sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De mala pronta (viajar também transforma as pessoas)

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Ontem fui a uma exposição muito bacana no SESC da Avenida Paulista, intitulada De mala pronta: o viajante do SESC conta a sua história. Trata-se de uma instalação artística composta de painéis fotográficos, depoimentos, vídeos, objetos, cartas e lembranças de viagem recolhidos dos viajantes do programa de turismo do SESC SP.

A exposição está muito bem estruturada e de forma agradavelmente lúdica, desde o corredor de entrada, no hall dos elevadores, quando o visitante encontra um painel intitulado “Fazendo a mala”, como se estivesse em um museu observando objetos de interesse histórico ou antropológico, com alguns itens que comumente aqueles que viajam levam (ou levavam) dentro de uma mala (e uma mala, além do mais, pode dizer muito sobre um viajante).

Na sala de entrada foi criada uma recepção de hotel, ideia bastante criativa e simpática dos organizadores. Passeando pelo espaço, que toma o segundo andar inteiro do edifício, encontramos alguns objetos expostos, como cartas, postais, fotografias e artigos de coleção deliciosamente kitsch, como bruxinhas e bibelôs de sapinhos, ou os tradicionais vidrinhos com pedras, areia ou água dentro, etiquetados com o local de origem da coleta.

Chamou-me a atenção o perfil dos viajantes retratados na exposição: dos dezessete selecionados, todos idosos, e pelo que me lembro, apenas um homem (e justamente o dono dos vidrinhos), mostrando que as mulheres, sabe-se lá o motivo, são muito mais participativas e sociáveis do que os homens quando entram na terceira idade. Outra observação interessante: com a chegada da internet, cartas e postais de viagem viraram artigos em desuso. Eu mesmo, que adorava comprar e enviar postais, já nem os noto quando viajo e senti uma certa melancolia ao me dar conta disso. Perdemos um hábito aparentemente obsoleto, mas o ato de escrever uma carta ou um postal significava muito mais do que apenas registrar a passagem por um local; era uma maneira de dizer que a pessoa que recebia a mensagem era querida e lembrada, coisa que o e-mail também pode fazer, claro, mas sem o mesmo charme e atenção outrora dispensados à escrita.

E entre uma passada de olhos aqui, outra acolá, vamos percebendo, nós que adoramos viajar, como possuímos hábitos semelhantes aos de outras pessoas, como se toda experiência deambulatória implicasse em algum tipo de comportamento inconsciente comum a todos, com espaço, evidentemente, para as diferenças de cada um. Coisas pequenas, como recolher um seixo de um regato, para guardar de lembrança de um lugar especial, enfeitar um canto da casa, o que isso representa de fato? Já parou para pensar? E quando esse simples ato, tão corriqueiro em suas viagens, deixa de fazer parte da sua experiência de vida? Por que deixou de ter sentido? Viajar também abre espaço para filosofar...

E o que me fez sentar aqui na frente desse computador para escrever esse post foi um texto que li antes de entrar na sala da exposição propriamente dita, logo à saída dos elevadores e que também aparece impresso no folder gentilmente oferecido na “recepção do hotel”. Leia que vale a pena.

Viajar (também) transforma as pessoas

Os diários ou relatos de viagem são um tipo de narrativa que têm resistido ao tempo, se renovado e mantido um certo encanto pelo seu caráter lúdico e informativo. Esses registros públicos ou privados estão presentes na história da humanidade desde tempos imemoriais com intenções didáticas, socioculturais, científicas ou fantásticas. Cada viajante é o protagonista de sua aventura-relato e, mesmo que não se dedique a registrar essas experiências, as marcas e o potencial transformador delas já se instalaram nos corações e mentes de cada um deles.

Os avanços tecnológicos propiciam o encurtamento de distâncias, a agilidade e o conforto nos deslocamentos e a redução de custos para um nível acessível a parcelas cada vez maiores da população. Há ainda quem desfrute das viagens virtuais, seja como preparação para o roteiro escolhido, seja simplesmente por ser esta a única alternativa disponível. Entretanto, nada substitui a vivência e as descobertas culturais, sociais e afetivas de uma viagem.

Viajar transforma as pessoas. Desconhecidos se aproximam. Compartilham histórias, vivências e conhecimentos. Mudam-se olhares e visões do mundo. A bagagem que se leva nunca é a mesma que retorna nas malas. Alimentamos o corpo, a mente e o espírito. Cuidamos de aguçar a percepção que temos de nós, da nossa cidade e dos outros. Exercitamos a tolerância e o respeito às diferenças.

Danilo Santos de Miranda
Diretor regional do SESC São Paulo

Tendo a chance, não perca: De mala pronta (o viajante do SESC conta sua história). Até 31/01/2010, das 10 às 19 horas no SESC da Av. Paulista, 119. Entrada franca. (fechado às segundas)

4 comentários :

  1. Sniff-sniff, perdi esta oportunidade. Uma pena, parece ser bem legal. Bjs, Pá

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  2. É sim, apesar de simples guarda um grande encanto. Fica prá próxima, né? ; )´
    beijin, pc

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  3. Pessoal, quem ainda não visitou a exposição De mala pronta - o viajante do SESC conta sua história", terá a oportunidade de conhecê-la até o próximo dia 28/03/2010. Além da exposição o SESC Avenida Paulista oferecerá uma roda de bate-papos com a troca de experiências entre viajantes,a oficina de leitura: De jornada e heróis: deslocamentos, escritas e relatos de viagens, e um bate-papo com Luis Nachbin, apresentador do programa Passagem Para... do Canal Ftura Consulte mais no portal SESC SP: http://www.sescsp.org.br/sesc/turismosocial/unidade_lista.cfm?forget=21&type=1

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  4. Valeu Ana Cristina! Vou fazer o possível para conferir essa ótima programação. Saludos, paulo.

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