos concêntricos, os homens no interior. Os dois pais-de-santo (o que nos recebe está vestido, como os dançarinos, com uma espécie de pijama branco) ficam de frente um para o outro no centro dos círculos. Na sua vez, cada um canta as primeiras notas de uma canção, que, imediatamente, todos retomam em coro, com os círculos girando no sentido dos ponteiros do relógio. A dança é simples: um bater de pés no qual se enxerta a dupla ondulação da rumba. Os “pais”, esses indicam apenas o ritmo. Meu intérprete me ensina que esses cantos rogam ao santo que autorize os recém-chegados no local. Entre os cantos, as pausas são bastante longas.

Perto do altar, uma mulher, que canta também, agita um sininho, de modo quase que ininterrupto. A dança está longe de ser frenética. De estilo medíocre, é pesada. No calor que aumenta cada vez mais, as pausas são quase insuportáveis. Eu observo:

1) que não se nota nos dançarinos a mais leve transpiração;
2) um branco e duas brancas que, aliás, dançam pior que os outros.

Em dado momento, um dos dançarinos adianta-se e me fala. Meu intérprete diz que me pedem para descruzar os braços, já que essa atitude impede o espírito de baixar entre nós. Dócil, fico de braços caídos. Pouco a pouco, as pausas entre os cantos diminuem, e a dança se anima. Trazem uma vela acesa, que se enterra no chão, no centro, perto de um copo d’água. Os cantos invocam São Jorge.

“Ele chega na luz da lua
Ele parte na luz do sol”
E ainda:
“Sou o campo de batalha do deus.”

Na verdade, um ou dois dançarinos já apresentam ares de transe, mas, se posso me atrever a dizê-lo, de um transe calmo: as mãos nos quadris, o passo rijo, o olhar fixo e átono. O “pai” vermelho despeja água em volta em volta da vela em dois círculos concêntricos e as danças recomeçam quase sem interrupção. De vez em quando, um dançarino ou uma dançarina deixa o seu círculo para vir dançar no interior, bem junto aos círculos de água, mas sem nunca atravessá-los. Eles precipitam o ritmo, contorcendo-se sobre si mesmos, e começam a emitir gritos desarticulados. A poeira sobe do chão, sufocante, tornando espesso o ar que já se cola à nossa pele. Cada vez mais numerosos, os dançarinos deixam o seu círculo para virem dançar em torno dos “pais”, que, por sua vez, dançam de forma mais rápida. (O pai branco, admiravelmente.)

Agora, tornam-se violentos, e, de repente, o pai vermelho se solta. Com o olhar inflamado, os quatro membros girando em torno do corpo, com os joelhos dobrados, coloca o seu peso alternadamente sobre cada perna, e acelera o ritmo até o final da dança, quando ele se detém, para olhar toda a platéia com um jeito fixo e terrível. Nesse momento, de um canto escuro, surge um dançarino, que se ajoelha e lhe estende uma espada embainhada. O pai vermelho tira a espada e faz com que gire a sua volta, com um ar ameaçador. Trazem-lhe um enorme charuto. Pouco a pouco, todos acendem charutos e fumam-nos, dançando. Retoma-se a dança. Um por um, os assistentes vêm prostrar-se diante do pai, com a cabeça entre as pernas.

Com o lado sem fio da espada, toca-lhes cada ombro, na diagonal; faz com que se levantem, toca-lhes o ombro esquerdo com o seu ombro direito, e depois inversamente; com violência, empurra-os então para a roda, movimento que, na maioria das vezes, desencadeia a crise, variando conforme os dançarinos: um negro grande, firme nas pernas, olhando para o mastro central, com um ar vago, tem apenas um estremecimento da nuca, que se repete interminavelmente. Vejo nele um ar de boxeador knock down. Uma branca gorda, com uma cara animal, uiva sem parar, mexendo a cabeça da direita para a esquerda. Mas umas jovens negras entram no transe mais terrível, com os pés colados ao chão, e o corpo todo percorrido por sobressaltos cada vez mais violentos, à medida que sobem para os ombros. A cabeça – esta se agita da frente para trás, literalmente decapitada. Todos gritam e urram. Depois, as mulheres começam, a cair.

Levantam-nas, apertam-lhes a testa, e elas recomeçam, até tornarem a cair. Atinge-se o auge no momento em que todos gritam, com estranhos sons roucos, que lembram latidos. Dizem-me que isto irá continuar até o amanhecer, sem mudanças. São 2 horas da manhã. O calor, a poeira e a fumaça dos charutos, o cheiro humano, tornam o ar irrespirável. Saio, trôpego, e respiro afinal deliciado o ar fresco. Amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens.

Fonte:


Diário de Viagem: a visita de Camus ao Brasil. Albert Camus. Editora Record, s/ data, págs 86 a 94.

2 comentários :

  1. Essa história de abdias do nascimento ter levado Camus até a fetsa está contada nos seus diários?

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  2. Está contada nesse diário de viagem. Camus escreveu outros diários, na edição americana os Notebooks (2vols de 1942 a 1959)), mas não sei se leremos sobre sua passagem pelo Brasil, não tive acesso ainda a estas obras.

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