quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Diário de viagem de Albert Camus (1913-1960)

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Há 50 anos um acidente de automóvel tirou a vida de um dos grandes escritores da língua francesa, Albert Camus. Confesso que pouco conheço de sua obra, a não ser uma leitura para fins acadêmicos de A Peste, numa aula temática sobre a morte de Deus na literatura. Tema profundo, leitura idem.

Em A Peste (publicada em 1947), Camus escreve sobre um acontecimento trágico ocorrido numa pequena cidade argelina chamada Oran. De uma hora para outra começam a aparecer ratos mortos, e logo ficamos sabendo que o povoado foi assaltado por uma epidemia. A primeira conseqüência disso foi o total exílio de seus habitantes: ninguém mais poderia sair da cidade antes que o fim da epidemia fosse decretado. A personagem que narra a história só revela sua identidade nas últimas páginas da obra, uma jogada genial do autor que com essa escolha conseguiu fazer com que o observador assumisse uma atitude imparcial, relatando objetivamente os eventos ocorridos em Oran por conta da peste.

Uma das leituras mais comuns dessa obra fenomenal é a de que Camus, ao narrar sobre a peste, intencionalmente criou uma alegoria sobre o nazismo; a peste, em si, pode ser interpretada como uma metáfora dos horrores praticados na 2ª Guerra, sobretudo no tocante à resistência francesa frente à ocupação nazista.

Outra leitura interessante sobre essa mesma obra segue uma abordagem mais filosófica: o comportamento do ser humano diante da morte, talvez um dos maiores tabus da humanidade. Partindo desse princípio, Camus vai discutir em vários momentos sobre o papel de Deus e da religião, trazendo à tona questões ainda hoje muito atuais. É interessantíssimo, por exemplo, comparar o que se passa na cidade de Oran, tal como narrado na obra de Camus, com os recentes acontecimentos no Haiti por conta do terremoto devastador que atingiu o país no começo deste ano. O comportamento dos que sobreviveram à tragédia haitiana, conforme podemos acompanhar pela imprensa (desespero, violência, exploração comercial), não difere em quase nada daquele narrado em A Peste. Um indício claro de que Camus conhecia muito bem a natureza humana.

Antes de começar a falar sobre os escritos de viagem de Camus, queria escrever sobre uma passagem de A Peste que tem relação com a temática do Odepórica e que aparece logo na abertura da obra. O narrador, antes de começar a contar sobre os acontecimentos curiosos ocorridos em decorrência da epidemia, descreve Oran, “uma cidade ordinária, simples prefeitura francesa na costa argelina”. Continua:

“Cidade feia, de aspecto sossegado. Com o tempo, vemos o que a distingue de tantas outras cidades comerciais, em todas as latitudes. Como supor uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, sem rumor de asas nem cair de folhas, lugar neutro, enfim? Percebemos no céu a mudança das estações. A primavera se anuncia apenas pela qualidade do ar e pelas cestas de flores que pequenos vendilhões trazem dos subúrbios; é uma primavera que se vende nos mercados. No verão o sol incendeia as casas muito secas e cobre os muros de cinza parda; então só podemos viver à sombra, as janelas fechadas. No outono, pelo contrário, há um dilúvio de lama. Os dias agradáveis só chegam no inverno.

Modo fácil de conhecer uma cidade é procurar saber como os indivíduos se comportam no trabalho, no amor, na morte.”

Genial a maneira como é descrita a pequena cidade, não? E a frase do último parágrafo acima é a “deixa” para começarmos a tratar do Diário de Viagem.

Albert Camus visitou a América do Sul em 1949. Veio da Europa pelo mar, e o Brasil foi o primeiro país visitado no continente. Aborreceu-se tanto com essa viagem que teve vontade de matar-se, escreve Otto Lara Resende na edição que tenho em mãos, o que certamente não foi escrito em sentido figurado: é clássica a afirmação de Camus de que “o suicídio é a única questão filosófica séria”.

Não sei se posso afirmar que o relato dessa viagem ao Brasil é uma leitura indispensável, mas estou certo de que essa obra irá interessar a dois tipos de leitores: os que apreciam Camus e sua produção literária, e aqueles que se interessam por literatura odepórica, principalmente as narrativas que contemplam o Brasil, como é o caso dessa. Nesse quesito, há algumas passagens nesse texto que primam por servir de testemunho histórico, de um país que apesar de haver crescido significativamente, ainda continua apresentando os mesmos tristes problemas de décadas passadas. Quer ver duas amostras? Vamos lá:

“Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar.”

“O contraste mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos, com as favelas, às vezes a cem metros do luxo, agarradas ao flanco dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. As mulheres vão buscar água no sopé dos morros, onde fazem fila, e trazem de volta sua provisão em latas de alumínio, que carregam na cabeça como as mulheres kabiles. Enquanto esperam, passam diante delas, numa fileira ininterrupta, os animais niquelados e silenciosos da indústria automobilística americana. Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolentemente mesclados. É bem verdade que, segundo um dos meus companheiros, ‘pelo menos, eles se divertem muito’.”

Meio triste pensar que essas observações sobre a nossa terra foram escritas há sessenta anos e que pouco mudou desde então – isso para não comentarmos o que mudou para pior, como a degradação da natureza e a violência, só para ficarmos na superfície dos problemas.

A chegada ao Rio, pela baía de Guanabara, foi descrita de uma maneira muito bonita e sem afetação, em que se percebe a irrepreensível qualidade literária de Camus. Observe:

“Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima: serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos – velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. Seguimos o litoral, enquanto a noite clareia, a água mal estremece, fazemos uma grande manobra e as luzes agora estão diante de nós, mas longínquas. Volto para o meu camarote. Quando torno a subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o ‘Pão de Açúcar’, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. A cada instante, um ronco acima de nós: um avião decola no dia nascente, confundindo-se, de início, com a terra, elevando-se depois em direção a nós, passando por cima de nossas cabeças. Estamos no meio da baía e as montanhas, à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem calar a todos, uma vez mais. Um instante depois, as cores parecem as mesmas, mas é o cartão-postal. A natureza tem horror dos milagres longos demais.”

Belíssima descrição, para mim uma das passagens mais bonitas dessa obra. Prossigamos com a leitura. A presença de Albert Camus no Brasil foi muito esperada e sua agenda esteve cheia durante todo o tempo de sua estadia. Possivelmente foi o excesso de compromissos que fez com que essa viagem lhe fosse tão cansativa e desprovida de maiores encantos; temos que nos apegar ao fato de que o escritor visitou o país prioritariamente a trabalho, o que ameniza nossa opinião – levando-se em conta apenas aquilo que se lê em seus escritos de viagem – sobre sua personalidade aparentemente antipática. A verdade é que, no fundo, Camus deve ter tido muita paciência para, por conta de sua posição, ter que conversar com tanta gente chata do meio intelectual, ou será que não? (ao ser apresentado a um convidado numa recepção escreve o seguinte: “Um filósofo polonês do qual o céu, se for bom, me preservará”).

Num dos inúmeros jantares a que esteve presente, Camus faz um comentário interessante sobre o comportamento brasileiro; fora levado a jantar num restaurante, quando de sua chegada, por um trio: um jovem biólogo francês “furiosamente simpático” (Letarget), um poeta brasileiro (Augusto Frederico Schmidt) “enorme, indolente, com os olhos franzidos, a boca caída”, e um “señorito”, (não nomeado), para quem o Brasil “é um país onde só se trabalha, nada de viciados, aliás, não se tem tempo, trabalha-se, trabalha-se”, o que para nós chega a ser hilário. Eis a cena passada no restaurante:

“Com a ajuda do cansaço, me vem uma cólera tola e já afasto minha cadeira para retirar-me. Uma gentil intervenção de Letarget e também a simpatia que sinto, apesar de tudo, por esse curioso personagem-poeta, me retêm e faço um grande esforço para acalmar-me. ‘Ah’, diz o poeta, chupando os dedos, ‘é preciso muita paciência com o Brasil, muita paciência. ’ Digo apenas, como única vingança, que a mim não parecia ter-me faltado paciência até agora. (...) Apesar de tudo, o resto da refeição passa-se na calma, se bem que o poeta e o señorito não param de fazer apartes em português, nos quais julgo compreender que reclamam um pouco de mim. Além disso, essa grosseria, essa falta de modos, se expõe de forma tão natural que se torna amável.”

E Camus continua sua jornada carioca, cheia de encontros, alguns até lhe dão prazer, como o jantar em que é apresentado ao “poeta nacional” Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino” e a Kaïmi (Dorival Caymmi), “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”. Não resisto a transcrever um trecho desse encontro:

“Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido.”

No dia seguinte, após um passeio de lancha na Guanabara, conhece Murilo Mendes, por quem sentirá grande afinidade, descrito por ele como “poeta e doente” (era ex-tuberculoso, assim como Camus e Manuel Bandeira), de “espírito fino e resistente, um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui.”.

Ainda no Rio de Janeiro, antes mesmo dos encontros relatados acima, Camus escreve sobre o dia em que foi assistir a um ritual de macumba, no município de Caxias, a quarenta quilômetros da capital fluminense. Como me pareceu particularmente interessante, a visão de um estrangeiro sobre um rito religioso brasileiro, vou transcrever as quatro páginas dessa passagem numa outra postagem.

Do Rio de Janeiro Camus segue para Recife, cidade que lhe agrada, descrita por ele como a “Florença dos Trópicos”; visita Olinda no dia seguinte e na volta a Recife oferecem-lhe uma festa popular, porém os cantos e as danças não lhe causaram interesse, uma “macumba-chique” - anota em seu diário. Nesse ponto da viagem, o escritor adoece com freqüência, e é possível que a gripe e o estado febril tenham lhe tirado ainda mais o ânimo de viajar, que já não era grande. Mesmo assim, fascina-se com um espetáculo do “bomba-menboi”, como escreve, “um balé grotesco, dançado por máscaras e figuras totêmicas, sobre um tema que é sempre o mesmo: a matança de um boi”, e dispara a narrar o acontecimento com a evidente noção de quem gostou do que viu.

De Pernambuco à Bahia, que lhe parece “uma imensa casbah (uma espécie de cidadela marroquina) fervilhante, miserável, suja e bela”; Prefere a baía de Salvador, avistada do seu quarto de hotel, à do Rio de Janeiro, “muito espetacular para o meu gosto”. E continua; “esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. Visita as igrejas da cidade, que são as mesmas de Recife, “um barroco harmonioso que se repete muito”. Diz que é a única coisa a ser vista neste país (a arte barroca) e que isso se vê depressa. Chega a questionar-se: “Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil?”, resposta curta e grossa: “Não”.

A empreitada tropical continua. Volta ao Rio, visita Teresópolis e Petrópolis e pela primeira vez sente-se confortável com o clima do país, já que o calor das cidades (ainda que a viagem tenha ocorrido nos meses de julho e agosto) lhe atormenta. Viaja a São Paulo, “cidade estranha, Oran desmedida” e conhece Oswald de Andrade, que lhe expõe a teoria da antropofagia como visão do mundo.

Com Oswald de Andrade (Camus gostou do modernista) faz a viagem a Iguape, que ganhou certo destaque em suas notas de viagem (dessa ida à cidade, onde pode observar as festividades do Bom Jesus, saiu o material para o conto “A pedra que cresce”, de sua obra O exílio e o reino). Aqui Camus escreve quase em tom de humor a “aventura” do deslocamento, um verdadeiro “programa de índio”, como dizem. Afirma que o motorista se parece com Augusto Comte e passa a se referir a ele dessa forma espirituosa. O carro quebra, claro; Augusto Comte não é bom de mecânica, mas são salvos por um caminhoneiro de passagem. Almoçam em Piedade, “pequena aldeia sem graça”. (...) “Refeição brasileira, que não acaba mais, e que passa graças à pinga” – escreve. Augusto Comte erra o caminho e descobre que dirigiram 60 quilômetros além do destino, o que significava, naquelas condições, mais duas ou três horas de estrada.

Na passagem por Registro, uma nota peculiar: “verdadeira capital japonesa no meio do Brasil, onde tive tempo de ver casas de decoração frágil, e até mesmo um quimono”; chegam a Iguape no começo da madrugada. A viagem de 300 quilômetros levou dez horas. Mesmo cansado da viagem, Camus ainda assim reservou um elogio ao povo brasileiro; ao ser bem recebido pelas autoridades locais (apesar do horário avançado) faz a seguinte anotação: “Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria européia.”.E reclama, duas vezes, dos roncos ferozes e dos espirros de Augusto Comte, que lhe atrapalham o sono.

Depois de todas essas aventuras brasileiras, o renomado escritor ainda viaja ao Uruguai, Chile e Argentina, onde permanece poucos dias, “em pleno conflito psicológico”, como chega a escrever. “Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim, estão as águas esverdeadas, em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia.” Camus tem consciência de que sofre de depressão, mas durante todo o tempo foi um verdadeiro cavalheiro ao tentar, frente a tantos compromissos profissionais aborrecidos, esconder de seus anfitriões os conflitos interiores que lhe atormentavam a alma.

Quarenta e oito dias depois de sua chegada ao Brasil, Albert Camus volta finalmente para casa. As últimas palavras de seu diário não são muito animadoras: “Doente. Bronquite, no mínimo. Telefonam para avisar que partimos esta tarde. Faz um dia radioso. Médico. Penicilina. A viagem termina num caixão metálico, entre um médico louco e um diplomata, em direção a Paris.”


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Leia: Diário de Viagem- a visita de Camus ao Brasil. A cópia que tenho em mãos saiu pela Editora Record, com uma capa horrenda, por volta de 1980 (não consta o ano de publicação) e tem uma boa nota sumária a cargo de Otto Lara Resende. Foi relançada em 1997 (4ª ed.) pela mesma editora.

Se puder e tiver vontade, leia A Peste, de Albert Camus. Procure a edição que venha com a tradução de Graciliano Ramos, daí você sai ganhando duas vezes, certo? A minha, garimpadinha num sebo pelo preço de um picolé, é da Ed. José Olympo, Coleção Sagarana,1973.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, fiquei bem interessada nesta leitura. Muito legal todas as passagens aqui citadas. Bjs, Paula

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  2. Cara, sou fã de Camus, mas nunca li esse livro. Vou procurar com certeza. Um ótimo livro dele é um que ele nunca terminou (morreu durante a escrita), chamado "O primeiro homem". Esse livro lembra sua infância na Argélia --> muito legal!

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  3. Valeu a dica, FFF! Vou logo sebar o meu! Saludos, pc

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