domingo, 21 de fevereiro de 2010

Jornada musical: Santiago, com The Chieftains

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Gosta de música irlandesa? Simpatiza com as lendas e o folclore celta? Sente um arrepio ao ouvir as primeiras notas de uma flauta de metal, típica da Irlanda e que tem um nome bonito, pennywhistle (ou tin whistle, numa tradução livre, “apito de latão”)? Se você respondeu sim a alguma destas perguntas (com o perdão do lugar comum!), então sugiro que ouça o trabalho dos Chieftains.

Criado em 1963 e ainda na ativa (no momento estão em turnê pelos Estados Unidos), The Chieftains são tudo o que há de melhor em música irlandesa; respeitadíssimos no mundo inteiro, estão para a música irlandesa como os Stones para o rock, ou seja, chegaram num nível em que se tornam referência e ponto, quer você goste ou não.

Ah sim, preciso dizer que música irlandesa não tem nada a ver com a onda que surgiu há duas ou mais décadas, a da música celta nos moldes de Enya e trilhas como as do Titanic ou Braveheart, por exemplo. Nada (ou quase nada) a ver com isso, a pegada aqui é outra. Os Chieftains são músicos de primeira linha, pesquisadores das tradições de seu país, de modo que seu trabalho tem uma forte sonoridade folk. O tempero, o que os diferencia, é o fato de, sem abrirem mão da tradição, permanecerem abertos ao diálogo com outros músicos e culturas, muitas vezes sem nenhuma ligação com o tipo de música que eles fazem. Já gravaram com Joni Mitchell, Joan Osborne, Diana Krall, Sinead O’ Connor e com os marmanjos dos Stones, claro. Mas também com Van Morrison, Sting, Mark Knopfler e até com o Tom Jones, veja só. Os tiozinhos são ecléticos, e isso é uma coisa boa.

E aí que, com tantos anos de estrada, dezenas de discos no currículo, como poderei dar conta, num único post, de falar sobre os álbuns dos Chieftains? E, claro, como adequar isso à temática do Odepórica? Mas então achei, que bom, um cd de onde posso puxar um gancho para o tema das viagens. Particularmente, nem é o meu preferido, porque este de que vou falar é um dos trabalhos temáticos dos Chieftains, Santiago, onde os músicos homenageiam a influência da música celta galega, região da Espanha onde descansam os restos do Apóstolo peregrino, Santiago (em Compostela).

Se você já visitou essa região da Espanha sabe que a influência celta ali presente é forte ainda nos dias de hoje. Causa um estranhamento delicioso, por exemplo, caminhar pelas ruas de Santiago de Compostela e ouvir o som dos gaiteiros, às vezes ao vivo, numa das quebradas da parte antiga da cidade. É fechar os olhos e imaginar-se nas ilhas britânicas, um barato. Aí você abre os olhos e presta atenção em dois senhores sentados na mesinha de um bar, fumando um cigarro fedido e conversando alto porque, provavelmente, já não escutam mais tão bem um ao outro, e sente outra coisa estranhamente familiar... ah, mas é claro, estão conversando em galego, que é mais parecido com o português do que com o próprio castelhano, outro barato, e a conclusão a que você chega, antes de encher a cara de Ribeiriño, é que a Galícia é mesmo uma delícia, só pra rimar e brincar um pouco com as palavras.

Mas deixando a bobeira de lado, culpa desse calor insano de São Paulo, vamos ao que interessa, ok? No encarte do álbum temos um interessante relato de Paddy Moloney (whistler e líder da banda) introduzindo o trabalho dessa gravação. Não que seja algo espetacular, não vou mentir pra você não. Mas tem de bom o aspecto documental da música, de como chegaram até a Galícia e um pouquinho de história também, que vai te ajudar a entender o que é que a Espanha tem a ver com a cultura celta. Sempre bom aprender um pouquinho, ainda mais no embalo de boa música, não é mesmo?

Santiago

Há mais de vinte anos, meu querido amigo Polig Monjarret me introduziu a maravilhosa música da Galícia, uma região verde e montanhosa do noroeste da Espanha. Galícia, cuja economia se baseou principalmente na pesca e na agricultura, tem sido desde sempre uma das regiões mais pobre da Europa. Os galegos falam seu próprio idioma (mais parecido com o português do que com o espanhol). A cultura, especialmente a música, tem mais em comum com a Bretanha, País de Gales, Escócia e Irlanda do que com a Castilha ou a Andaluzia.

A Galícia foi descrita em outros tempos como “o país céltico menos descoberto”. Em 1984, no velho porto de Vigo, atuei em um festival ao ar livre organizado pela banda galega Milladoiro. Foi ali que me apresentaram a um jovem tranqüilo e cortês chamado Carlos Nuñez. Alguns anos mais tarde, um jovem gaiteiro galego tocou para nós durante nossa visita ao Conservatório de música tradicional de Ploemeur na Bretanha. Fiquei gratamente surpreendido ao descobrir que o mesmo jovem que tocava era aquele que eu havia conhecido em Vigo.

Pouco depois, e com a ajuda de Polig e Fernando Conde, o companheiro igualmente jovem e inteligente do Señor Nuñez, fez os preparativos para que o precoce gaiteiro de Vigo tocasse junto com os Chieftains em uma apresentação. A noite resultou em uma gloriosa reunião de estilos e tradições musicais. A partir desse momento, decidi recriar e desenvolver a experiência para capturar sua essência em uma gravação, tal e como havíamos feito anos atrás com a música bretã no álbum “A Celtic Wedding”.

O projeto desenvolveu-se lentamente, levando-nos por rumos excitantes e novos nunca imaginados naquela noite de Vigo. Carlos se uniu a nós em vários cenários do mundo, como vendo o público com sua destreza sem igual com a flauta e com a gaita. Às vezes, parecia que era o sétimo membro dos Chieftains. Gravamos enquanto viajávamos, a inspiração derivando de nossos movimentos musicais nos lugares que visitávamos ao longo da rota dos peregrinos à catedral encantada de Santiago de Compostela. Os cristãos consideram esse lugar sagrado e acreditam que ali se encontra enterrado o Apóstolo Santiago. As lendas mais antigas, dos tempos celtas, falam de outra peregrinação que seguia as estrelas da Via Láctea até o fim da terra (Finisterre). Transcendendo suas próprias origens misteriosas, a peregrinação continua atraindo milhões de pessoas em todo o mundo em direção a esta terra longínqua.

Durante nossas viagens, provamos das emoções e dos estilos musicais das culturas próximas, desde a bretã até a vasca, da asturiana até a portuguesa e mais além. Há música dos tempos medievais, quando a peregrinação estava no seu auge, e música de uma época mais antiga com origens muito mais obscuras.

A música da história mais contemporânea evoluiu quando os galegos, como muitos de seus primos célticos, imigraram em massa para o novo mundo. Estabeleceram-se principalmente no sul, ancorando suas raízes desde o México até o Caribe e Américas Central e do Sul. Em nossas viagens, só podíamos provar de alguns desses estilos exóticos. Em Cuba com Carlos e nosso bom amigo Ry Cooder e depois no sul da Califórnia com Los Lobos e Linda Ronstadt.

Outros países com a música impregnada na riqueza da tradição galega nos tentaram a seguir com a peregrinação. Infelizmente, por enquanto, o tempo e os horários deram um tempo em nossas viagens. Argentina, Brasil e Venezuela terão que esperar outro momento, outro projeto, outra jornada de regresso a Santiago.
Paddy Moloney, Julho de 1996.

Bueno, se você quiser ser iniciado em Chieftains, há sempre a boa opção de comprar um cd com os melhores sucessos. Lançado no Brasil, o álbum The Chieftains: The wide world over traz dezenove grandes canções, numa coletânea que dá para ter, pelo menos, uma noção do viés musical e da competência dos irlandeses.

Se o seu interesse não vai tão longe, eu entendo, pelo menos baixe algumas canções para ouvir no seu mp3. Vou indicar algumas: The Magdalene Laundries, com Joni Mitchell, que arrasa; I know my love, com os irlandeses do Corrs; Factory Girl, na voz de Sinéad O´Connor, que ficou bem bonita; Shenandoah e a versão de Have I told you lately that I love you, com Van Morrison, que é o máximo, sempre; Morning has broken, linda na voz do Cat Stevens ficou espetacular com Diana Krall e Art Garfunkel; The rocky road to Dublin, com os Stones, um must; pra terminar, se você curte reggae, Redemption Song, com o Ziggy Marley, um pequeno tesouro.

Abaixo, a capa do disco Santiago, de onde tirei o material desse post.



Um comentário :

  1. Oi Paulo, esta matéria está muito boa, principalmente os seu comentários. Poste mais textos como este, indicando músicas e filmes. Acredita que apenas ontem escutei The Celtic Chillout Album, que você me presenteou? Maravilhoso! Porém, ele não tem nenhuma das músicas que você indicou. Apenas uma sugestão p/ o meu próximo presente :-)

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