terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Bethânia odepórica: Tocando em frente

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Gosta de música? Pois Tocando em frente, composta por Almir Sater e Renato Teixeira tem muito do espírito do Odepórica. Fala de viagem, fala da vida da gente. Não dá no mesmo?

E apesar de gostar muito do Almir Sater cantando essa música, me comovo mais com Bethânia, por isso deixei marcado no final desse post o link de um vídeo com a interpretação dela, que de quebra ainda declama Odalisca Andróide, fragmento de um texto do pirado Fausto Fawcet chamado “Disco Voador”:

Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Não há viagem onde não haja uma trilha sonora, qualquer que seja ela. Todos temos uma memória musical: pode ser uma canção de ninar, o hino de um time, a passagem de uma peça clássica que vira e mexe se assobia distraidamente, uma canção romântica, um rock psicodélico dos bons... cada música, uma lembrança: da mãe da gente quando jovem, do programa de rádio ouvido diariamente pela empregada do vizinho, do primeiro beijo, do tapa no baseado fumado escondido na casa de um primo, daquela viagem à praia quando um verão durava uma eternidade... para cada momento e fase da vida, uma canção.

Se a viagem for a um país estrangeiro, então nem se fala: você detesta tango, mas em Buenos Aires acaba enfeitiçado pelo ritmo portenho; salsa e merengue? Nem pensar, mas no Caribe até que dá vontade de sair bailando por las calles, verdad? Música francesa te parece cafona, eu sei, mas em Paris, ah...Paris, não há outra trilha que a substitua e você até compra aquele cd que nunca irá ouvir ao voltar para casa, assim como aqueles que trouxe do México e da Tailândia, claro. Isso acontece com todos nós porque a música muitas vezes tem o poder de resgatar, nem que seja um pouquinho, o espírito de um lugar ou de um momento especial, ou de ambos.

Mas voltando à letra dessa bela canção, lembro-me de tê-la visto impressa num pedaço de papel, pregadinha num quadro de avisos de um albergue de peregrinos no Caminho de Santiago. Fiquei tão contente quando a vi ali, no meio de vários outros pedaços de papéis com mensagens de ânimo em várias línguas, poemas, frases curtas, pensamentos, reflexões... só mesmo longe de casa para nos darmos conta de como nossa língua é bonita e como nosso país é musical. Será por isso que os estrangeiros nos enxergam um povo tão alegre? Pois brasileiro gosta de cantar, isso eu sei. Brazuca peregrino tem sempre um repertório na ponta da língua, pergunte a quem já encarou essa aventura.

E por falar em Caminho de Santiago, não consigo me lembrar de uma canção que consiga traduzir tão bem o ritmo dessa experiência quanto Tocando em frente. E é engraçado, vejo agora que o título dela é a tradução exata de uma expressão muito comum entre os peregrinos jacobeos desde a Idade Média: Ultreya!

*


Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia.
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
e no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

*


2 comentários :

  1. Gosto, gosto de música sim e o seu repertório é de muito bom gosto. Porém, prefiro esta música cantada pelo Almir Sater. A versão da Maria Bethânia, que também é bonita, parece mais um poema, uma declamação. De qualquer forma, esta letra é linda e o significado dela fica mais nítido e tocante quanto mais vivemos, não é? Beijos, Paula

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  2. Pois é, mas como sou fã de Betânia, tinha que prestigiá-la, né? Mas como escrevi no post, também gosto do Almir Sater cantando, não só essa como as outras belas canções do seu repertório. Legal seria ver os dois cantando juntos, né?
    besito, pc

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