segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Caminho zen: lições de Thich Nhat Hanh

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Uma das atividades que mais gosto de fazer, e que procuro praticar diariamente, é a caminhada sem pressa e sem compromisso, apenas fruindo o momento, aproveitando para observar as pessoas e a natureza, ainda que esta seja tão escassa na capital paulista.

Há alguns anos li um pequeno livro intitulado Meditação andando- guia para a paz interior (Ed.Vozes). Conhece? Foi escrito por um monge zen budista vietnamita chamado Thich Nhat Hanh. Hoje, ao (tentar) dar uma organizada na biblioteca aqui de casa, encontrei-o apertadinho entre uma obra do Paul Brunton e outra do Nicolas Roerich, o artista responsável pela bela pintura que ilustra a página principal do Odepórica. E lá se foi a arrumação da biblioteca... fiz um chá, levei o livro para minha poltrona de leitura e viajei novamente com o monge simpático, já buscando uma brechinha na obra para postar aqui no blog. E não é que eu achei?

Não espere um texto grande, como os que costumo postar aqui; espere sim um grande texto, porque estamos tratando de um bom homem, um monge que viaja o mundo pregando a paz. E o que tem isso a ver com o tema do blog, afinal? Ora, tem tudo a ver, eu te respondo, porque a meditação andando pode - e deve - ser praticada em qualquer lugar, mas possivelmente você sentirá seu efeito transformador quando puder exercê-la num local aprazível, numa praia ou num campo, por exemplo, e já que estamos no período das férias, que tal?

A técnica é fácil e qualquer pessoa pode praticá-la. Vou logo avisando: há de ser feita com C-O-N-S-C-I-Ê-N-C-I-A. Anda-se devagar, de forma descontraída e mantendo um leve sorriso nos lábios. Esteja atento ao ato da caminhada. Preste atenção à sua respiração, que deve ser uma respiração consciente. Para isso, observe quantos passos você dá enquanto seus pulmões se enchem e quantos passos dá enquanto se esvaziam, prestando atenção à respiração e aos passos. O elo, diz o monge, é a contagem. Não tente controlar nada, com o tempo seus passos e sua respiração encontrarão um equilíbrio natural. E não se esqueça do sorriso nos lábios, o leve sorriso do Buda...

Essa é a base da prática, no livrinho você encontra outras variações e o aperfeiçoamento da técnica. De minha leitura, recolhi duas passagens lindas e gostaria que você as lesse com atenção. São duas lições importantes que o Thây (professor, em vietnamita) nos dá, então vamos aproveitar que vale a pena:

O importante é a maneira de andar

Buda imprimia paz, alegria e serenidade sobre a terra a cada passo que dava. Há mais de trinta anos, quando visitei a montanha Gridhrakuta, onde Buda ensinava, andei pelos mesmos caminhos onde ele andou. Pisei o mesmo solo que ele pisou. Sentei-me sobre uma pedra em que ele, provavelmente, se sentou. Contemplando o pôr-do-sol vermelho e brilhante, eu entendi Buda e eu estava contemplando o mesmo sol no mesmo horário.

Se andarmos como Buda, continuaremos o seu trabalho. Nós alimentamos a semente do ser Buda em nós mesmos e mostramos nossa gratidão a Buda não pelo que dizemos, mas pela maneira com que damos passos pacíficos e felizes na terra.

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Eu ando por você

A guerra do Vietnã causou inúmeros ferimentos na mente e no corpo de pessoas de ambos os lados. Muitos soldados e civis perderam um braço ou uma perna e já não podiam juntar as palmas das mãos em reverência a Buda ou praticar a meditação andando. Anos atrás chegaram ao nosso centro de recolhimento duas dessas pessoas e tivemos de encontrar um meio para elas praticarem a meditação andando. Pedi que sentassem numa cadeira, escolhessem alguém que estivesse praticando a meditação andando e se tornassem uma só pessoa com ele, seguindo os seus passos com plena consciência. Dessa forma deram passos pacíficos e serenos com seus parceiros, ainda que eles mesmos não pudessem andar. Vi lágrimas de felicidade em seus olhos.

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Breve biografia de Thich Nhat Hanh



Um dos mestres Zen mais conhecidos e respeitados no mundo de hoje, poeta e ativista da paz e dos direitos humanos, Thich Nhat Hanh (chamado de Thây pelos seus estudantes) tem levado uma existência extraordinária. Nascido no Vietnã em 1926 ele entrou para a vida monástica aos dezesseis anos. A guerra do Vietnã fez com que os monges budistas se confrontassem com uma difícil questão: a de permanecerem aderidos à vida contemplativa, mantendo a prática da meditação nos monastérios, ou sair para ajudar os campesinos vitimados pelas bombas e outras devastações da guerra. Nhat Hanh foi um dos que escolheu aderir a ambos, ajudando a criar o movimento chamado de “Budismo engajado”. A partir daí sua vida tem sido dedicada ao trabalho da transformação interior para o benefício do indivíduo e da sociedade.

Em Saigon, no começo dos anos 1960, Thich Nhat Hanh fundou a Escola de Serviço Social para os jovens, organização assistencial que ajudou a reconstruir vilarejos bombardeados, levantar escolas e centros médicos, assentamento de famílias sem lar, e cooperativas agriculturais organizadas. Tendo reunido mais de dez mil estudantes voluntários, a Escola fundamentou seu trabalho nos princípios budistas da não-violência e da ação compassiva. Apesar da denúncia governamental de sua atividade, Nhat Hanh também fundou uma Universidade Budista, uma editora, e uma influente revista pacifista no Vietnã.

Após sua visita aos EUA e Europa em 1966 em uma missão de paz, ele foi banido de voltar ao Vietnã. Em viagens subseqüentes aos EUA ele fez a cobertura pela paz a oficiais federais e ao Pentágono; acredita-se que tenha mudado o curso da história norte-americana quando persuadiu Martin Luther King Jr. a opor-se publicamente à guerra do Vietnã, o que ajudou a galvanizar o movimento pela paz. No ano seguinte, Luther King o nominou para o Prêmio Nobel da Paz. Logo a seguir, Nhat Hanh integrou a delegação budista nos encontros pela paz em Paris.

Em 1982 ele fundou a Vila das Ameixas (Plum Village), uma comunidade budista exilada na França, onde ele continua seu trabalho de alívio ao sofrimento de refugiados, prisioneiros políticos e famílias inteiras de gente faminta no Vietnã e nos países do Terceiro Mundo. Seu trabalho também foi reconhecido pela ajuda aos veteranos do Vietnã, retiros de meditação e seus escritos prolíficos sobre meditação, atenção mental e sobre a paz. Possui mais de uma centena de obras escritas, entre as quais, publicadas no Brasil, “Paz a cada Passo”, “A arte do poder”, “A energia da oração”, “Aprendendo a lidar com a raiva”, “Caminhos para a paz interior”, “Corpo e mente em harmonia”, “Meditação andando” entre outros, fáceis de encontrar no site da Estante Virtual.

Thich Nhat Hanh continua a viver na Vila das Ameixas, na comunidade por ele fundada, onde ensina, escreve e pratica jardinagem. A chave dos ensinamentos de Nhat Hanh é a de que, através da mente ativa, nós podemos aprender a viver o momento presente, ao invés de ficarmos presos ao passado ou ao futuro. Viver o momento presente é, de acordo com Nhat Hanh, o único caminho real para desenvolver a paz, tanto a individual, quanto a mundial.

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O texto original em inglês pode ser acessado na página de Thich Nhat Hanh, onde você também poderá obter informações sobre a Vila das Ameixas. Anote:
http://www.plumvillage.org/index.php


Sobre budismo, zen-budismo e outras escolas orientais indico um portal excelente em português:
http://www.dharmanet.com.br


Namastê!

2 comentários :

  1. Olha Paulo que coincidência, estou com um livrinho deste mesmo autor na minha mesinha de cabeceira, Present Moment Wonderful Moment. Assim que eu terminar esta leitura, o livro é seu. Beijocas, Pá

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