domingo, 28 de fevereiro de 2010

O rastro dos cantos, by Bruce Chatwin

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Foto: capa da primeira edição norte-americana, 1987
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Devo confessar que nunca tive vontade de visitar a Austrália, embora não haja nada, em absoluto, que me faça querer evitar a viagem. Acho interessante o pouco que sei, através de leituras e documentários vistos em insuspeitos programas de televisão, da cultura aborígine, e da exuberante beleza das praias. O resto é aquela imagem quase sempre ridícula que guardamos na memória dos lugares distantes que nunca conhecemos mas que estamos tão acostumados a ver através das telas (tv/cinema/computador) que parece até que já lá estivemos.

Essas imagens pobres sobre uma determinada cultura são as que primeiro aparecem em nossos pensamentos (por exemplo: pense em Austrália e logo lhe vem à cabeça um canguru, ou um bumerangue ou a fisionomia peculiar dos aborígines); acredito que isso se deva, até certo ponto, à influência de uma memória coletiva que a maioria de nós guardamos sobre certos lugares e acontecimentos. É a mesma coisa, se formos comparar, com o que pensam os estrangeiros sobre o Brasil: país do samba e do futebol, como se somente isso caracterizasse a nossa rica cultura.

Comecei a enxergar a Austrália de maneira diferente depois de haver assistido a alguns filmes que rodaram o mundo fazendo muito sucesso: O casamento de Muriel e Priscilla a rainha do deserto, por exemplo, fizeram muito sucesso e, para mim, mostraram um lado simpático, bem humorado e um tanto amalucado dos australianos.

Na literatura, até onde me recordo, meu primeiro contato direto com a Austrália foi no livro O rastro dos cantos, do escritor e viajante inglês Bruce Chatwin, de quem já postamos matéria aqui no Odepórica, sobre o seu trabalho mais conhecido, Na Patagônia.

Em O Rastro dos cantos Chatwin mergulha profundamente no universo da tradição mitológica dos aborígines australianos. É meio complicada a explicação sobre o rastro dos cantos, mas de modo geral funciona assim: no passado, cada antepassado aborígine, ao viajar pelo país, espalhava um rastro de letras e notas musicais ao longo da linha de suas pegadas, de modo que isso mais tarde funcionaria como um meio de comunicação entre as tribos mais distantes. “Um canto”, escreve Chatwin, “era tanto um mapa como um orientador direcional. Desde que você o conheça, sempre poderá encontrar seu caminho através do país.”

Continuando com as palavras do autor:

“Em teoria, pelo menos, a totalidade da Austrália poderia ser lida como uma partitura musical. Dificilmente haveria uma pedra ou riacho no país que não pudesse ou não tivesse sido cantado. Talvez se devessem visualizar os Rastros de Cantos como um espaguete de Ilíadas e Odisséias, retorcendo-se para um lado e para o outro, onde cada ‘episódio’ poderia ser lido em termos de geologia”.

“(...) Tenho uma visão dos Rastros de Canto se estendendo por continentes e pelos séculos; que, por onde quer que tenha andado, o homem deixou uma trilha de canto (cujo eco podemos, vez por outra, perceber); e que essas trilhas devem levar de volta, no tempo e no espaço, a um bolsão isolado na savana africana, onde o Primeiro Homem, abrindo a boca em desafio aos terrores que o cercavam, gritou o verso de abertura do Canto do Mundo: ‘EU SOU!’ .”

Eu, que nunca havia ouvido falar em algo parecido, achei encantadora essa imagem de um mapa sonoro cobrindo todo um país, já imaginou? Acho que essa imagem combina muito bem com o Brasil, um país tão musical e repleto de cenários maravilhosos... haja canto para tanto!

Mas vamos prosseguir aqui com nossa leitura. Bruce, ao chegar à Austrália, entra em contato com um expert no assunto, Arkadii, um homem culto e apaixonado pela cultura aborígine, que o levará para cima e para baixo no território australiano para compreender melhor como funciona o lance dos rastros. Conhecem muitas pessoas ao longo do caminho, o que parece ser uma marca registrada de Chatwin em seus relatos de viagem, o que confere um brilho todo especial à sua narrativa. Mais uma vez, percebemos que uma das coisas mais importantes e gratificantes de uma viagem são as pessoas com as quais convivemos durante o percurso, por mais superficiais e breves que sejam esses encontros. Às vezes, um simples comentário feito à toa por um residente local em uma cidade pode mudar radicalmente os planos de uma viagem. Daí a importância de se estar aberto ao novo, uma atitude receptiva em relação ao outro contabiliza muito mais ganhos do que uma posição neutra ou fechada.

Mas desse mal não sofre Chatwin, que topa tudo, ou quase, que lhe aparece pela frente. E com a companhia de Arkadii, que assume a posição de um guia de viagem em relação a Bruce, tudo fica mais fácil. Quem é esse Arkadii, um australiano descendente de russos que perambula pela Austrália atrás dos rastros dos cantos? Bruce Chatwin fala um pouco sobre seu amigo logo nas primeiras linhas do livro, embora não fiquemos sabendo exatamente como eles se conheceram ou foram apresentados.

“Era um andarilho incansável, um sertanista. Não pensava duas vezes antes de partir, com um cantil e um pouco de comida, para uma caminhada de cento e sessenta quilômetros pelas montanhas. Depois, voltava para casa, saindo da luminosidade e do calor, puxava as cortinas e tocava a música de Buxtehude e Bach no cravo. As progressões ordenadas dessa música, dizia, adequavam-se aos contornos da paisagem da Austrália Central.

(...) Gostava de aborígines. Gostava de sua coragem e tenacidade, e da habilidade que tinham para lidar com o homem branco. Aprendeu, ou quase, duas de suas línguas e ficou assombrado com o vigor intelectual, as proezas de memória e a capacidade e a determinação de sobrevivência deles. Não eram, ele insistia, uma raça em extinção – embora necessitassem de ajuda, vez por outra, para tirar o governo e as companhias de mineração de suas costas.

Foi durante sua experiência como professor que Arkadii tomou conhecimento do labirinto dos caminhos invisíveis que serpenteavam por toda a Austrália e eram conhecidos dos europeus como ‘Trilhas de Sonho’ ou ‘Rastros de Cantos’; e pelos aborígines, como ‘Pegadas dos Antepassados’ ou ‘Caminho da Lei’.

Os mitos aborígines da Criação falam dos seres totêmicos legendários que vagaram pelo continente no Tempo do Sonho, cantando o nome de tudo o que cruzava seu caminho – pássaros, animais, plantas, pedras, poços – e assim dando existência ao mundo por meio do canto. Arkadii ficou tão marcado pela beleza desse conceito que começou a tomar notas de tudo o que via ou ouvia, não para publicá-las, mas para satisfazer a sua própria curiosidade. No começo, os anciãos waldbiris desconfiaram dele, e as respostas que davam às suas perguntas eram evasivas. Com o tempo, uma vez tendo conquistado a confiança deles, passou a ser convidado a testemunhar suas cerimônias mais secretas, e foi encorajado a aprender suas canções.”

Isso basta para podermos verificar que Bruce teve a sorte de ter como companheiro de aventura um homem extremamente qualificado para o seu projeto, se é que essa pessoa realmente existiu, visto que muitos críticos afirmam que Chatwin inventou muitos fatos e personagens em suas narrativas, ou seja, você nem sempre vai saber quando aquilo que está lendo é fato ou ficção. Não que isso importe, a não ser que você esteja atrás de uma leitura mais comprometida com fatos reais, um estudo de campo, por exemplo. Se for o caso, essa leitura não se aplica, nem mesmo se a sua intenção for a de conhecer mais sobre a cultura dos povos nômades australianos, já que Chatwin não é antropólogo e seus conhecimentos sobre a cultura dos aborígines mostram-se bastante superficiais.

O que merece atenção é o chamado à aventura, é você entrar no mundo desse viajante obstinado, sair um pouco da sua rotina que suponho deva ser muito diferente daquela que se encontra na narrativa de Chatwin e nisso o livro é bom, gostoso de ler.

O Rastro dos Cantos pode ser dividido em duas partes; na primeira vamos acompanhar o autor pelo outback australiano, as áreas de terras áridas e distantes dos centros urbanos. Nessa parte o leitor conhece mais sobre o objeto de estudo do escritor, os rastros dos cantos propriamente ditos. Isso toma dois terços do livro, até que, pego de surpresa, o leitor se depara com o final da narrativa, quando Bruce se separa de Arkadii (que felizmente volta a aparecer no finalzinho da história) e começa a escrever anotações soltas de suas cadernetas de viagem (seus inseparáveis Moleskines) numa longa divagação onde reflete principalmente sobre a natureza nômade do ser humano.

É estranho? É sim, um pouco, mas eu particularmente gostei muito, de verdade. É como se pudéssemos entender melhor a cabeça de Chatwin, uma parada na viagem, que é sempre proveitosa se esta for longa e cheia de informações novas. Parar para descansar, para refletir, para aquietar o corpo e a alma, e para escrever – para quem é dado a isso. Escrever um diário de viagem pode ser um grande exercício de meditação, sabia? E é isso o que se lê nas páginas finais desse livro. Nem tudo é de interesse do leitor, pelo menos foi assim comigo. Nem sempre as notas dos cadernos têm relação com a história, estão mais para divagações, para preencher lacunas de pensamentos soltos. Mas isso não chega a incomodar já que os textos são sempre curtos (do contrário seriam entediantes).

As conclusões de toda essa narrativa sobre os rastros dos cantos aparecem pinceladas em algumas passagens, principalmente mais para o final da obra e merecem ser postadas aqui. Bruce Chatwin estava, no período dessa viagem, lutando contra a realidade da Aids, que o venceria dois anos após essa aventura, de modo que esse foi seu último grande trabalho.

“Tive um pressentimento de que a fase ‘viajante’ da minha vida estava chegando ao fim. Senti, antes que o mal-estar da fixação me invadisse, que devia reabrir aqueles cadernos. Devia colocar no papel uma lista das idéias, citações e encontros que me entretiveram e obcecaram, e com os quais eu esperava poder iluminar o que, para mim, é a questão entre as questões: a natureza do desassossego humano. Pascal, em uma de suas pensées
mais sombrias, dá como sua opinião que todos os sofrimentos originam-se de uma só causa: nossa incapacidade de permanecer quietos numa sala”.

“Todos os Grandes Mestres pregaram que o Homem, originalmente, era um ‘errante pelo deserto seco e árido deste mundo’ – são palavras do Grande Inquisidor de Dostoievski – e que, para redescobrir sua humanidade, era preciso despojar-se das amarras e tomar a estrada”.

Meus cadernos mais recentes estavam cobertos de notas tomadas na África do Sul, onde examinara, em primeira mão, certas provas da origem de nossa espécie. O que lá aprendi – junto com o que agora sei sobre os Rastros de Cantos – parecia confirmar a conjetura que vinha ruminando por tanto tempo: que a seleção natural nos destinou – da estrutura de nossas células cerebrais até a estrutura do dedão do pé – a uma vida de viagens sazonais a pé
através de uma terra impiedosa de espinhos ou do deserto”.

“Se assim o fosse, se o deserto fosse o ‘lar’, se nossos instintos fossem forjados no deserto, para sobreviver aos rigores do deserto – então ficaria mais fácil compreender por que pastagens mais verdejantes nos enfastiam; por que os bens nos esgotam, e por que o homem imaginário de Pascal vê como uma prisão suas confortáveis acomodações”.

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Leia: O Rastro dos Cantos (The songlines). Bruce Chatwin. Foi editado no Brasil em 1996 pela Companhia das Letras e não é difícil de ser encontrado em sebos.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, uma ótima matéria p/ divagar. Beijinhas, Pá

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  2. Tenho problemas com o estilo de escrita de Chatwin, mas os temas pinçados por ele são ótimos. Bela citação dele --> "Pascal, em uma de suas pensées mais sombrias, dá como sua opinião que todos os sofrimentos originam-se de uma só causa: nossa incapacidade de permanecer quietos numa sala".

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  3. Concordo contigo, com exceção desse Rastro e Na Patagônia, não gostei de mais nada dele que me caiu nas mãos. Mas o cara é um ícone, trouxe um novo olhar para as narrativas de viagem modernas e é o que vc disse: ele sabia "pinçar" bons temas...

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