quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Histórias de um viajante, por Marina Colasanti

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Perambulando por um sebo aqui em São Paulo, achei quase que por acaso um livro de contos muito bom de uma escritora que eu só conhecia de nome, Marina Colasanti. Fui pesquisar e descobri que essa autora, de origem ítalo-brasileira, já nasceu com os pezinhos na estrada, e que apesar de viajar muito, escolheu o Brasil para viver e construir seus sonhos. Sorte nossa.

O livro que o destino me pôs nas mãos numa manhã calorosa de um sábado de dezembro tem o sugestivo título de 23 histórias de um viajante e descansava na prateleira de guias de viagem, quando deveria estar na prateleira de contos ou romances, mas quem frequenta sebos adquire um sexto-sentido na hora das buscas por um título; já achei, só para se ter uma ideia, livros de relatos de viagem em seções como culinária, romances, esotéricos, comunicação, geografia, poesia... e acho que se tivesse paciência, ainda encontraria literatura odepórica nas prateleiras de administração e marketing ou engenharia mecânica, vai saber.

E nessa caçada literária, deparei-me com a boa surpresa do dia que foi o texto da Marina. Suas histórias de um viajante são narrativas cheias de poesia e simbolismos, muitos deles, imagino, melhor compreendidos numa segunda ou terceira leitura. Escrevendo como quem costura uma colcha de retalhos, Marina Colasanti começa sua narrativa contando a história de um príncipe que vive num reino cujo castelo se encontra cercado por altas muralhas. Numa manhã um viajante chega a cavalo e, para seguir o seu destino, precisa ultrapassar as fortificações que protegem as terras do príncipe e que lhe impedem de prosseguir caminho.

- Quem bate? – perguntaram.
- Sou um viajante – respondeu. E era verdade, vinha de longe, e longe ia.
- O que deseja?
- Passagem por essas terras.
- E que mais?
- Nada mais.
A seteira foi fechada. Os mensageiros partiram rumo ao castelo. Está desarmado e só quer passagem, foi dito ao príncipe. E o príncipe ouviu sem interesse. É um viajante, foi acrescentado.
A palavra abriu caminho na atenção do príncipe, e era cheia de portas. Um viajante, disse seu pensamento, um homem que anda pelo mundo, um homem para quem o mundo é um leque que se pode abrir.


O príncipe permite que o viajante entre e pernoite no castelo. Durante o jantar, o jovem monarca pede ao viajante para contar algumas das histórias que este certamente deveria haver escutado ou vivenciado em suas andanças. E o viajante contou.

E nesse imaginário medieval, Marina vai narrando, pela boca do viajante, aventuras e situações que nos levam a refletir um pouco mais aqui e ali sobre as múltiplas faces da vida, tanto daquele que viaja, quanto daquele que se isola dentro de suas muralhas, seja por opção, seja por necessidade. A estrutura escolhida pela autora me fez refletir mais uma vez sobre a força que possuem essas narrativas imaginárias de viagem; mesmo após centenas de anos, ainda hoje nos encantamos com esse universo mítico dos viajantes, dos mistérios que carregam, do poder que possuem de transformação não só de si mesmos mas também do outro, se este outro estiver aberto ao novo. Um viajante é um estrangeiro, é um peregrino e é, como sugere Marina, um destino.

E como tenho, mais uma vez, que escolher uma passagem (nesse caso, um conto) para postar aqui no Odepórica, peguei a mais linda, na minha opinião, das histórias desse viajante solitário. Eu, que não conhecia o texto de Marina Colasanti, me encantei com a maneira suave com que ela trabalha as palavras, às vezes beirando à poesia, outras vezes mais misteriosa, meio mulher esfinge... uma preciosidade que procurarei conhecer melhor e convido você leitor e leitora desse blog a fazer o mesmo.
Boa viagem.

*
A 23ª história: No caminho inexistente

Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.

Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranqüila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

*
Leia: 23 histórias de um viajante. Marina Colasanti. São Paulo: Editora Global, 2005. A Marina Colasanti tem uma vasta carreira literária, com muitas obras publicadas aqui e acolá. E de tudo há um pouco: contos, crônicas, artigos, ensaios, literatura infanto-juvenil e poesia. Dos vários prêmios que recebeu, quatro Jabutis, pela Câmara Brasileira do Livro.

4 comentários :

  1. Oi Paulo, que conto bonito, simples e gracioso. Adorei! Bjs, Pá

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  2. Paulo, me declaro um apaixonado pelos textos de Marina. Tenho muitos livros dela, inclusive esse, e uso alguns, os infantis e infanto-juvenis nas minhas leituras que faço como contador de histórias para crianças hospitalizadas, aqui em Salvador. Estive com ela no Simpósio de Contadores de Histórias, no Sesc, Rio de Janeiro, em 2011, e declarei-me apaixonado por ela e seus textos. É muito emocionante ve-la e ouvi-la falar com amor e paixão pelo que ela faz, e que faz tão bem, talvez poético como poucos. Não deixe de ler Contos de Amor Rasgado. Voce também vai gostar muito.
    Um abraço. Tom Alves.

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    1. Valeu, Tom. Já coloquei a sua indicação no meu "carrinho de compras"! Saludos, paulo

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