quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O caminho de Avalon, by Jean Shinoda Bolen

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Quando comecei a estudar os relatos de viagem de peregrinos brasileiros pelos caminhos de Santiago notei que o número de escritoras brasileiras era muito inferior ao de escritores. Por que será? Novamente, aqui no Odepórica, tenho blogado textos em sua maioria baseados em obras de escritores do gênero masculino. Por isso decidi dar uma equilibrada terminando o ano priorizando as mulheres, e escolhi sem receio uma autora fantástica que há anos vem trabalhando com o feminino dentro de sua área de atuação, a psicologia analítica junguiana.

Jean Shinoda Bolen é médica psiquiatra e seu trabalho tem como diferencial o ênfase na dimensão espiritual do ser, sobretudo no que diz respeito às mulheres. Seus livros são usados nas universidades nas áreas que se dedicam aos estudos de gênero, psicologia da mulher, mitologia, espiritualidade, e temas afins. Só por aí já podemos imaginar que um papo com a senhora Bolen deve ser muito prazeroso, não?

Em O caminho de Avalon: os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, Jean Bolen relata sua peregrinação pelos sítios relacionados à lenda do Santo Graal, ou mais propriamente, aos lugares mágicos associados à literatura do ciclo arturiano. Como feminista, a autora se deixou influenciar abertamente pela obra de Marion Zimmer Bradley, famosa por suas Brumas de Avalon, que , para quem não leu, faz uma releitura do mito arturiano sob a ótica das mulheres, o que não agradou um montão de gente, mas que eu particularmente achei uma delícia de ler.

O ponto de partida da autora é interessante mesmo, veja você: há algumas décadas a “Deusa” vem ressurgindo em todos os lugares. Aqui, caro leitor, cara leitora, você deve entender essa “Deusa” num sentido arquetípico, uma imagem arquetípica, o que Jung define como sendo um padrão ou motivo universal originado no inconsciente coletivo, e de onde sai o conteúdo básico das religiões, das mitologias, das lendas e dos contos de fadas. Prosseguindo: com o ressurgimento da “Deusa”, o planeta vive uma espécie de ressacralização, como se o Graal estivesse retornando ao mundo. O Graal, aquele cálice onde Jesus bebeu vinho na última ceia junto com seus apóstolos, se você for pesquisar, carrega uma simbologia muito rica e interessante.

Por ter sido usado por Jesus, e numa ocasião de profunda significação espiritual para os cristãos, o Graal ganhou um status de objeto sagrado e dotado de poderes fantásticos. Na Idade Média ficou também associado à saga dos cavaleiros arturianos, cuja missão maior era a de encontrar o Santo Graal, numa demanda cheia de aventuras e mistérios. É preciso saber interpretar essa busca, e é preciso saber interpretar esse Graal, então preste atenção ao que diz o Dicionário de Símbolos (Chevalier & Gheerbrant):

“A Demanda do Graal inacessível simboliza, no plano místico que é essencialmente o seu, a aventura espiritual e a exigência de interioridade, que só ela pode abrir a porta da Jerusalém celeste em que resplandece o divino cálice. A perfeição humana se conquista não a golpes de lança como um tesouro material, mas por uma transformação radical do espírito e do coração.”

Para Jean Bolen, existe um movimento espiritual feminino acontecendo no mundo todo, não de uma maneira organizada e tampouco seguindo tradições rígidas; a mudança tem ocorrido de modo intuitivo e as mulheres estão fazendo espontaneamente aquilo que sentem ser o correto. É um modo de dizer que estamos vivendo um período onde o patriarcado começa a dar passagem a um outro tipo de conhecimento e manifestação. A preocupação com o planeta, a Terra vista como mãe dos seres vivos que nela habitam, por exemplo, é um indício dessa mudança que vem surgindo aos poucos. Num sentido mais religioso, não podemos deixar de notar a força que vem ganhando em todo o mundo o culto mariano, onde Maria/Nossa Senhora em muitas ocasiões é tratada pelos fiéis mais como Deusa do que propriamente como Santa.

Enfim, tudo isso acabou mexendo com a cabeça de Jean, que aceitou de uma amiga um convite para viajar e sem hesitar partiu como turista em direção às Ilhas Britânicas e voltou como peregrina, com tantas histórias para contar que sentou e escreveu esse livro, um encantado relato de viagem recheado de poderosos insights sobre os mistérios femininos. Em seu roteiro, visitou lugares fantásticos como Chartres, Glastonbury, Findhorn e Lindisfarne, que você depois de ler vai querer sair correndo comprar uma passagem para as próximas férias, posso apostar que sim.

Vamos ler um pedacinho dessa aventura? Escolhi o trecho em que Jean viaja para Glastonbury, porque o local é tão recheado de histórias e lendas encantadas que é impossível não termos a curiosidade de um dia visitar essa região de Somerset, na parte oeste da Inglaterra. Só para você ter uma idéia, Glastonbury teria sido o lugar mais sagrado da Grã-Bretanha antes do cristianismo; foi para lá que José de Arimatéia teria levado o Santo Graal; é lá onde se localizaria a ilha de Avalon, para onde Artur foi levado depois de ferido em sua última batalha; e é lá que se encontra um dos maiores centros de energia do mundo ocidental. Precisa mais? Então vamos ler as impressões que esse mágico lugar causou na peregrina Bolen. Boa viagem.

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Vislumbrando o pico

Para chegar a Glastonbury, partimos do aeroporto de Heatrow de carro tomando o sentido oeste em uma auto-estrada que nos conduziu para depois de Stonehenge. Após pegar várias estradas menores, estávamos na Shepton Mallet Road, uma estrada estreita, meio sinuosa e margeada por cercas vivas e de outros tipos. A estrada nos conduziu por campos com ovelhas pastando e cruzou parte do polêmico Zodíaco de Glastonbury, cujos defensores afirmam que Glastonbury situa-se dentro de um Círculo Zodiacal com cerca de 16 quilômetros de diâmetro. Os signos são formados por características da paisagem que, segundo se supõe, estão situadas nas mesmas posições relativas ocupadas pelas constelações no céu.

Subitamente, a estrada mudou – por uma mudança na inclinação ou na elevação ou um intervalo na cerca viva – e lá estava o pico de Glastonbury! Digo isso com um ponto de exclamação porque trata-se de um impacto, de algo a ser contemplado. O pico na verdade é apenas uma colina, exceto pelo fato de que não é justo chama-la de colina. Ela é de um verde viçoso e aparentemente terraplanado, com uma torre de sentinela no topo. Como estávamos no final do mês de maio, havia macieiras em flor próximo à base e nos campos em volta. Do primeiro ponto de observação, o pico parecia ter um formato triangular, como uma pirâmide. Mas depois, quando seguimos pela estrada e passamos por ele, sua silhueta mudou, pois o ângulo de um dos declives se alongou.

De qualquer ângulo, o pico emana força e mistério. Existe algo de anormal e escultural em relação a sua forma, com seus terraços em espiral que parecem envolver suas laterais e a torre no topo que se assemelha a um megalito do tamanho de Stonehenge. A torre é a única parte que restou de uma igreja de São Miguel que um dia ocupou o pico. Um terremoto descomunal destruiu a igreja e deixou apenas a torre intacta.

Na Inglaterra, os lugares que um dia foram consagrados à Deusa foram dominados pelos cristãos de uma destas formas: através da construção de igrejas dedicadas a São Miguel, como no pico, ou capelas em louvor a Maria. São Miguel costuma ser representado pisando uma serpente, que era um símbolo da Deusa, e que também representava as correntes energéticas telúricas ou meridianos de energia (ou ley lines, como são chamadas na Inglaterra) que “serpenteiam” sob a terra em lugares sagrados. Na China, essas linhas são conhecidas como lung-mei, os caminhos do dragão. Até hoje, na moderna Hong Kong, as pessoas costumam consultar os geomantes chineses sobre essas correntes do dragão antes de construir edifícios.

As áreas onde a energia é mais intensa tornam-se lugares sagrados ou, na linguagem atual, pontos de energia. As imagens associadas a essa energia são arquetipicamente semelhantes, esteja você na Europa Ocidental ou na China. A cobra, a serpente e o dragão chinês têm corpo ondulante e poder. Mas, enquanto em uma cultura que respeitava a Terra o dragão era considerado benevolente, nas culturas judaico-cristãs, onde a Terra (e as deusas e as mulheres) tinha de ser dominada e subjugada, os dragões, cobras e serpentes tinham de ser temidos – eliminados por São Miguel, expulsos por São Patrício ou mortos por São Jorge.

Isso me levou a pensar que o terremoto que fez desmoronar do pico a abadia de São Miguel pode ter sido uma expressão de uma Deusa-Mãe Terra ofendida que se recusou a ser oprimida. No entanto, São Miguel triunfou, pois a abadia que havia no pico é uma das muitas que ainda existem e está localizada em um meridiano de energia que se estende do pico a sudoeste da Inglaterra até a ilha rochosa do monte de São Miguel, próximo ao cabo Finisterra, na Cornualha.

A segunda maneira de usurpar locais da Deusa era através da construção de capelas ou catedrais em louvor a Maria. Por ser uma expressão feminina da divindade, Maria é arquetipicamente a deusa-mãe. Exceto pelo nome, é dessa forma que ela é adorada em Chartres, por exemplo. Independente dos pontos de diferenciação estabelecidos pelos teólogos, o homem ou a mulher que ore a Maria está se dirigindo à mesma deusa piedosa, cujos nomes eram, entre outros, Deméter, Ísis, Tara ou Kuan Yin, deusas que, como Maria, aprenderam pelo sofrimento. Perséfone, a filha de Deméter, foi raptada e levada para o mundo subterrâneo, e Ísis, a filha de Odin, foi esquartejada. A exemplo do filho crucificado de Maria, Perséfone e Osíris ressuscitaram. Embora sejam construídas capelas de Maria em antigos lugares devotados à Deusa, elas são na verdade locais novamente consagrados a Ela e onde se poderia dizer que Ela continua a ser louvada.

A estrada nos levou para além do pico de Glastonbury, em direção à cidade, à Chalice Hill House (Casa da Colina do Cálice), onde ficaríamos hospedadas. Ao chegarmos, descobri que Geoffrey Ashe, escritor e especialista na história e nas lendas da região estava nos esperando – um encontro que a Sra. Detiger havia preparado. Ele nos conduziu a um local onde pudemos ter uma visão panorâmica da região e vislumbrar na paisagem a figura de uma mulher recostada. Mais tarde, Barri Devigne, um profundo estudioso da lenda do rei Artur, nos levou a Cadbury, o lugar provável atribuído a Camelot. No caminho, ele parou para mostrar características específicas do Zodíaco de Glastonbury. Olhar a paisagem e poder visualizar o que eles descreviam era como olhar as constelações no céu à noite. Identificar os pontos geográficos de referência era tão fácil quanto localizar as estrelas quando alguém as aponta para nós. Mas, o que não era tão óbvio eram as figuras que esses pontos formavam. Em Glastonbury, a paisagem estimula a imaginação, convida as pessoas a enxergar além da realidade comum.

Leia: O caminho de Avalon – os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, de Jean Shinoda Bolen. Editado pela Record/Rosa dos Ventos em 1996, vai agradar muito as mulheres que nunca desistem da Busca. O site da autora, para quem se vira bem no inglês, vale uma espiadinha:
http://www.jeanshinodabolen.com/

Para completar a temática desse post: indico as Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley (virou filme, com a poderosa Anjelica Huston como Viviane do Lago), para uma leitura descompromissadamente romântica e sonhadora. Fácil de sebar, tanto os livros quanto o dvd.

Leitura mais séria? Sem pestanejar, pesquise as obras de Mircea Eliade (em especial: O sagrado e o profano e Tratado de história das religiões) e Joseph Campbell (O Herói de mil faces e também O poder do mito); na área da psicologia há muito, mas como introdução eu indicaria She, a chave do entendimento da psicologia feminina, de Robert Johnson (eu li o He, que é muito bom).

Sobre essa questão da Grande Mãe e das Deusas, um ótimo guia para consulta é o Anuário da Grande Mãe, de Mirella Faur, da editora Gaia; se o seu lance é paganismo, sem dúvida um dia terá que ler A dança cósmica das feiticeiras, de Starhawk, que trata da Religião da Deusa com muita competência.

Finalmente, dos montes de obras que trabalham a questão das mudanças planetárias (no nível consciencial e comportamental) eu li e gostei de duas em particular: Um peregrino em Aquário, de David Spangler (Editora Pensamento) e A conspiração aquariana, de Marilyn Ferguson (Editora Record). Ambas meio datadas, é verdade, mas ainda assim estimulantes. Para quem quer ir mais longe ainda, procure pelas obras de Aldo Natale Terrin (recomendo Nova Era: a religiosidade do pós-moderno e O rito: antropologia e fenomenologia da ritualidade, ambos da Paulus ed.) e de Paul Heelas e Linda Woodhead o estudo sobre a espiritualidade, em inglês, The spiritual revolution: why religion is giving way to spirituality.

Um comentário :

  1. Oi César, que imagem linda! Eu só faria esta viagem se fosse na sua companhia. Beijocas, Pá

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