sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O país inventado de Isabel Allende

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Bom demais! Assim começo esse post, pelo entusiasmo que sinto cada vez que leio um texto de Isabel Allende. Aliás, comecei a ler a obra dessa premiada autora chilena (bueno, uma chilena nascida no Peru...) esse ano e quase que não me perdôo pelo atraso da descoberta. O único contato que tive com a obra de Isabel Allende foi através do filme baseado em seu romance mais famoso, A casa dos espíritos. Muitos anos depois cai em minhas mãos Mi país inventado, que devorei de um fôlego só e de quem vamos falar daqui a pouco.

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.

Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.

Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:

Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.

Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.

A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.

E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.

A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.

Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.



E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!


O Chile de Isabel



(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.

(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.

Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.

Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.

Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?

Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.

Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.



(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.



Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Irlanda, uma bicicleta e uma tin whistle, by David Wilson

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Embora não seja de fato um problema, costumo ter preguiça de ler romances em inglês e quando o faço é porque o texto realmente me interessa. Domingo retrasado tirei o dia para ler uma obra que descobri ao acaso, por conta do título, navegando pelo site da Amazon: Ireland, a bicycle and a tin whistle, de David A. Wilson.

Como já escrevi aqui no blog, decidi aprender a tocar flauta esse ano e para isso escolhi um modelo dos mais simples que existem, com bocal em forma de apito, muito comum na Irlanda chamada tin whistle (ou penny whistle, ou somente whistle). Em inglês, tin significa latão e whistle, apito. Como “flauta de latão” não tem o mínimo charme, por aqui a rapaziada (os/as whistlers) usa o termo em inglês mesmo, tin whistle. O material já indica: a flautinha custa baratinho, e o som é delícia pura, principalmente nas mãos de quem domina o instrumento.
Mas vamos ao que interessa, começando por um breve resumo da obra: um professor de uma universidade canadense decide viajar pelo norte da Irlanda, durante várias semanas, montado numa mountain bike. Na bagagem, sua inseparável whistle e uma disposição para pedalar e beber e varar noites em pubs de dar inveja a qualquer adolescente notívago (o autor devia estar por volta dos 45 anos à época da viagem). Não é pouca coisa, afinal a Irlanda, como se sabe, é cheia de montanhas. É claro que depois de muitas ressacas ele aprende a dosar as coisas, mas disso a gente fala depois.

Em sua viagem o David, que é professor de estudos celtas, traça um roteiro que privilegia locais de forte presença celta no território (sítios arqueológicos interessantíssimos) e que também ofereçam a oportunidade (aparentemente nada difícil) de visitar os mais insuspeitos pubs irlandeses atrás das famosas sessions.
Sabe o que é uma session irlandesa? Eu conto. É um tipo de evento em que um grupo de pessoas se reúne, em um pub, para beber, conversar e tocar música tradicional. Coisa entre amigos, não tem nada a ver com apresentação em público, já que isso foge totalmente do espírito de uma session. Eu nunca fui (ainda) mas sei como funciona: primeiro chega um, com uma flauta, pede uma Guinness e logo chega um camarada, empunhando seu bodhrán, instrumento de percussão que lembra um tambor.
Vem uma loirinha, a Liz, com o fiddle (violino) e daí já sairia um sonzinho bacana, mas eis que chega o John com sua gaita típica (uillean pipes) e dois colegas seus que tiram bem um som das whistles (Feadóg, em gaélico, só para constar), e aí já era. Música rolando solta no pub, ninguém ouve mais ninguém, aquela fumaceira de cigarro e várias canecas de chopp (pint, como dizem por lá) goelas irlandesas abaixo. O mais parecido por aqui, acho eu, seria uma roda de samba, ou de chorinho, ou de pagode (argh!) em que todos tocam um instrumento em volta da mesa, bebendo cachaça e cerveja e petiscando gordurosos acepipes de boteco. Quem não tem instrumento batuca o tampo da mesa mesmo, chacoalha caixinha de fósforo, essas coisas e tal. Cada cultura se vira com o que tem, ué.
E chega de enrolação porque senão isso vai longe que já me conheço muito bem. Vamos apreciar então a narrativa de viagem do fellow David Wilson, right? Right.

A viagem começa em Whitehead, povoado na Irlanda do Norte onde o autor nasceu. Viveu pouquíssimo no país, com meses de vida sua família já se havia mudado para a Inglaterra e depois para o Canadá, onde de fato se criou (diz o autor que no século 19 havia tantos irlandeses no país que Toronto era conhecida como a Belfast do Canadá). Um canadense de ascendência irlandesa é o que ele é. Mas isso nunca o afastou de suas origens, tanto que trabalha envolvido com isso. A viagem à Irlanda parece ter sido uma volta ao ninho, ao útero, e isso ele deixa claro quando afirma que “de certa maneira, voltar a Whitehead era como voltar para casa”.
A narrativa começa tratando de duas coisas que se repetirão algumas vezes ao longo de toda a viagem: o conflito religioso tão cheio de ranço entre católicos e protestantes, mostrando que a tensão religiosa entre os dois grupos está longe de terminar, e as bebedeiras nos pubs, dando até a impressão de que o álcool lhe serviu de combustível para pedalar. Sério. Mas isso até que é divertido, e David chega a escrever, meio que tentando se justificar, que o fato de estar pedalando uma bike lhe dá a chance de queimar as calorias e de manter algum tipo de equilíbrio entre as canecas de cerveja consumidas e as milhas percorridas. Beleza.
Sobre a questão do conflito religioso, onde geralmente impera a violência, é difícil achar alguma graça, mas o David conseguiu fazer parecer divertido um episódio que no fundo é patético, quando sua segurança pessoal dependia da religião por ele professada:

Nas raras ocasiões em que surgia o tema religião, eu dizia que era agnóstico, o que era, na verdade, entendido como uma maneira covarde de evasão. “Ok, ok”, você ouvia alguém murmurar, “mas você é um agnóstico protestante ou um agnóstico católico?” O que eu poderia dizer? Ser agnóstico é pior do que ser ateu numa escala de desaprovação porque, pelo menos, os ateus têm coragem de assumir suas convicções naquilo em que não crêem.

A narrativa começa a ficar boa a partir do segundo capítulo, quando David se desloca até a Península de Islandmagee, lugar de poucos visitantes com um passado pré-histórico interessante que muitos de nós, posso apostar, gostaríamos de conhecer. Diz que no alto de uma colina, bem no topo da Península, há um altar, onde aconteciam antigas cerimônias de sepultamento - Druid’s Altar é o nome do lugar, em cujo horizonte se avista o mar da Irlanda. Não parece incrível? Claro que um lugar com esse cenário não passaria incólume nos anais das fantásticas histórias lendárias da humanidade. E o David conta uma delas:
A Península poderia ser facilmente confundida como sendo um fragmento da Escócia - a conexão com esse país continua forte, prova disso são as tradições folclóricas que ali permanecem.

“Em nenhuma parte da Irlanda”, diz um relatório governamental de 1830, “as pessoas são mais inveteradamente supersticiosas do que aqui”. Há histórias de assombrações, canções de fadas, videntes, feitiço e contra-feitiço. Para que suas vacas não fossem enfeitiçadas, você tinha que pendurar uma “pedra da bruxa” acima de suas cabeças no estábulo. Para proteger a si mesmo dos feitiços você tinha que espargir cravos de defunto no pátio de sua fazenda no Dia do Trabalho.
Antes de mudarem para Whitehead, meus pais passaram vários anos em Islandmagee, vivendo no chalé de um fazendeiro sem eletricidade e sem água corrente. Mesmo sendo estrangeiros, vindos de um mundo moderno, industrial, urbano, não demorou muito para que começassem a sucumbir ao sobrenatural. “Se alguma vez você vir uma vaca com duas cabeças”, disseram a meu pai, “você estará frente a frente com o próprio Diabo em pessoa”. Ele não pensou mais nisso até que, numa noite, voltando a pé para casa sozinho, viu ao longe, imóvel, contra a escuridão do céu noturno, a silhueta de uma vaca, com a cabeça onde deveria estar uma cabeça, e outra cabeça onde deveria haver um rabo. “E o que foi que o senhor fez?” – eu perguntei – “Eu corri pra cacete!”, ele disse, “e não parei de correr até chegar em casa e fechar a porta atrás de mim, com as chaves bem guardadas no meu bolso”.
Rememorando fatos da infância, certamente influenciado pela visita à cidade natal, David conta alguns episódios interessantes ali vividos pelos pais enquanto ele ainda era um bebezinho e um episódio, que à primeira vista parece desprovido de qualquer conteúdo simbólico chega-me cheio de significado, talvez porque algo semelhante tenha se passado comigo há alguns anos.

Como foi dito, a ilha em que viviam era um lugar isolado; sua mãe, uma mulher que já havia vivido em Londres, não entendia a movimentação entre os habitantes locais quando da chegada do ônibus que diariamente passava pela península vindo de Belfast. Achava aquilo tudo muito excêntrico, mas depois de algumas semanas ela também era uma das que esperava ansiosamente a passagem do coletivo. Aquilo, escreve David, se tornara um dos momentos mais aguardados do dia, a espera pelo ônibus, a conversa com os vizinhos e eventualmente um chá com biscoitos na casa de algum conhecido. Só alguém que já viveu em um local isolado pode entender o significado mais profundo dessa passagem.

No momento em que o narrador chega ao pequeno povoado de sua infância, o leitor percebe que em sua viagem o passado tem um grande peso no chamado à aventura; buscar elementos que o façam resgatar parte desse passado é importante para ajudá-lo a compreender quem é – e no que se transformou o homem com o passar do tempo e a distância da terra natal.
E o pedal vai comendo os quilômetros. Muitas vezes, certamente inebriado pela beleza das paisagens irlandesas, desce da bike e senta-se para tocar algumas velhas melodias folk em sua whistle. Como imaginei, antes mesmo de ter o livro em mãos, a arte de tocar uma whistle ganha na obra um duplo sentido: o literal, que é a própria identificação com o objeto, o instrumento musical, a arte que ajuda a afirmar sua identidade cultural, e o metafórico, que é o processo de aprendizagem do whistler, do artista. Vou transcrever um trecho da obra que me encantou e que faz exatamente menção ao que acabo de escrever:

Na localidade de Garron Point, tirei a tin whistle do alforje, pulei por sobre uma cerca, sentei na relva áspera e comecei a tocar. Uma suave melodia soprou pelos campos, indo flutuar pela superfície do mar – uma peça composta três séculos atrás pelo harpista cego Turlough Carolan para Fanny Power, a filha de um de seus patrões.
Depois toquei um jig (originário das “gigas” medievais italianas, semelhante à valsa), “Out on the Ocean”, saltando sobre as águas, leve como um dia de verão. A música é feita de movimentos sinuosos, e estes dependem do astral do ambiente – do estado da sua mente, da direção do vento, dos sons que vêem do mar. Um jig ou um reel (música tradicional bastante animada) jamais soarão exatamente da mesma maneira duas vezes; as ornamentações, elaborações e os sincopasses vão rolar, dar voltas através da melodia, mudando sua natureza ao ser tocada. Existe a melodia, e há também o modo como você toca a melodia. Assim também existe um mapa, mas é você quem decide a maneira que irá viajar.

Você poderia percorrer a Irlanda em um carro, permanecendo fiel às rotas principais; mas se você pega uma bicicleta, e respira o ar puro, e se perde pelas estradinhas vicinais, você chega mais perto do espírito do lugar. Você poderia aprender música tradicional através dos livros, ficando fiel às notas principais de uma melodia; mas se você toma nas mãos uma tin whistle, soprando o ar para fora, passeando pelas inúmeras possibilidades de variações, você estará muito mais perto do espírito de uma composição. Dirigir uma bicicleta ou tocar uma whistle faz com que a jornada se torne mais do que atingir o final de um destino; torna-se o fim em si mesmo, o seu próprio destino.
Uma tin whistle tem beleza e simplicidade, um limitado alcance de notas mas uma extensa gama de sentimentos. Há slow airs (“ária”, do italiano, canções leves e introspectivas) que fariam as lágrimas rolarem pelas suas pernas, mas também as melodias de dança capazes de fazer seu espírito bailar para bem alto. Às vezes, nas sessions, os músicos mudam de uma melodia deprê direto para um set de canções animadas (reels) só pra mandar a tristeza embora.

Hora de partir; ponho a tin whistle de volta na bagagem. Acima de tudo, a whistle é um instrumento ideal para carregar numa viagem, muito mais fácil de se levar numa bicicleta do que um violão, por exemplo, ou um piano. A whistle é também o mais democrático dos instrumentos musicais; pelo preço de dois canecos de cerveja (que é a moeda corrente universal dos vadios e dos menestréis), você tem acesso ao mundo das jigs e dos reels, das canções e dos lamentos. E enquanto você segue viagem, vai aprendendo a música ao ouvir as pessoas tocando, e você absorve o espírito da coisa indo aos locais onde essas pessoas tocam – as cozinhas, os pubs, os festivais, em cidades e vilas ao redor de todo o país.

E de nota em nota, pub em pub, David vai seguindo em frente. Em Tiveragh Hill, para acalmar os sentidos (e aliviar uma ressaca brava), sai caminhando pelo lugar onde viviam as fadas. É sabido que pelas manhãs, antes dos humanos despertarem, elas emergiam das encostas e jogavam hurley nas ladeiras. Parece que o autor se interessa mesmo pela vida desses pequenos elementais, herança mitológica dessas místicas ilhas britânicas. Não são poucas as vezes que surgem comentários fazendo referência a esses seres:
De volta à parte mais alta da estrada, você pode caminhar, com o coração saindo pela boca, pelo campo coberto de urze até o cume de Fair Head, onde a terra desaparece para dar lugar ao oceano. Aqui, na extremidade da existência, criaturas estranhas e imprevisíveis, habitantes dos rochedos, fizeram o seu lar – um bando de elfos e duendes brincalhões. Eles o ajudarão, caso o escolham para isso, mas também o machucarão se você passar sobre eles. Um duende pode dar assistência a um velho fazendeiro na hora de debulhar o milho, mas se o fazendeiro deixar do lado de fora de casa um pouco de pão e de leite como forma de agradecimento, o duende, percebendo que sua presença foi detectada, nunca mais retornará.
(...) Tal como as fadas de Islandmagee, os duende e elfos vivem em anéis mágicos ao redor de arbustos espinhentos, e a má sorte cairá sobre aqueles que o perturbarem. Um fazendeiro de Fair Head certa vez cortou um ramo de um arbusto espinhento para abrir o caminho onde a terra seria arada. No dia seguinte, ele notou que faltava o rabo de uma de suas vacas, que foi eventualmente encontrado pendurado no arbusto, no exato local de onde o ramo havia sido cortado. Sorte pior veio a seguir: ao trabalhar na forja, no dia seguinte, enquanto afiava seu arado, uma faísca voou da forja e lhe cegou um olho. Só Deus sabe o que poderia ter acontecido a ele caso tivesse botado todo o arbusto para baixo. De qualquer forma, os ciclistas que quiserem evitar um pneu furado ou coisa pior devem ficar bem atentos e manter distância dos arbustos espinhentos nas redondezas de Fair Head, só por precaução.
Mais à frente o viajante dá um tempo nessa questão dos seres não tão bonzinhos da natureza, e passa a dedicar-se com mais intensidade às sessions, quase como uma obsessão. Num momento de reflexão, em que analisa com bastante clareza o papel social dessas sessões musicais, afirma que a alta demanda do turismo contradiz o espírito das sessions. O turismo requer “ordem e regularidade – com um aviso postado na janela do pub: Música Tradicional às 21:30”. Desse modo, esclarece, as pessoas saberão quando e onde as coisas estarão acontecendo.

Mas as sessions são, por natureza, imprevisíveis e espontâneas, como que surgindo assim, do nada. Os músicos se reúnem, bebem uma cerveja, riem, conversam, ganham uma rodada na faixa, ensaiam algumas melodias mas, acima de tudo, estão ali por conta do encontro com amigos e pela diversão, onde o importante é compartilhar o momento. E se outras pessoas quiserem compartilhar também, tanto melhor.
Não resta dúvida de que o turismo tem ajudado muito o ocidente; ele traz dinheiro e também providencia alguma renda a músicos que ainda têm que dar duro para serem reconhecidos, além de trazer uma vida nova à região a cada verão. Mas, de acordo com o Princípio de Heisenberg, o ato de observar muda a característica daquilo que está sendo observado. Uma vez que uma session é apresentada para uma audiência, deixa de ser aquilo que sempre foi. Já não é mais uma session.

O que o David diz, com muita razão por sinal, é que o turismo pode alterar sutilmente uma cultura ao transformá-la em produto de mercado. Se por um lado, no caso da Irlanda, o turismo traz como promessa uma nova energia e vida às localidades outrora desconhecidas, por outro tem como perigo transformar o país no maior parque temático da Europa. Triste, mas verdadeiro.

Nas páginas que se seguem David vai se transformando em um viajante mais contemplativo, mais filosófico até. Continua enchendo a cara, mas pega um pouco mais leve; toca muito sua whistle em campos abertos, aproveitando o melhor daquilo que a natureza tem a lhe oferecer. Nem tudo é sonho, claro, afinal uma viagem sem perrengue também não tem a mínima graça; quase é atacado por um grupo de adolescentes delinqüentes, amargura uma infecção intestinal das boas (mão do destino, quem sabe, dizendo “vai devagar, filho, d-e-v-a-g-a-r....”) que o obriga a descansar uns dias antes de pegar a trilha novamente. E de volta à estrada, um pneu furado, e a graça em conhecer um David totalmente desajeitado.

E se você curte música tradicional irlandesa, o que vem pela frente é uma delícia, o autor conta passagens da vida de alguns músicos famosíssimos por aquelas bandas do mar do norte, entre eles Turlough Carolan, o maior harpista que a Irlanda já viu nascer. “Se uma nova religião houvesse de surgir na Irlanda”, escreve David, “Carolan deveria ser seu líder espiritual, e sua música a sua inspiração”. Carolan, que viveu entre os séculos 18 e 19 começou a tocar harpa aos dezoito anos, quando ficou cego por causa da varíola; muitos harpistas itinerantes eram cegos, porque a música era a única maneira que possuíam de ganhar a vida.
Por ter começado a tocar relativamente tarde, Carolan nunca foi um virtuoso em sua arte; sua grandeza reside muito mais em suas composições do que em sua técnica instrumental, “no poder dos ouvidos, mais do que no poder das mãos”, como escreve David. “Meus olhos” – disse Carolan em uma ocasião – “foram transplantados em meus ouvidos”. Viajou pelas duras terras irlandesas montado em um cavalo e tocava sua harpa nos povoados em que pernoitava. Naqueles tempos, a hospitalidade era coisa séria e ninguém ousava negar abrigo a um bardo, sob o risco de ver seu nome ridicularizado em canções ao redor de todo o país.
Carolan compôs sua última melodia, “Farewell to music” em 1738 e morreu durante o sono, na mesma casa onde aprendeu a tocar sua harpa e de onde partiu para pegar a estrada. E são muitas as lendas que surgiram após sua morte, as quais valem a pena conhecer se você curte contos no melhor estilo Twilight Zone...

David ainda aprontou muito e se divertiu bastante depois do episódio do pneu furado. Teve tempo, durante a viagem, de fazer um curso de whistle com um velhote assustador, só para descobrir que no final das contas a whistle só se aprende de verdade ouvindo – e entrando no espírito da música. É de se pensar em quantas coisas na vida a gente não aprende da mesma forma, apenas se entregando de corpo e alma àquilo que deseja conquistar. Estar atento ao foco, é isso o que parece dar certo.
O fim da viagem se dá após a chegada a Belfast, seguida da volta à cidade natal. Um simbólico roteiro circular. As últimas palavras de David são simples e bonitas, como uma melodia suave tocada na whistle.

Peguei minha bicicleta e a whistle e mais uma vez andei pela costa, pelas cavernas e pelos rochedos de Blackhead. Casais de idosos passaram por mim, sorrisos enrugados em faces rosadas. No local em que a senda segue para cima, em direção ao farol, resolvi descer com a bike e sentei-me junto às rochas em frente ao mar e ali permaneci em silêncio. As ondas batiam contra as pedras; gaivotas circulavam na brisa marítima. Havia um vento leve que vinha do sul, o último sinal do verão que já se despedia. Eu me virei em direção ao mar da Escócia, de modo que o sol pudesse aquecer minhas costas e a whistle protegida dos respingos da água do mar. Um dia retornarei a esse lugar. Comecei a tocar “South Wind”, uma melodia lenta, suave e melancólica, um lamento e uma canção, enquanto as notas eram levadas pela corrente e se dissolviam para dentro do mar.

Ireland, a bicycle and a tin whistle
. David A. Wilson. Illustrated by Justin Palmer. Mcgill-Queen´s University Press, Canada, 1995.

















domingo, 14 de novembro de 2010

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector, by Douglas P. Barreiros

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Encontrei por acaso esse texto enquanto fazia uma pesquisa na web para minha próxima postagem. Ando lendo a obra de Isabel Allende, de quem pretendo falar em breve, e foi buscando informações dessa encantadora (e encantada) escritora que me deparei com outras duas grandes mulheres da literatura mundial, Virginia Woolf e Clarice Lispector.

Nunca li Virginia Woolf, e de Clarice conheço pouco, um par de obras lidas na época do colégio. Preciso dar um jeito nisso, mas enquanto não tomo vergonha na cara, vou lendo pequenas passagens aqui e ali, comentários, citações, frases soltas em diários virtuais...

Embora não conheça a obra de Virginia Woolf, sei um pouco de sua biografia por conta de um livro delicioso escrito pelo Antonio Bivar, autor que sempre recomendo e que é membro do Virginia Woolf Society; de suas peripécias pela Inglaterra, no meio da inglesada toda apaixonada pela obra de Virginia, publicou em 2005 Bivar na corte de Bloomsbury. (mais sobre o Bivar aqui)

O texto que você irá ler é uma análise acadêmica de duas obras que marcaram o início da produção literária de Clarice e Virgínia: Perto do coração selvagem e The voyage out. O autor, Douglas Paulino Barreiro, escreve que é uma beleza, sendo sua análise clara e objetiva, como deveriam ser todas as análises literárias.

As duas obras tratam do tema da viagem. O autor escreve que nessas obras a viagem aparece “como construção alegórica que representa o percurso de transformação interior vivido pelas protagonistas”. Primeiro ele trata de analisar o livro da Virginia Woolf, em cuja obra “a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino”; depois é a vez da nossa Clarice, que faz uma viagem diferente, mas que em comum com a narrativa da inglesa tem a jornada rumo ao mar. O objetivo do autor foi o de traçar analogias entre os textos das duas escritoras.

O Douglas não explorou muito algo que a mim me chamou a atenção: o significado simbólico da água. Matriz, de onde surge a vida, a água traz à tona os elementos do inconsciente, é purificadora e tem fortíssima ligação com o feminino, a fertilidade e a fecundidade. E isso só para ficarmos na superfície, claro. Gostoso notar que de uma leitura surgem inúmeras outras, não? Namastê!

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector



Por Douglas Paulino Barreiros



A literatura de viagem tem uma longa história e desde seus primórdios caracteriza-se como o relato de uma vivência proporcionada por um deslocamento físico. Trata-se, portanto, da descrição/narração de uma experiência vivida por alguém que partiu de um lugar conhecido e se dirigiu para um espaço novo, estranho. Essas narrativas, contadas sob a ótica estrangeira do viajante, são uma espécie de ligação entre um mundo vivenciado e um outro desconhecido.

Contar os acontecimentos de uma viagem implica uma tradução do “outro”, do “novo”. Aquele que viaja tem um repertório próprio de imagens, símbolos e concepções. Por isso, a representação da alteridade se faz por meio do afastamento e da aproximação do que é visto pela primeira vez com o que é familiar.

Esses relatos unem aventura, observação, impressões e representações, que constituem um modo único de escrita, um gênero próprio, condicionado a uma prática particular, a viagem. As narrativas de viagens não podem ser consideradas exclusivamente como documentos históricos, literários, ficcionais ou científicos, isso porque, muitas vezes, estes estilos encontram-se reunidos simultaneamente.

Tomando o século XVI, período das descobertas, como ponto de partida, é possível perceber que a literatura de viagem evoluiu gradativamente, passando de um relato descritivo para o registro de uma experiência. Se antes o ponto de interesse era a descrição de um espaço exterior, bem como seu reconhecimento, hoje, a narrativa de viagem firma-se como a escrita de uma vivência pessoal do indivíduo viajante, o que resulta em uma poética de impressões subjetivas.

Essa transição é fruto das transformações ocorridas entre os séculos XVI a XX, como por exemplo, o desenvolvimento cartográfico, as evoluções dos meios de transporte cada vez mais velozes, o surgimento dos meios de comunicação de massa, que além de informar o que se passa ao redor do mundo, conta com a presença de imagens que mostram lugares distantes e inacessíveis. Todas essas questões contribuíram para que na modernidade a literatura de viagem se desenvolvesse como narrativa deixando seu caráter pragmático para trás.

O que importa saber é que o tema da viagem é ainda hoje marca recorrente na literatura universal e se apresenta sob formas diversas, como a viagem real, imaginária, simbólica, fantástica ou alegórica. Dentre essas maneiras de se tematizar a viagem, a alegoria merece atenção especial, pois é possível perceber um número considerável de obras modernas que se utilizam desse recurso narrativo para reeditar o interesse pela viagem. Com o objetivo de proporcionar uma discussão em torno dessa modalidade, partiremos da análise de dois romances modernos cujo tema da viagem é tratado pelo viés alegórico.

Os textos aos quais nos referimos são The Voyage Out, de Virginia Woolf e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector. Estas obras marcam o início da produção literária de ambas as autoras. Acreditamos que a seleção destes escritos é significativa, pois além de tratarem do tema da viagem, eles delineiam as características principais das escritoras.

A partir da leitura e análise dessas obras, é possível perceber que nesses romances a viagem é na verdade uma construção alegórica que representa o percurso de transformação interior pelo qual passam as protagonistas. Essa hipótese pode ser confirmada a partir dos conceitos que João Adolfo Hansen aborda em seu livro Alegoria: construção e interpretação da metáfora.

Para este estudioso, a alegoria está diretamente relacionada com a metáfora sendo que a diferença entre elas seria de ordem estilística. Enquanto a metáfora é uma figura de palavras, a alegoria estende-se ao nível do enunciado, ou seja, a alegoria é na verdade uma metáfora continuada.

Vale ressaltar outra questão tratada por Hansen. Segundo este autor, a alegoria é ordenada em lugares-comuns, sendo a travessia pelo mar o mais usual de todos. Para ele, a viagem assume, de modo geral, o significado de destino pessoal. Conforme apontado, é isto que se percebe na construção dos romances analisados. Em ambos os textos a viagem marítima empreendida pelas protagonistas alegoriza o percurso interior de auto conhecimento e auto transformação.

Iniciaremos os apontamentos pela análise do livro de Virginia Woolf, para em seguida traçar analogias com o texto de Clarice Lispector. O motivo de tal metodologia se justifica por uma questão cronológica, em nenhum momento se pensou em contrapor os textos e traçar hierarquias entre eles.

The Voyage Out é a narrativa de uma viagem realizada por um grupo de ingleses que parte de Londres, a bordo do navio Euphrosyne, em direção a Santa Marina, cidade fictícia localizada na América do Sul, na foz do rio Amazonas. A protagonista do romance é Rachel Vinrace, jovem órfã, cuja educação coube a duas tias, senhoras idosas e defensoras dos padrões tradicionais da sociedade inglesa da época vitoriana.

O desenvolvimento da trama se faz a partir da história de Rachel, cuja vida passa por inúmeras modificações que são metaforizadas na viagem. Desta forma, o romance se estrutura em dois planos distintos: o relato do deslocamento físico, paralelo ao da transformação interior da protagonista.

No começo do romance a personagem é apresentada como um ser frágil, sensível, inocente, além de superprotegida.

Her face was weak rather than decided, saved from insipidity by the large enquiring eyes, denied beauty, now that she was sheltered indoors, by the lack of colour and definite outline. Moreover, a hesitation in speaking, or rather a tendency to use the wrong words, made her seem more then normally incompetent for her years […] Yes, how clear it was that she would be vacillating, emotional and when you said something to her it would make no more lasting impression than the stroke of a stick upon water (WOOLF, 1992, p.13).[1][1]

Essas características são o resultado do tipo de educação recebida e também revelam o caráter simples e interiorano da personagem. Rachel passou a infância, a adolescência e parte da juventude no campo, em Richmond, onde contava apenas com a companhia das tias. Por conta da dificuldade em se chegar a este sítio, a única amiga de Rachel era uma “girl who was a religious zealot, who in the fervour of intimacy talked about God, and the best ways of taking up one´s cross” (WOOLF, 1992, p. 27).[1][2] Essa reclusão é rompida com o convite que Rachel recebe de seu pai, um comerciante, para acompanhá-lo em uma expedição.

As modificações interiores pelas quais a protagonista passa são motivadas pelas relações interpessoais. No navio, as personagens vão sendo descritas física e psicologicamente, é também neste espaço que o narrador apresenta o início da mudança de Rachel. O começo da viagem é explicitado no primeiro parágrafo do capítulo dois, no qual o narrador supervaloriza esta cena. Isso ocorre porque, na verdade, o que se inicia é a “viagem interior” de Rachel. .

The Voyage had begun, and had begun happily with a soft blue sky, and a calm sea. The sense of untapped resources, things to say as yet unsaid, made the hour significant, so that in future years the entire journey perhaps would be represented by this one scene, with the sound of sirens hooting in the river the night before, somehow mixing in (WOOLF, 1992, p. 17).[1][3]

Os capítulos que narram a viagem vão apresentando aos poucos as alterações interiores da protagonista, que passa a interagir com as outras personagens, sobretudo com Helen, uma outra tia que participa da travessia, e posteriormente com um casal – Richard e Clarissa Dalloway – que embarca em Portugal.

Rachel de imediato simpatiza-se com o par, principalmente com Mrs. Dalloway, uma mulher bonita, elegante, extrovertida, astuta e muito inteligente. Durante o primeiro jantar dos Dalloways a bordo do Euphrosyne, Rachel não participa dos diálogos dos personagens, isso porque passa todo o período observando e admirando os gestos, a fala e os trajes de Clarissa. Na mente de Rachel a nova passageira é perfeita e por alguns instantes deseja ser como aquela senhora.

Richard é apresentado como um homem chauvinista. Este senhor assume papel de relevada importância no romance, pois é ele quem “inicia” Rachel no mundo feminino por meio de um beijo. A partir desse acontecimento, a personagem começa e se conhecer como mulher.

Dentre os tripulantes do navio, merece destaque o casal Ridley Ambrose e Helen Ambrose, tios paternos de Rachel. Esta senhora seria uma espécie de “mentora” da sobrinha, exercendo sobre ela uma decisiva influência. Mrs. Ambrose é uma mulher urbana, extrovertida, ousada, além de possuir grande beleza. Seu marido é um homem sério, recluso e conhecedor de filosofia, botânica, literatura e artes.

O fato de a viagem ser marítima é de grande importância, isso porque a água, elemento transformador, pode ser interpretada como o símbolo da mudança de Rachel. Um outro elemento alegórico é o navio que, por meio da personificação, alude diretamente à protagonista: “the ship was a bride going forth to her husband, a virgin unknown of men; in her vigour and purity she might be likened to all beautiful things, for as a ship she had a life or her own”(WOOLF, 1992, p. 25)[1][4]; “[...] the ship seemed to groan and strain as though a lash were descending” (WOOLF, 1992, p.61)[1][5].

Outro grande momento da narrativa acontece após a chegada dos viajantes a Santa Marina, é nesta colônia inglesa, situada na América do Sul, que a protagonista conhece o escritor Terence Hewet por quem se apaixona. Esta paixão é recíproca, porém uma fatalidade interrompe sua plena realização: Rachel é afetada por uma febre que acaba por causar-lhe a morte.

Nesta parte do romance destaca-se a problemática do choque cultural pelo qual passam os ingleses ao chegarem à cidade sul americana. Antes da saída de Londres, Rachel idealizava o vilarejo, pensava nele como um verdadeiro paraíso, onde tudo seria belo e perfeito. No entanto, ao desembarcar em Santa Marina o sonho começa a ser desmistificado pela realidade. O lugar é realmente belo, todavia o clima, a vegetação, a língua dos habitantes e, sobretudo, seus hábitos são muito diferentes de tudo que a personagem aprendeu e vivenciou.

Em Santa Marina, Rachel desembarca como uma nova mulher. Mudanças significativas em seu caráter são apresentadas como resultado da viagem marítima a qual lhe permitiu adentrar no mundo da filosofia e da literatura. Durante a travessia, a protagonista encontra na figura de seu tio, Ridley Ambrose, um instrutor inteligente e perspicaz. Foi este senhor intelectual quem lhe apresentou autores de renome nas áreas filosófica e literária. Rachel pôde conhecer Platão, Sófocles, Gibbon, Swift, Balzac, Coleridge, Pope, Marlowe, Shakespeare, dentre outros.

Assim, a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino, uma vez que o acesso a tais obras não era comum entre as mulheres de seu tempo.

É também neste período de estada em Santa Marina que Rachel empreende outra viagem. Trata-se de uma excursão organizada pelos hóspedes de um hotel do vilarejo. Eles partem em busca de conhecer outras localidades da terra tão exótica na qual se encontram. Enquanto os demais personagens se entregam ao conhecimento dos arredores de Santa Marina, a viagem de Rachel é interior, ou seja, agora seria “the Voyage in”, isto é, dentro do país tropical recém conhecido por ela e, sobretudo, dentro de si mesma. É nesta viagem que ela passa a refletir sobre tudo que se passou no navio: seus diálogos com o tio, o conhecimento e carinho despertado pelos Dalloways, bem como sua paixão por Terence Hewet.

Este jovem escritor a princípio se apresenta como um homem de pensamento moderno no que se refere à diferença dos gêneros. Porém, ao aceitar o noivado, Rachel começa a perceber que Terence é favorável a igualdade entre os sexos apenas na ficção produzida por ele. Durante esta segunda viagem, ‘the voyage in”, a protagonista é acometida por uma doença, acompanhada de longos períodos de delírio conduzindo a personagem à morte.

Conforme dissemos, Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, é outro romance moderno a tratar da viagem como alegoria da transformação interior de uma personagem. Contudo, vale lembrar que, apesar da semelhança temática e alegórica, esse romance traz um diferencial que o singulariza. Para que possamos ilustrar essa questão, partiremos primeiramente da análise do mesmo para na seqüência traçar paralelos entre ele e The Voyage Out.

Perto do Coração Selvagem narra a história de Joana, uma mulher em busca de si mesma e de seu autoconhecimento. Trata-se de uma personagem complexa cuja marca principal é a mobilidade e o desejo de sempre ir além “[...] vou continuar, é exatamente de minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos” (LISPECTOR, 1998, p. 116).

O romance estrutura-se por capítulos que se alternam entre a vida infantil e a adulta da protagonista. As diversas cenas apresentadas acompanham a peregrinação interior da personagem.

Joana, assim como Rachel, fica órfã ainda criança e passa a ser educada por uma tia. Esta por sua vez, não compreende a sobrinha e acaba por enviá-la para um internato, onde, apesar de cercada de outras meninas, sente-se só. Esta solidão é compensada pelas viagens imaginárias que a personagem faz como forma de fuga da realidade que a cerca. Como exemplo, vale destacar o trecho no qual Joana acorda no meio da noite, olha para as camas das outras garotas do internato e se imagina saindo daquele espaço:

Que importa que em aparência eu continue nesse momento no dormitório, as outras moças mortas sobre as camas, o corpo imóvel? Que importa o que é realmente? Na verdade estou ajoelhada, nua como um animal, junto à cama, minha alma se desesperando como só o corpo de uma virgem pode se desesperar. A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo, solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de flor e sonolenta, os pés leves, atravesso campos além da terra, do mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, há ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim (LISPECTOR, 1998, p. 68).
Este parece ser o destino de Joana, a eterna peregrinação, a busca constante por “terras distantes”, ainda que imaginadas. O que move Joana é o desejo de sair de seu estado de inércia, fugir da vida comum que a prende ao passado. Ela aspira a encontrar lugares desconhecidos, metáfora de sua interioridade. Desta forma, o movimento e o translado são as ações que dão sentido a sua vida.

Joana passa por três experiências amorosas que marcam sua existência e contribuem para que ocorram alterações significativas em seu caráter. Na infância, sente-se atraída por seu professor, pessoa sempre buscada por ela em momentos de insegurança e crise. É ele quem aconselha a menina Joana, instruindo-a a respeito da vida e do homem.

Quando adulta ela conhece o advogado Otávio, noivo de Lídia, moça simples cujo sonho maior é se casar e assumir o papel de esposa dedicada a “um homem que disporia de todas as forças da mulher para sua própria fogueira [...], bastava sua presença [Otávio], apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera” (LISPECTOR, 1998, p. 89).

Otávio abandona Lídia e casa-se com Joana. Este casamento fora idealizado pela protagonista como algo que a tornaria plenamente realizada, no entanto, esta projeção é frustrada, pois ela percebe que a inércia e a rotina não fazem parte de sua natureza. Após algum tempo de casada, Joana constrói uma imagem pessimista do casamento:

Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro... Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do leito comum, da mesa comum, da vida comum, preparando e ameaçando a morte comum (LISPECTOR, 1998, p. 149).

A união do casal é fortemente abalada quando Joana descobre que seu esposo mantém relações extraconjugais com Lídia. Entre as duas mulheres, Otávio decide deixar a esposa e assumir seu romance com Lídia, que se encontrava grávida.

O terceiro relacionamento amoroso vivido pela protagonista é com um homem cujo nome sempre fez questão de não saber.

Dissera-lhe: quero te conhecer por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos; nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais (LISPECTOR, 1998, p.188).

O anônimo, assim como o fez Otávio, abandona Joana depois de conviver com ela durante certo período. Este acontecimento marca uma significativa transformação em Joana. Seu pensamento começa a vaguear entre o passado vivido e o presente transformado, neste sentido “morre” uma Joana e “nasce” outra. É significativa uma passagem do romance na qual ela se encontra sozinha em seu apartamento e faz a seguinte reflexão:

Tivera coisas, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelos cortados, uma tia, um professor [...] era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela (LISPECTOR, 1998, p. 173).

Os verbos no passado mostram que algo foi superado e não mais se repetirá, tem-se agora a imagem de uma Joana renovada e pronta para continuar sua incansável busca, desta vez concretizada na viagem pelo mar.

Naquela tarde já velha – um círculo de vida fechado, trabalho findo – naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperança (LISPECTOR, 1998, p. 196).

Conforme apontado, os acontecimentos da vida da protagonista são seguidos de modificações em seu caráter. Parece que cada vez mais a personagem se aproxima de si; porém, a concretização plena de seu desenvolvimento só irá ocorrer no último capítulo do romance, intitulado “A Viagem”. Nele, a busca da protagonista assume um caráter metafísico, resultante da inquietação da personagem no decorrer da obra. Deste modo, a viagem assinala o fim de uma fase da vida de Joana, bem como aponta para um recomeço. Após encerrar um percurso, Joana parte em busca de um novo mundo, que certamente lhe proporcionará novas experiências.

Aqui se encontra um dos diferenciais do romance com relação a The Voyage Out. Em Lispector, a viagem marítima só acontece depois da viagem interior da personagem, ou seja, a protagonista passa por um processo de transformação interior que a prepara para a travessia pelo mar, que como apresentado no romance, será um novo mundo de descobertas. Em Virginia Woolf, a viagem interior é paralela com a viagem pelo mar, esta sendo plena alegoria daquela. Assim, as transformações vão acontecendo na medida em que o navio avança rumo ao seu destino.

Outro ponto a ser destacado é que em The Voyage Out o percurso de Rachel é interrompido, o que impede a personagem de retornar ao lugar de origem e de concretizar os planos que a mesma elaborou para o futuro. O que se destaca em sua história são os vários momentos pelos quais ela passa durante sua viagem. São eles que fazem dela uma nova mulher, madura e pronta para enfim alcançar com seu verdadeiro destino, a morte, prevista desde o início do romance, sendo esta a grande metáfora do livro.

Uma das características da literatura de viagem, em sua estrutura clássica, é o regresso do viajante. No entanto, esse procedimento não ocorre em nenhum dos textos analisados. Em The Voyage Out o regresso não acontece por conta da morte da personagem, ao passo que Em Perto do Coração Selvagem, a narrativa termina em aberto não revelando nem mesmo o destino da protagonista.

[1][1] Seu rosto era antes fraco do que decidido, e só não era insípido por causa dos grandes olhos interrogativos; tendo-lhe sido negada a beleza, agora que estava abrigada dentro de casa, pela falta de cor e contornos definidos. Mais que isso, uma hesitação ao falar, ou uma tendência a usar as palavras erradas, faziam com que parecesse mais incompetente do que o normal para sua idade. [...] Sim, como estava claro que ela seria vacilante, emotiva, e quando lhe dissessem alguma coisa não faria impressão mais duradoura do que o golpe de um bastão na água.(Todas as citações que aparecerem em notas de rodapé, serão retirados do volume traduzido por Lya Luft).
[1][2] garota que era uma fanática religiosa, que no fervor da intimidade, falava sobre Deus e nas melhores maneiras de assumir a própria cruz.
[1][3] A viagem começara, e começara feliz com um céu azul suave e com um mar calmo. A sensação de recursos ociosos de coisas não ditas tornou a hora importante, de modo que em anos futuros toda a jornada talvez fosse representada por esta última cena, com o som de sirenes uivando no rio na noite anterior, de alguma forma misturado nela.
[1][4] O navio era uma noiva avançando para seu marido, uma virgem desconhecida dos homens; no seu vigor e pureza poderia ser comparado a todas as coisas belas, pois como navio tinha uma vida própria.
[1][5] O navio parecia gemer e conter-se como se uma chibata estivesse descendo sobre ele.

REFERÊNCIAS

CÂMARA, Elisabete. Clarice Lispector e Virginia Woolf: Dois enigmas e um mistério. In:PONTIERI, Regina. (org). Leitores e leituras de Clarice Lispector. São Paulo: Hedra, 2004. p.85 – 108.
HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Hedra, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NITRINI, Sandra Margarida. Viagens reais, viagens literárias. In:______.Revista literatura e sociedade. no2, FFLCH, DTLLC, 1997.
SÁ, Olga. Uma escritura metafórico-metafísica: eixos do universo clariceano. In:______.A escritura de Clarice Lispector. 3a ed. Lorena, 2000. p. 212 – 281.
SILVA, Wilton Carlos lima. Viajantes. In:______.As terras inventadas. São Paulo: Unesp, 2003.
WOOLF, Virginia. The Voyage Out. London: Penguin Books, 1992.
WOOLF, Virginia. A Viagem. Trad. Lya Luft. São Paulo: Siciliano, 1993.

Douglas Paulino Barreiros
é mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Desde o ano 2000 atua como professor de Língua Inglesa no Ensino Fundamental e Médio, além de participar de Eventos e Congressos de Língua e Literatura. E-mail: teacherdouglas@ig.com.br
Retirei o texto acima do site do Portal Cronópios.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Passado selado, by J.R.Duran

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Vou postar um artigo que li na Audi Magazine número 79. Nem é o tipo de publicação que me interessa, já que não ligo para automóveis, mas essa edição me chamou a atenção. Na capa, a foto de um tabuleiro de jogo retratando países, do tipo do War, joguinho chato e interminável das tardes chuvosas de infância. O título desse número aparece assim: Movimento - De Moscou a Tóquio, via Vladivostok, por terra e mar.


Hum... já achei interessante. Sem culpa na consciência afanei a revista (não posso dizer de onde senão meu dentista me mata) e li todos os artigos na volta à casa; um deles, em particular, achei a cara do Odepórica e resolvi transcrevê-lo. Bom para vocês, leitores/as, bom para mim também, pois assim alivio um pouco o bad karma ao dividir o fruto do meu afano com outras pessoas. Não podemos ser egoístas, certo?


Pois bem. Quem assina a matéria é o fotógrafo catalão J.R. Duran, famoso por fotografar as peladonas da Playboy. Deve fotografar outras coisas, claro, mas agora só me lembro dele associado à Playboy mesmo. E já não está bom?


O texto é leve, leve, você mal começa e já acaba, o que é uma pena, porque o assunto é muito interessante. Fala das cartas, do ato de escrever durante as viagens, agora cambiado pelo ato de digitar. Não quero parecer tiozinho, mas nunca será a mesma coisa teclar numa LAN house e escrever em qualquer lugar... mas não dá para juntar as duas coisas? Claro que dá, por que não? O bom é deixar para escrever num momento mais contemplativo, entende? Quase como se fosse uma prática de meditação, a postura, a caligrafia, o ritmo, o tempo, as pausas, um trago de cigarro pra quem fuma, um gole de vinho ou café pra quem bebe... e aí é deixar rolar o que vier, cabeça e coração em sintonia. E o punho pra funcionar.


O Duran, fotógrafo, diz que faz isso. O barato dele é escrever cartas em papéis timbrados dos hotéis em que se hospeda, que não devem ser poucos. Segue um ritual - que você lerá no texto dele; sai à caça de selos pelas cidades, pois qualquer selo não serve, tem que ser o mais especial em circulação. E no final, selos lambidos e cartas fechadas, envia tudo para sua casa, em nome de si mesmo, veja só que interessante isso.


Não abre nunca as cartas, as tais que chegam de todas as partes do planeta. Um dia, quem sabe, as lerá. Mas não agora, quando a vida ainda lhe parece infinita. Estão todas lá, como diz, a prender o passado entre folhas de papel.


Gostei disso. E você, não? Namastê.


Passado selado



O filósofo e utópico renascentista Francis Bacon fez uma lista das que seriam, desde seu ponto de vista, as três descobertas mecânicas que tinham “changed the whole face and state of things troughout the world” (“Novum Organum”,1620). Seriam elas: a bússola magnética, a pólvora e o papel. De acordo com ele nenhuma estrela, nação ou seita conseguiu – conseguiria – exercer influência igual na vida das pessoas.
Dificilmente uso uma bússola, apesar de que, confesso, levo sempre uma no fundo da minha mochila, acho que algum dia ainda vai me tirar de alguma enrascada. A segunda descoberta – a pólvora – não me é de grande utilidade direta, penso que serve mais aos exércitos. Já com a terceira descoberta é diferente. Essa é fundamental para mim também. Porque não saio de casa sem um papel e uma caneta. Tenho a memória dispersa, e tanto ideias quanto lembranças de coisas para fazer, me aparecem nas horas mais estranhas. Uma anotação rápida – contanto que legível – resolve o problema.
Bacon não o mencionou em seu tratado, mas os três inventos que ele achou fundamentais são chineses. E é com paciência oriental que venho guardando durante os últimos tempos – na verdade anos – uma série de cartas especiais. São cartas que escrevo para mim mesmo nos hotéis em que tenho me hospedando, seja a trabalho ou de férias.


O conhecimento das reentrâncias e saliências da fotografia me servem para várias coisas profissionalmente, mas, pessoalmente, as utilizo como artimanha para congelar o tempo que, às vezes, parece passar rápido demais. Uma maneira de fixar na memória os detalhes que semanas, anos depois, vão se tornar imperceptíveis.

Pode ser a imagem de um lugar confortável, de um objeto que nunca terei, um sorriso, o prato de um almoço, a sombra que uma árvore projeta na parede. Cenas cotidianas que se repetem, aparentemente iguais – e não se engane, não o são – e que serão, sempre, as primeiras a desaparecer, enterradas na quantidade de informações arquivadas no labirinto da memória.


Alguém me disse que escrevia para não morrer. Ao escrever as cartas não chego a tanto. A razão pela qual escrevo é menos dramática, mais prática e simples. Escrevo, assim como fotografo, para guardar o tempo. Conto nelas como está meu estado de espírito naquele instante e isto se torna o registro de um momento impresso em um papel que, anos depois, funcionará como uma janela aberta capaz de iluminar um pedaço do passado.

Para isso sigo algumas regras que com o tempo fui estabelecendo. Um procedimento mais ou menos comum. Uma delas é a de que as cartas só podem ser escritas em papel timbrado. Ou seja, se o hotel não tiver um logotipo e endereço impresso em papel e envelope, nada feito. Outra é a de que elas têm de ser escritas com caneta na cor preta. Confesso que durante algum tempo as escrevi em tinta verde, como Pablo Neruda. Mas, como o conteúdo das cartas sempre foi mais existencial do que poético, decidi voltar ao preto sobre o branco.


Outra regra é a de, sempre que o tempo permitir, ir até o posto do correio mais próximo, pegar a fila, e pedir para escolher um selo. Grande e bonito. Em alguns lugares é fácil. Em Hong Kong, por exemplo, um dos postos fica a poucos metros do Hotel Intercontinental. Em outros, é mais complicado, mas isso faz parte do ritual.


Em Los Angeles, tive que pedir ao motorista do táxi, a caminho do aeroporto, que parasse um instante na frente de um posto de correios que surgiu no meio da corrida. Felizmente a carta estava à mão. De qualquer maneira, é uma experiência curiosa. Os funcionários dos correios estão acostumados a ter clientes que se preocupam apenas com a urgência das encomendas e ficam radiantes e iluminados ao descobrir que alguém pede para eles o selo mais interessante que estiver em circulação no dia.


As reações são sempre divertidas. Em Asmará, a capital da Eritreia, a mulher saiu de trás do guichê e me convidou para um café enquanto me contava das dificuldades do país. Em Macau, o atendente deixou uma fila esperando atrás de mim e me levou a uma salinha para me mostrar por que os correios da ilha são famosos por produzir selos belos e elaborados.

Às vezes peço a um concierge do hotel em quem confio para colocar as cartas no correio (Durante estes anos todos apenas três cartas não chegaram. Foram as escritas na Índia e entregues nas mãos de três concierges de hotéis luxuosos – da mesma cadeia – ostentando belos turbantes. Não adiantou muito.). Em alguns lugares isso é comum. Em outros, nem tanto. Em Iquique, no Chile, a moça ficou surpresa. Ninguém antes tinha feito uma solicitação como aquela.
Uma outra regra é colocar alguma coisa junto com a carta dentro do envelope. O recibo de um restaurante, o ticket de um filme que assisti ou o ingresso de algum museu que dificilmente voltarei a visitar. Durante alguns anos, antes da fotografia se tornar totalmente digital, polaroids (alguém lembra o que era isso?) serviam como uma espécie de reforço visual para estas cápsulas de memória.


Mas uma coisa as cartas têm, rigorosamente, em comum. Nunca, até agora, elas foram abertas. Enquanto o passado escorre entre os dedos e os neurônios do cérebro, uma parte dele está presa, para sempre, entre duas folhas de papel.









domingo, 31 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 3, final

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A seguir você irá ler a terceira e última parte do post sobre a vida de Vivekananda, transcrição de uma matéria de 1975 da Revista Planeta. Com essas postagens tive a intenção de apresentar ao leitor/leitora do Odepórica uma breve introdução à vida de Vivekananda, um dos mais respeitados homens santos da Índia, ao lado de tantos outros já bem conhecidos aqui no Ocidente, como Paramahansa Yogananda, Sri Aurobindo, Krishnamurti, Osho, Sivananda, Ramakrishna, Mahatma Gandhi, Satya Sai Baba, só para citar alguns e sem nos esquecermos, evidentemente, das mulheres santas que também – ainda que menos alardeadas – têm deixado um forte legado espiritual ao longo dos anos. (sobre as mulheres santas da Índia, sugiro a leitura de duas obra cativantes: Filhas de Deusa: as mulheres santas na Índia de hoje, de Linda Johnson, Ed. Nova Era, e a pequena biografia de Sarada Devi, a Santa Mãe, que foi a esposa de Ramakrishna, mestre de Vivekananda como vimos nos textos aqui postados. Esta última publicada pela Lótus do Saber).

Não somente, devo lembrar, quis trazer ao conhecimento dos leitores/as do Odepórica a vida de Vivekananda, já que para isso poderia ter buscado outras fontes biográficas que certamente enriqueceriam o texto publicado na revista; a intenção, como sempre, foi a de mostrar o papel fundamental das viagens no processo de transformação daquele/a que viaja. No caso dessas grandes figuras, como Vivekananda, as viagens tiveram uma importância tão grande em sua vida que não só mudaram o seu destino, como o de milhares de pessoas em todas as partes do mundo onde suas mensagens chegaram – e continuam chegando - mesmo após um século de sua passagem pelo planeta.

Se Vivekananda não tivesse se deslocado tanto, muito provavelmente seus ensinamentos não teriam sido conhecidos fora de seu país. Sua própria obra, aliás, não teria sido tão rica e cheia de sabedoria caso não houvesse visitado outras culturas, pois foi o fato de observar o outro que deu a ele o material para compreender efetivamente, ainda que à custa de muita dor e sofrimento, a alma de seu povo. Essa troca é o que faz das viagens algo especial e transformador.

Antes de terminar essa introdução, gostaria de pedir a você, que topou a leitura dessas três longas postagens, para tomar cuidado antes de julgar algumas passagens da vida de Vivekananda. Muito do que o pensador declarou tem que ser lido contextualmente, e nisso o autor do texto foi feliz em esclarecer, quando da passagem em que Vivekananda afirma que “a virilidade é a base de tudo”, fazendo alusão à maneira violenta de agir frente às adversidades.

Vivekananda jamais teria simpatizado com qualquer ato de violência; sua conduta, pelo que se sabe de sua vida e obra, sempre foi a de buscar a realização espiritual e a de ajudar ao próximo nessa jornada. Quando fala em um “mal necessário”, quer deixar claro, assim como se lê no Bhagavad-Gita, livro sagrado do hinduísmo, que a inércia, a falta de ação, é pior do que ir à luta, mesmo que isso implique em uma posição de violência. Essa luta faz parte do Karma-Yoga, o yoga da ação, sem o qual o ser não tem acesso ao conhecimento. Diz Vivekananda que “o conhecimento está na mente como o fogo está na pedra; é a fricção que o faz brotar.”

Paro por aqui. No final da matéria indico algumas obras publicadas pelo Vivekananda em português, fáceis de serem encontradas em sebos a preços muito camaradas. Em tempo: Vivekananda, o nome sânscrito que Narendranath Dutt recebeu quando ingressou na ordem dos Swamis tem um significado muito inspirador: Viveka significa “discernimento”, e Ananda, “alegria, felicidade”. A felicidade suprema que só se atinge através do discernimento. Bonito, não? Namastê.


A Índia demorou muito para saber do êxito de Vivekananda no Congresso de Chicago e quando soube, ocorreu verdadeira explosão de júbilo e orgulho nacional. Seis meses depois é que os monges de Baranagor tiveram a notícia. Quase não podiam crer que um de seus irmãos fosse o triunfador tão famoso e em suas comemorações evocavam a profecia de Ramakrishna: “Barém abalará o mundo até seus alicerces”.

Algumas facções políticas pretendiam tirar partido do sucesso de Vivekananda que protestou energicamente, pois jamais desejou tomar parte em movimentos de interesse pessoal e dizia: “pouco me importa a vitória ou o fracasso. Devo conservar a pureza do meu trabalho ou não o faço”. Nada queria com a política e considerava como únicas no mundo, as políticas originárias de Deus e da verdade. As demais não existiam.

Ao contrário do que tinha acontecido em outras peregrinações pela Índia – quando mendigava e muitas vezes era até perseguido – agora ele recebia estrondosas manifestações populares. Por onde passava atiravam-lhe flores e regavam seus caminhos com a água sagrada vinda do Ganges. Aceitava essas honrarias pensando exclusivamente nos bens que poderiam trazer à causa a que se propunha.

Contra seus princípios, precisava participar muitas vezes dos movimentos de caráter nacionalista e tratava, por isso, intensa luta interior. Quando da crise ocorrida nos primeiros dias de outubro de 1898, ele seguiu sozinho para o santuário da mãe Kali, em Cachemira. Ficou horrorizado diante das ruínas e dos sofrimentos decorrentes da guerra. Encontrou também o santuário depredado. Como puderam ter feito aquilo?

Se ele estivesse ali, teria dado a vida para defender a madre (mãe Kali). Regressou transtornado e disse a Nivedita: “desapareceu em mim todo o patriotismo. Tenho sido muito enganado! Ouvi a repreensão da mãe Kali dizendo que alguns incrédulos entraram em seu templo e macularam sua imagem. – O que tem você a ver com eles? – perguntou-me ela. – Acaso é você meu protetor ou sou eu quem o protege? Estava profundamente abatido, e ainda muito mais porque dias antes havia ocorrido brutal abuso de poder por parte da Inglaterra, em relação à Índia. Em seus discursos, entretanto, não deixava transparecer a amargura e as angústias recalcadas em seu coração.

Segunda viagem ao Ocidente


Partindo de Calcutá no dia 2 de junho de 1899, Vivekananda passou por Madras, Colombo, Aden, Nápoles e Marselha, chegando a Londres no dia 31 de julho. Um dia após seguiu de Glascow para Nova York, permanecendo nos Estados Unidos até 20 de julho de 1900, onde percorreu toda a Califórnia. De 1º de agosto a 24 de outubro viajou por Paris, Bretanha, Luego, Viena, os Bálcãs, Constantinopla, Grécia e Egito, regressando à Índia nos princípios de dezembro.

O objetivo principal dessa viagem era o de inspecionar as obras fundadas por ele e ao mesmo tempo ativar o trabalho dessas organizações. Estava acompanhado por Nivedita e Turyananda. Em seu corpo enfraquecido mantinha uma energia incomum e redobrada disposição para a luta, todavia demonstrava profundo desgosto por sentir a despersonalização de seu povo, sempre abatido e desanimado.

Estava arrebatado pelas epopéias históricas da Europa. Em Gibraltar veio à sua lembrança a invasão árabe. Tinha tanto desprezo pela covardia a ponto de admitir o crime, e quando ouvia falar do baixo índice criminal da Índia, exclamava: “oxalá ocorresse o contrário. Quanto mais envelheço, mais cresce minha convicção de que a virilidade é a base de tudo e este é o meu novo evangelho”. Chegou mesmo a dizer que devia ser praticado o mal contra o homem, e, se necessário, que se cometessem crimes em benefício da grandeza e da virilidade. Revoltado pela inércia de seu povo, dizia essas coisas a pessoas de absoluta confiança, pois gente maldosa poderia interpretar diferente, desvirtuar e provocar escândalos.
Quando regressou à Índia, entretanto, estava desapegado da vida e chocado com a violência existente no imperialismo ocidental. Não podia esquecer aquela gente de fisionomias rancorosas, lembrando aves de rapina. Na primeira viagem ficou excessivamente impressionado com o poderio, organização e aparente democracia, tanto da América quanto da Europa. Entretanto, agora, mais afeito aos costumes e linguagem, tinha outra visão. Observou espíritos negocistas e avarentos que colocavam o “deus dinheiro” acima de qualquer coisa e promoviam lutas ferozes e combinações infames para alcançarem o predomínio. “A vida no Ocidente é parecida com o inferno.”

Tinha descoberto a tragédia oculta suportada por aquele povo e disfarçada sob o colorido da frivolidade. Para ele a vida social no Ocidente se comparava a uma gargalhada que tem início num sorriso natural que vai crescendo e acaba num soluço. O entusiasmo e os gestos de cortesia demonstrados, para Vivekananda, estavam apenas na superfície. Já na Índia a aparência é triste e melancólica, porém o interior é vibrante e despreocupado.

Morte física de Vivekananda


Quanto mais analisava o avanço das ciências e da civilização, maior consistência adquiriam suas próprias profecias: “a próxima revolução que dará origem a uma nova era, virá da Rússia ou da China. Não vejo exatamente qual delas... O mundo está em sua terceira etapa, sob o domínio de vaisya (o mercador, o estado livre). A quarta será a de sudra (o proletário)”.

Em determinado instante de sua viagem de volta, teve o pressentimento de que seu velho e fiel amigo, senhor de Sevier, tinha falecido no Ashram do Himalaia. Recebeu a confirmação na chegada. Sem pensar em descanso, seguiu para lá, apesar de todas dificuldades representadas pelo acesso ao Himalaia naquela época do ano, e mais ainda pelo seu estado de saúde. Venceu a tudo e dia 3 de janeiro de 1901 estava cumprimentando e prestando seu conforto moral e espiritual à viúva de Sevier.
Permaneceu ali alguns dias, comemorando inclusive seu aniversário no dia 13 de janeiro (38 anos). Retornou ao mosteiro de Belur no dia 24. Fez a que seria a última peregrinação aos lugares santos de Bengala Oriental, Ossam, Dakka e Shillong, realizando uma série de conferências. Essa excursão por lugares de espírito conservador fanático trouxe à luz, com maior intensidade, suas concepções religiosas, fazendo-o lembrar aos hindus beatos que a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens, sendo totalmente inútil a fixação no passado, por mais glorioso que tenha sido.

A cada dia mais enfraquecido, voltou a Belur para levar uma vida de frade franciscano, em contato com a natureza. Ficava pouco tempo no quarto, apenas para escrever e meditar. Raramente dormia na cama, preferindo deitar no chão. Acompanhado do cão Bagha, da cabra Hansi e de um cabritinho, caminhava pelos campos, quase em êxtase, a cantar sua extraordinária e doce voz. Mesmo assim, encontrava tempo para desempenhar suas funções de reitor e com pulso firme dirigia o mosteiro, a despeito dos terríveis sofrimentos físicos.
A doença avançava e a diabete se transformou em hidropisia. Não conseguia dormir e o médico o proibiu de qualquer esforço, prescrevendo rigoroso regime que o impedia de tomar água. Resignado, suportou esse duro regime durante 21 dias.

Quando pressentiu a morte, chamou a todos os discípulos – até os do outro lado do mar. A tranqüilidade que aparentava enganou a todos, pois acreditavam que ele pudesse viver mais alguns anos. No dia 4 de julho de 1902, sentindo-se mais forte, levantou e foi à capela. Contra seus hábitos, fechou as janelas e a porta, ficando ali desde oito horas até às 11 da manhã.

Quando saiu estava transfigurado, falando sozinho e cantando o hino a Kali. Almoçou com apetite, acompanhado dos discípulos e depois ministrou aulas de sânscrito aos noviços, durante três horas. Posteriormente andou com Premananda cerca de duas milhas, pelos caminhos de Belur, falando do projeto de criação de um colégio para o ensino do Veda.

Às 19 horas as sinetas do convento chamaram para o Avati (culto). Vivekananda voltou ao quarto, contemplou o Ganges e dispensou o noviço que o acompanhava. A seguir mandou chamar os monges, pediu que abrissem todas as janelas e se estendeu no chão, permanecendo imóvel. Acreditavam que meditava. Uma hora depois, emitindo profundo suspiro, morria, fisicamente, o grande Vivekananda. Tinha pouco mais de 39 anos e confirmava assim sua profecia: “Não vou alcançar os 40 anos”.


Vivekananda Rock and Temple in Kanyakumari, Índia

Obras de Swami Vivekananda publicadas no Brasil:
O que é religião – Ed. Lótus do Saber;
Epopéias da Índia Antiga – Ed. Lorenz;
Quatro yogas de auto-realização – Ed. Pensamento;
Karma yoga: a educação da vontade – Ed. Pensamento

Sites que merecem a visita:

Vivekananda.net
Vivekananda.org

Vedanta.org.br
Ramakrishna.org


AGI! DESPERTAI! E NÃO VOS DETENHAIS ATÉ ALCANÇAR A META.
Swami Vivekanandají