sábado, 26 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte 3, final.

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O carrossel das viagens iniciáticas (cont.)

Foi nos Estados Unidos que Helena encontrou, finalmente, condições adequadas para dar o grande passo que consistiu na fundação da Sociedade Teosófica. Em 1874, dentro de sua atividade jornalística, foi enviada para presenciar os estranhos fenômenos espíritas que ocorriam na casa da família Eddy, em Vermont. Os dois irmãos Eddy, diante de quaisquer testemunhas, conseguiam produzir materializações de fantasmas e um grande número de outros fenômenos de tipo mediúnico. Naqueles dias a opinião pública americana fervilhava de interesse pelas manifestações espíritas que aconteciam em muitos lugares do país.

Na casa dos Eddy, Helena Blavatsky conheceu o coronel Henry Steel Olcott, num encontro que seria decisivo para sua atividade futura. Olcott, ex-combatente da causa abolicionista na guerra civil americana (1861-1865), era um bem sucedido homem de negócios, com grande penetração nos meios culturais e governamentais dos Estados Unidos. Residia em Nova York, onde dividia seu tempo livre entre lojas maçônicas e grupos espíritas. Ele fora a Vermont com o mesmo objetivo de Helena, para escrever um artigo sobre os Eddy encomendado pelo jornal New York Graphic.

O encontro foi prosaico. Olcott narra que durante uma refeição na casa dos Eddy, a 17 de setembro de 1874, ele viu entrar no refeitório uma mulher de tipo mongol, sem idade nem encanto, vestida com uma chocante túnica escarlate. Surpreendido, ele voltou-se para um seu companheiro e, rindo, exclamou: “Veja esse espécime! Ah, não, por favor!”.

No transcorrer do mesmo dia travou amizade com aquela senhora tão excêntrica. Blavatsky tinha um grande charuto apagado entre os dedos, e ele, aproximando-se, ofereceu-lhe fogo. Entabularam conversação e, desde os primeiros minutos, o coronel deixou-se subjugar. Não porque se sentisse atraído por aquela mulher tão pouco insinuante, “mas por uma espécie de brilho que ela desprendia e que colocava seus interlocutores num ambiente quase sobrenatural”.

Olcott tornou-se, em Nova York, freqüentador assíduo do número 16 de Irving Place, onde Blavatsky residia e celebrava as reuniões mais insólitas da cidade. Durante muitos meses participou das sessões de tipo espírita que a anfitriã dirigia, fazendo aparecer espectros de todo tipo, produzindo música e ruídos de sinos e campainhas no ar, ou materializando sobre a mesa objetos ou exatamente o tipo de fruta requisitada pelos participantes. Parece não haver dúvidas quanto à autenticidade desses fenômenos, tão grande é o número de depoimentos daqueles que, assombrados, os testemunharam.

A produção de fenômenos paranormais foi o meio encontrado por Blavatsky para atrair a atenção das pessoas, mas não era em absoluto o objetivo final de seu interesse. O plano era conquistar dessa forma um número razoável de adeptos para, com eles, constituir uma sociedade ou agremiação. Essa meta foi, de certa forma, alcançada, embora mais tarde Blavatsky lamentasse amargamente esse período em que, para chamar a atenção sobre sua pessoa inicialmente, e logo após suas idéias, ela se dispôs a usar seus poderes paranormais. Procurava satisfazer a curiosidade insaciável dos presentes, atendendo a todos os seus pedidos, e isso causou grande desgaste de suas energias vitais, comprometendo-lhe inclusive a saúde. Sem contar que, anos mais tarde, suas capacidades paranormais foram postas em dúvida, atraindo sobre ela muita calúnia e agressões.

No decorrer desse período, de forma persistente mas quase imperceptível, ela iniciou o coronel Olcott nos mistérios das filosofias orientais, no ocultismo e no espiritualismo. Acendeu nele uma chama que só iria apagar-se em 1907, quando Olcott morreu.

Olcott não era um homem contemplativo. Seu temperamento o empurrava para a ação prática, para a conquista e o proselitismo. Ele acabou criando, com o consentimento e a colaboração de Blavatsky, um “Clube dos Milagres”, que foi a semente inicial da Sociedade Teosófica, esta última fundada oficialmente em dezembro de 1875. Tratava-se de um grupo esotérico cujos membros se comprometiam a um absoluto silêncio, e que tinha como finalidade a investigação, com métodos “científicos”, de “todas as manifestações paranormais, incluídas as materializações de espíritos”.

O clube funcionou durante algum tempo, mas Helena logo se desiludiu. A maioria dos membros, como comumente acontece em organizações similares, estava unicamente interessada em satisfazer a curiosidade de presenciar fenômenos estranhos. Blavatsky encontrou dificuldades quase insuperáveis para transformar essa gula banal de sensações diferentes numa real inquietude de tipo existencial, filosófico e espiritual. Por outro lado, a paixão pelos fenômenos espíritas, avidamente explorada pela imprensa americana da época, já começava a decair. Vários cientistas e membros das igrejas oficiais manifestavam agressivamente seu ceticismo e suas dúvidas.

Desgostosa, Helena abandona subitamente Nova York, indo para a Filadélfia. Olcott reúne-se a ela nessa cidade e conta, em suas memórias, os incríveis fenômenos de magia que ela produziu para ele e para um ou outro amigo mais íntimo. Entre tantos fatos estranhos, ele constatou que seus correspondentes de vários lugares do mundo remetiam-lhe as cartas para Filadélfia, sem que ele tivesse revelado a ninguém seu novo endereço. Foi também em Filadélfia que Olcott começou a receber correspondência, postada em diferentes lugares, dos mestres ocultos de Blavatsky. Essas cartas continham ensinamentos variados, e também orientação de caráter pessoal.

Embora fundada em Nova York, a Sociedade Teosófica não alcançou, nos Estados Unidos, e nessa época, o prestígio e importância que conquistaria mais tarde. Nesses anos, o acontecimento de maior envergadura na obra de Blavatsky é a produção dos quatro volumes de Isís revelada, seu primeiro grande marco como autora ocultista.

Em 1878 Helena naturaliza-se americana, e parte para a Índia no SS Canadá, em companhia de Olcott. Estabelecem sua base em Bombaim, morando no bairro nativo da cidade.

É na Índia que a Sociedade Teosófica conhece, em curto tempo, um crescimento e expansão inéditos para qualquer instituição similar. Olcott e Blavatsky viajam por todo o país, dando conferências, cursos, criando grupos de estudo. A imensa maioria de seus ouvintes são os próprios indianos, e as autoridades coloniais inglesas vêem com preocupação e suspeita o crescimento avassalador do movimento teosófico.

Em 1882 a Sociedade Teosófica compra uma extensão de terra na localidade de Adyar, perto de Madras, no sul da Índia. Instala-se aí a sede mundial da sociedade, onde permanece até os dias de hoje.

Em 1884, cansada pela atividade incessante e com a saúde seriamente abalada, Blavatsky recebe um rude golpe. Um casal de origem francesa, de nome Coulomb, entrega a missionários ingleses declarações assinadas onde acusam Blavatsky de fraude na produção dos fenômenos paranormais. Afirmam inclusive ter colaborado com ela na criação de truques destinados a enganar as pessoas. Soube-se depois que esse casal, que Blavatsky abrigara no próprio recinto da Sociedade, já que chegara a Adyar completamente desprovido de recursos, havia se incompatibilizado com a direção da casa devido a seu comportamento em desacordo com as normas estabelecidas. Os Coulomb tiveram de abandonar a sede, e a denúncia que fizeram em seguida contém, assim, todos os ares de uma vingança. Mas até que tudo isso fosse esclarecido, a tragédia estava armada. De posse daquelas declarações, os missionários as encaminharam para a grande imprensa indiana, criando um escândalo de proporções nacionais.

Em 1885, dentro desse quadro, Blavatsky adoece a ponto de todos pensarem na sua morte. Subitamente volta ao normal, e logo depois deixa a Índia para nunca mais voltar. Na presidência da Sociedade Teosófica permanece o coronel Olcott.

Na Europa, instala-se em Wurzburg, Alemanha, e mergulha firme na elaboração de A doutrina secreta. Mas a sua fase de adversidade não havia terminado. Certa manhã, ela recebe uma cópia de um relatório da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, de Londres, onde é acusada de charlatã. Nesse relatório, que fora publicado havia pouco na Inglaterra causando outro grande escândalo, o pesquisador Richard Hodgson afirma que todos os fenômenos produzidos pela atuação de Blavatsky seriam forjados. Blavatsky se defende, procurando por todos os meios provar sua inocência, mas a calúnia é insidiosa e iria durante anos refletir-se na sua imagem. Só depois de sua morte é que outras investigações afastaram a possibilidade de fraude.

Muitos amigos e seguidores a desertaram, e ela permanece na Alemanha em companhia exclusiva da condessa Wachtmeister. Cai gravemente enferma, mas reúne todas as suas forças e continua a trabalhar. Em 1887 termina finalmente A doutrina secreta, e viaja para Londres.

Nos anos seguintes, quase inválida, dedica-se à formação de um núcleo esotérico da Sociedade Teosófica. Escreve ainda duas obras capitais, A voz do silêncio (que seria traduzida em Portugal pelo poeta Fernando Pessoa), e A chave da teosofia. Vive ainda para ver publicada A doutrina secreta, cuja primeira edição de quinhentos exemplares esgota-se rapidamente.

A 8 de maio de 1891, dois meses antes de completar sessenta anos, Blavatsky falece tranquilamente em Londres.


"O homem interior é o único Deus que podemos conhecer". HPB

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Fonte: Madame Blavatsky, de Luis Pellegrini. T.A. Queiroz ed. 1986. O capítulo aqui postado na íntegra teve sua publicação gentilmente autorizada pelo autor. Grazzie Pellegrini!


Há muito o que se ver sobre Blavatsky no Youtube. Selecionei um vídeo-documentário de sete minutos em português de autoria de Rosane Viola do blog theosofical.blogspot.com. Quer dar uma olhada?



Um outro, bem legal, em inglês:





Um comentário :

  1. Paulo esta matéria foi divina. Impossível não querer saber mais sobre a vida da Madame Blavatsky, este ser tão iluminado. Obrigada por esta linda introdução. Beijocas, Pá

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