quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte II

. (Ilustração: Una Woodruff 1981 from the book Witches, by Colin Wilson)
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Continuando com o tema do post anterior, as viagens de Madame Blavatsky, vamos ler um capítulo do ótimo livrinho (porque pequenino) que Luis Pellegrini escreveu sobre a fundadora da Sociedade Teosófica. Um título bonito e sugestivo: O carrossel das viagens iniciáticas. Não repare, nele você irá encontrar muitas das informações já publicadas no post anterior, a parte I. Mas aqui o autor deu um trato nas informações sobre as viagens de HPB, deixando a leitura mais fluída, além de agregar outras passagens de interesse.

E não é que, relendo o texto do Pellegrini, dei por mim que noventa por cento da biografia de Helena Blavatsky se resume às viagens que ela fez ao longo de toda sua vida? Não lhe parece interessante?
Boa viagem.


O carrossel das viagens iniciáticas

Helena Petrovna nasceu prematuramente à meia-noite de 30 para 31 de julho (12 de agosto pelo calendário ocidental) de 1831, em Ekaterinoslav, no sul da Rússia. Uma terrível epidemia de cólera disseminava o terror em boa parte do país, exatamente nessa época. Muitos membros da família desapareceram na catástrofe.

Esse nascimento, num momento tão trágico, foi seguido por vários acontecimentos singulares, nos quais as pessoas simples e supersticiosas acreditaram ver signos inequívocos de um destino invulgar. Na cerimônia de batismo da pequena Helena, enquanto seus padrinhos, de acordo com o costume da época, cuspiam ao redor para afastar os maus espíritos, alguém, por descuido, incendiou com uma vela a batina do padre. Ele sofreu queimaduras de certa gravidade, e na desordem que se seguiu outras pessoas ficaram feridas. Neste e em outros incidentes viu-se o presságio de que a vida de Helena seria marcada por influências “diabólicas”, fazendo com que os servidores e as amas que se ocuparam dela a tratassem como um ser distinto, possuidor de dons sobrenaturais.

Certo dia, já menina, Helena revelou um caráter voluntarioso, rebelde e independente. Muito inteligente, chocava as pessoas e inquietava a família com um comportamento que denotava total desprezo pelas convenções sociais e pela etiqueta típica do seu meio. De qualquer forma, absorveu a refinada educação que lhe foi proporcionada, e que visava encaminhá-la, como as irmãs e primas, a um destino convencional de dama da aristocracia.

Revelou muito cedo possuir também uma grande variedade de capacidades psíquicas ou paranormais, como telepatia, premonição e clarividência, para assombro e preocupação ainda maior dos que a cercavam.

A morte da mãe, aos onze anos, foi um rude golpe que a obrigou a viver com os avós, os Fadeef, num antigo e vasto solar na cidade de Saratov. Passou a adolescência ali, junto a muitos outros membros da família e grande número de criados e servidores. Seu avô era o governador da província de Saratov.

A vida no solar foi determinada pela presença de Helena e pelos constantes fenômenos psíquicos que produzia. Ela se dizia (e, segundo os relatos, o demonstrava) dotada da faculdade de comunicar-se com os habitantes de outras esferas ou mundos invisíveis, bem como com os espíritos dos mortos. Essa potencialidade natural seria posteriormente disciplinada e desenvolvida, adquirindo grande importância nos processos que lhe permitiram criar e consolidar a sua obra.

Aos dezessete anos considerou encerrados os estudos, demonstrando talento apenas para a música – era exímia pianista – e para os idiomas. Falava correntemente, além do russo, inglês, francês e alemão, embora com forte sotaque. Nessa época, era uma rapariga dotada de um físico não privilegiado, pele muito branca, cabelos ruivos e crespos, olhos cinza azulados e muito brilhantes. Sua fisionomia revelava traços asiáticos, era robusta, e carente de feminilidade e encanto.

Não se preocupava com as questões amorosas, e seus parentes a julgavam incapaz de seduzir um homem. Não suportava sequer as conversas das amigas sobre noivados e galanteios. Apesar disso, em 1848, com a idade de dezessete anos, casou-se com o general Nicéforo V. Blavatsky, governador da província de Erevan, que já beirava, na época, os setenta anos. Existem muitas versões sobre as razões desse casamento. Alguns relatos dizem que ela foi obrigada a aceitá-lo por imposição da família. Mas é mais plausível que ela o tenha feito por vontade própria, num gesto impulsivo de protesto contra o pai. Este, certo dia, lhe teria dito que ela era tão pouco feminina que seria incapaz sequer de conseguir que aquele “velho corvo” se casasse com ela. Helena tomou isso como um desafio e, com certas manobras, fez com que o ancião se apaixonasse. Quando ele lhe pediu a mão, ela aceitou. Converteu-se assim em Helena Petrovna Blavatsky, conseguindo um sobrenome que haveria de conservar até o fim.

Mas, desde o primeiro dia, o casamento não foi do seu agrado. Da mãe e da avó, ambas batalhadoras pelo voto feminino, herdara não apenas os dotes intelectuais, mas também um ferrenho espírito de luta em prol dos direitos da mulher. Não podia suportar um casamento feito nos moldes tradicionais, em que a vontade da mulher nada contava. Não quis se entregar ao marido e, segundo consta, poucos dias após as bodas tentou subornar um soldado cosaco da guarda do marido para que a conduzisse à Pérsia. O soldado a denunciou ao velho Blavatsky, que se enfureceu e a considerou sua prisioneira. Helena foi encerrada em casa, sob severa vigilância. Três meses depois ela conseguiu fugir. Refugiou-se na casa da família, que a remeteu ao pai. Mas temendo que este a obrigasse a voltar para junto do marido, desviou a rota e foi para o porto de Odessa, no Mar Negro, onde embarcou num veleiro inglês rumo a Constantinopla, na Turquia. Mais tarde, com a ajuda do pai, que lhe remeteu dinheiro, foi para o Egito. Termina aqui sua biografia como jovem dama da aristocracia russa. No mesmo ponto onde começa a trajetória de uma vida fascinante, tanto no sentido mundano como no espiritual.

A ruptura de Helena com o marido não foi seguida de divórcio, já que a lei russa o proibia. O general negou-se a proporcionar-lhe qualquer subsídio, mas seu pai, de forma mais ou menos velada, enviou-lhe regularmente uma pensão vitalícia a todos os lugares onde esteve. A essas quantias juntaram-se, ao longo dos anos, algumas heranças deixadas por tias e outros parentes, e todo esse suporte financeiro permitiu que ela realizasse, durante duas décadas, um impressionante número de viagens. Sua vida, nesse período, mais parece uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões. Nesse sentido a biografia de Helena Blavatsky é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de freqüentes mudanças de um lugar para outro. Por um lado, essa característica está relacionada com uma particular inquietude de alma que distingue tais seres dos homens comuns. Por outro, é axioma bem conhecido no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto. Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do esoterismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto.

Helena Blavatsky não fugiu a essa regra. Em 1849, no Cairo, logo após a estada na Turquia, encontra seu primeiro instrutor espiritual. Era um idoso letrado de religião copta, que tinha fama em todo o país de ser mago e ocultista de talento, além de bom conhecedor da antiga religião faraônica. O encontro modificou a vida de Helena, despertando-lhe inquietudes de natureza filosófica e espiritual e preparando-a para contatar, pouco mais de um ano depois, seu guru, em Londres. Foi esse instrutor copta quem a teria iniciado nos mistérios do culto arcaico da deusa Isis, fazendo-a apreender o verdadeiro significado do feminino universal.

Nenhum dos numerosos biógrafos de Blavatsky conseguiu traçar o exato itinerário de suas andanças no período que vai de 1851, quando viaja para o Canadá, até 1873, quando se instala em Nova York. Encontramos traços de sua passagem por uma tribo indígena próximo de Quebec, logo depôs vai estudar a comunidade Mórmon instalada em Utah, nos Estados Unidos; a seguir, pesquisa ritos vodu na região de Nova Orleans. Visita as ruínas aztecas e maias na América Central. Viaja para o Oriente, passando um bom tempo no Ceilão e na Índia. Sabe-se que em 1853 faz uma primeira tentativa para entrar no Tibete, território proibido aos estrangeiros. E presa pelos ingleses e trazida de volta para a Índia. Vai para Singapura e Java, de onde retorna à Inglaterra.

No verão de 1854 atravessa os Estados Unidos e, na Califórnia, embarca de novo para o Oriente. Chega ao Japão, onde encontra os membros da mais esotérica das seitas daquele país: os iamabuchis. Em 1856 está novamente na Índia, visitando a Cachemira e Ladakh, na fronteira com o Tibete. Passa cerca de três anos recebendo instruções num mosteiro lamaísta da cidade de Shigatsé.

No outono de 1867 chega à Itália, em Bolonha, envolvendo-se com os revolucionários italianos. Luta ao lado de Garibaldi na batalha de Mentana e é gravemente ferida em combate no dia dois de novembro.

Em 1868 vai mais uma vez ao Tibete, encontrando-se com seus mestres. Até 1870 permanece em vários mosteiros tibetanos, recebendo treinamento intensivo. Há uma carta misteriosa entregue a uma sua tia, em Odessa, na Rússia, que diz: “Os nobres parentes de Madame Blavatsky não têm qualquer motivo para preocupação. Sua filha e sobrinha não deixou este mundo. Está viva e deseja que aqueles que a amam saiba que está bem e sente-se muito feliz neste distante e desconhecido local que escolheu para si. Esteve muito doente, mas já está boa; graças à proteção de Sehor Sang-Gyas encontrou amigos devotados que tomaram conta dela material e espiritualmente. Que as senhoras, portanto, fiquem calmas. Antes de dezoito novas luas terem surgido, ela voltará a sua família.”

Nos últimos dias de 1870 Blavatsky deixa a Índia, retornando à Europa pelo canal de Suez. No verão de 1871 parte para o Egito, procedente do porto grego do Pireu, a bordo do SS Eunomia. O navio explode durante a viagem, entre as ilhas de Doxos e Hidra, no dia 21 de junho. Este fato é comentado em certas biografias assinadas por autores teosofistas, como sendo um atentado destinado a assassinar Blavatsky. A bomba que explodiu no navio, causando seu naufrágio, teria sido colocada pelos chamados “homens de negro”, pertencentes a uma outra confraria de desígnios contrários aos da Fraternidade Branca. Sabedores de que Helena estivera no Tibete em contato com instrutores dessa última confraria, sendo por eles iniciada no conhecimento secreto, procuraram matá-la com aquele atentado. Seja como for, Helena foi uma das sobreviventes da catástrofe, tendo recebido assistência do governo grego, que a enviou para Alexandria, no Egito.

No outono de 1871 ela funda uma sociedade espírita no Cairo, para a investigação dos fenômenos mediúnicos. Fracassa no empreendimento. Vai para a Síria e a Palestina, entrando em contato com judeus e cabalistas e com a comunidade drusa no Líbano.

Em 1872, no verão, retorna a Odessa, para visitar a família, antes de terem passado as dezoito luas, como foi indicado na carta citada. Mas não permanece na Rússia por muito tempo.

Em 1873 já está em Bucareste, na Romênia, de onde segue para Paris. Parte subitamente para os Estados Unidos, onde chega no dia 7 de julho.

Em Nova York recebe a notícia da morte do pai, bem como a da interrupção das remessas em dinheiro que a mantinham. Passa por dificuldades financeiras. Trabalha na imprensa, traduz livros, escreve artigos para jornais russos. Começa a ficar conhecida e é intensa a curiosidade que desperta em todos os circuitos que freqüenta na grande metrópole americana.


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