domingo, 20 de dezembro de 2009

As viagens de Madame Blavatsky (1831-1891). Parte 1

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(Foto: Enrico Resta. Londres, 1889.)
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Helena Petrovna Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica (1875), foi a mulher mais interessante que passou por esse planeta no século dezenove. HPB realizou proezas que poucas pessoas seriam capazes de realizar mesmo nos dias de hoje. Proezas, aliás, que lhe trouxeram alguns desgostos, como ter sido considerada uma impostora quando na realidade havia dedicado toda a sua vida à causa pela qual lutou até o fim, a de demonstrar, através do estudo dos grandes textos sagrados, de que não existe religião superior à verdade.

É sabido que as pessoas que vivem à frente de seu tempo, que nascem para quebrar paradigmas, para contestar os padrões vigentes, não vivem uma vida tranquila e vulgar. São incompreendidas, julgadas, sofrem preconceitos e acabam sendo tomadas por loucas ou no mínimo excêntricas, o que dá quase no mesmo. Helena passou por tudo isso: interessou-se desde jovem pelo ocultismo, foi considerada espiã russa, falava diversas línguas (40, segundo alguns relatos), viajou para os lugares mais distantes e exóticos do planeta, produziu fenômenos paranormais, escreveu obras que ainda hoje espantam os estudiosos por sua imensa erudição, e, cereja do bolo, era mulher. Parece pouco? Pois Madame Blavatsky quebrou muitos tabus, veja só alguns:

- querer ser verdadeiramente mulher, totalmente emancipada e não uma boneca escrava dos homens para ser utilizada como mera fábrica de prazer ou trabalho;

- viajar constantemente pelo mundo, numa época em que as comunicações eram difíceis e o sentido de informação praticamente não existia;

- possuir poderes psíquicos de grande desenvolvimento e que provocavam, inúmeras vezes, grande curiosidade em torno de si;

- ter repudiado publicamente o Cristianismo e se convertido ao Budismo. Contra ela caía a cólera dos missionários que tentavam em vão converter os “infiéis”;

- apresentar ao mundo o valor imenso do conhecimento tradicional da Índia. Foi ao ler os livros de Helena Blavatsky que Gandhi encontrou a sua vocação (documentado em sua autobiografia);

- não possuir título universitário e ter a coragem de escrever contestando inúmeras idéias em vigor na época.

Além de Gandhi, citado acima, Luis Pellegrini lembra-nos que HPB também influenciou nomes importantes de nossa história recente: Fernando Pessoa, Yeats, Albert Einstein, Thomas Edison, Carl Jung, Bernard Shaw, Rudolf Steiner, Krishnamurti, Kandinsky, Aldous Huxley, Mondrian e o dramaturgo brasileiro Plínio Marcos, para valorizar o que é nosso, e que sobre Helena escreveu o seguinte:

“... de repente, Blavatsky me arrebatou de vez. Viajei com ela. Viajei de várias maneiras. A favor, contra, junto. Com amor, ódio, paixão inflamada, desprezo, escárnio. Sempre conduzido por ela. Doida visionária, poeta utópica, embusteira de mil e um truques dignos de ilusionistas de mafuá, mas sempre grandiosa e de extrema generosidade. Sempre no caminho. Ansiosa por se encontrar e sem nenhum medo de se perder. Ansiosa para despertar o próximo, sem nenhum medo da solidão. Ansiosa para promover a concórdia universal, sem nenhum medo de semear conflitos e aguçar contradições. Eu fui compreendendo a Blavatsky. E então, ela me levou para uma região de total silêncio. Ali, sem nenhum sentimento, sem ternura e sem rancor, sem emoção, eu escrevi sobre a Blavatsky. Não com as regras de um pesquisador acadêmico. Escrevi sobre a Blavatsky com a percepção do meu espírito parado diante do dela.”

Não é mesmo bela essa declaração de Plínio Marcos? Quanto à obra de HPB há muito o que ser dito, explicado, estudado, entendido, esmiuçado, revelado, relembrado, contestado, questionado, tudo isso e muito mais. Sua obra mais grandiosa, a Doutrina Secreta, composta de seis volumes (editadas aqui pela Pensamento) possui tantas citações e referências que, como escreveu Pellegrini, segundo cálculos, para conseguir ter acesso a todas as informações ali documentadas, HPB deveria ter lido sem parar por mais de um século! O espantoso é que HPB não só citava suas fontes como também as páginas dos livros nos quais as passagens foram retiradas, de obras muitas vezes só encontradas em acervos de bibliotecas restritas como as do Vaticano ou do Museu Britânico ou a de alguma coleção de um mosteiro perdido nos Himalaias. Os que conviveram com ela, como a fiel companheira Condessa Constance Wachtmeister que a secretariou em seus últimos anos de vida, afirmam que Blavatsky não carregava em sua biblioteca particular mais do que uma dezena de obras, uma “pequena estante de livros ordinários”, segundo Olcott. Um cientista britânico, C. Carter Blake chegou a declarar o seguinte, depois de um encontro com HPB: “Madame Blavatsky possuía, sem dúvida, fontes originais de informação (ignoro sua natureza) que transcendiam o conhecimento de especialistas em seus próprios campos.” De onde, então, HPB tirou todo esse conhecimento? São delas as palavras:

“O que eu faço só posso descrever como uma espécie de vácuo que se delineia no ar diante de mim. Fixo meu olhar e minha vontade nesse vácuo e logo em seguida cenas, uma depois da outra, começam a desfilar diante de meus olhos, como quadros sucessivos de um diorama. Se preciso de uma referência ou informação de algum livro, concentro minha mente no objetivo e a contrapartida astral do livro surge diante de mim e dela retiro o que preciso.”

Obviamente, muitos são os que contestam esses poderes paranormais de HPB; dizem que ela era uma médium bastante evoluída em termos práticos, principalmente na arte (mágica) da materialização, o que trouxe consequências graves à sua saúde cada vez mais fragilizada no passar dos anos, por conta do enorme desgaste energético de suas práticas “pouco convencionais”. Madame Blavatsky era uma mulher obesa, sedentária, se alimentava perigosamente (amava ovos banhados em manteiga derretida) e fumava muito, incluindo o haxixe, que além do prazer também lhe ajudava num sentido mais “xamânico”, por assim dizer. Também não era vegetariana e dos excessos civilizatórios nesse campo da alimentação, o álcool em sua mesa não tinha vez, pois era abstêmia. Percebe-se com tudo isso que HPB estava longe de qualquer tentativa de enquadramento dentro dos padrões espiritualistas de sua época (ou de qualquer outra que seja).

Quanto aos poderes - meros detalhes se comparados à grandiosidade de sua obra e erudição - HPB se fez valer deles intencionalmente para chamar a atenção à uma causa maior, muito maior do que os fenômenos que produzia, o que de fato aconteceu. A Condessa Wachtmeister escreveu o seguinte sobre isso:

“Tivesse Madame Blavatsky se apresentado no início como simples professora de Filosofia, poucos discípulos teria atraído para junto de si, pois vinte anos atrás muita gente não havia chegado ainda ao ponto a que se chegou. (...) A instrução estava em nível inferior ao atual e havia necessidade de algo que atraísse, por exemplo, o gosto pelas coisas maravilhosas, para despertar um interesse inicial que levasse as pessoas a refletir com mais profundidade. Assim, os fenômenos deram início à Sociedade, mas uma vez introduzido esse elemento, seria difícil desfazer-se dele depois de ter servido com tanta utilidade. Todos chegavam ávidos de satisfazer seu gosto maravilhoso e, se fossem desapontados, afastar-se-iam aborrecidos e indignados.”

Entretanto, com o tempo, ela mesma se valeu de artifícios enganosos para ludibriar aqueles que iam visitá-la, sem se preocupar muito com isso, mas ao ser flagrada aqui e ali em algumas ocasiões, todo o seu histórico fenomênico foi questionado, e com o tempo sua reputação extremamente abalada. Se por um lado ela pouco se importava com o que diziam sobre si, por outro uma profunda tristeza lhe abateu ao ver sua obra – a obra de seus Mestres – ser tratada sem o respeito que lhe era merecido. Mas mesmo quanto a isso HPB estava preparada, pois costumava dizer que sua obra só poderia começar a ser compreendida um século após a sua partida do plano terrestre.

Enfim, se fôssemos começar a esmiuçar cada detalhe interessante da vida de Helena Blavatsky, teríamos que teclar por dias e noites sem fim, mas para isso, leitor e leitora, há bons livros que depois indico. Neste espaço virtual, o aspecto que procuro destacar é o do universo encantado e encantador das viagens, então, antes de seguirmos para uma leitura muito bacana que separei para o Odepórica (a ser postada depois desta), vejamos um resumo impressionante das viagens de HPB pelo mundo, que tirei de um livrinho publicado na coleção O Pensamento Vivo, da Martin Claret:

1849-50 – Cruza a Turquia, a Grécia, o Egito e atinge a França.
1851 (outono) - Parte para o Canadá, para investigar a maneira de viver dos índios; reúne-se a uma tribo próximo a Québec e permanece durante algum tempo estudando a medicina natural. Vai a Illinois para conhecer a comunidade Mórmon, que tinha se deslocado para Salt Lake City, no Utah.
1851 (inverno) – Vai a Nova Orleans estudar os rituais de feitiçaria do Vodu. Parte para o Texas em direção à América Central, via México.
1852 – Chega ao Peru, descrevendo com detalhes vários templos na sua obra Isis sem Véu.
1852 (verão-inverno) – Encontra-se nas Índias Ocidentais; chega à África de navio e depois segue para o Ceilão.
1852-1853 – Tenta entrar no Tibete, mas é presa pelos ingleses e trazida de volta à Índia. Vai para o sul do país e daí para Singapura e Java de onde volta para a Inglaterra.
1854 (verão) – Nova Iorque e Chicago. Cruza os EUA e chega à Califórnia.
1855-1856 – Parte para o Oriente. Atinge o Japão e encontra-se com membros de uma seita esotérica, os Yamabuchis, notáveis por seus poderes de cura. No mesmo ano vai à Índia e a Java.
1857 – Retorna à Europa.
1858 – Passa pela França, Alemanha e Rússia, onde passa o Natal com sua irmã.
1863-1864 – Passagem na região do Cáucaso.Viaja para Imeretia, Guriya e Mingreliya mas florestas virgens da Abhasia.
1865 – Finalmente entra no Tibete, onde recebe instruções num mosteiro na região de Chigadze.
1867 – Vai à Europa Oriental. Jornada de barco pelo Danúbio. No outono é encontrada em Bologna, na Itália, onde está envolvida com revolucionários italianos. Lutou ao lado de Garibaldi na Batalha de Mentana, onde foi ferida no dia 2 de novembro.
1868 – Viaja a Florença, depois Belgrado e Constantinopla. Depois de um tempo na Turquia, dirige-se mais uma vez à Índia.
1869 – Volta ao Tibete em companhia de seu mestre.
1870 – Volta à Índia retornando à Europa pelo Canal de Suez.
1871 – Parte para o Egito, saindo do porto grego de Pireo. O navio em que estava explode e HPB é uma das poucas sobreviventes (este seria o segundo naufrágio a que sobreviveria). No outono parte do Cairo para a Síria e a Palestina.
1873 – Encontra-se na Rumânia, em Bucareste, de onde parte para Paris.
1874 – Volta aos EUA para presenciar os estranhos acontecimentos espíritas em Vermont. Nessa viagem conhece o Coronel Henry Steel Olcott, co-fundador da Sociedade Teosófica.
1876 – O corpo do barão de Pal (membro do Conselho da Soc.Teosófica) é cremado em Washington. Foi a primeira cremação nos Estados Unidos, fato que provocou controvérsias e manchetes nos jornais.
1878 – Naturaliza-se norte-americana. Viaja à Índia com Olcott e resolve morar um tempo em Bomabaim.
1880 – Recebe a consagração como budista no Ceilão.
1882 – É fundada a Theosophical Society em Madras, sede internacional da Sociedade Teosófica (na localidade de Adyar). Em setembro desse ano Blavatsky e alguns monges budistas vão até um monastério na fronteira entre o Butão, Sikkim e Tibete.

Helena continua viajando incessantemente pela Índia e pela Europa. Estabelece-se no final da vida em 1887 numa residência em Londres, onde veio a falecer em 08 de maio de 1891. HPB foi uma mulher tão extraordinária que um dos Adeptos fez a seguinte afirmação: “Uma mulher como Blavatsky aparece no mundo apenas a cada 10.000 anos”. Sinceramente, é difícil discordar. Nesse campo das coisas do espírito, com a mesma profundidade de Helena eu só consigo me lembrar de uma personagem histórica tão marcante quanto ela: Hildegard von Bingen, de quem oportunamente falarei aqui no Odepórica.

As fontes que eu utilizei nessa postagem são as seguintes:

O Pensamento Vivo de Blavatsky, edição ilustrada, da Martin Claret. O livro é interessante pela facilidade em se buscar uma referência básica sobre HPB, além das fotos que a ilustram. Peca pela qualidade precaríssima da publicação em papel jornal, cujas folhas se soltam facilmente numa leitura posterior.

Reminiscências de H.P. Blavatsky e de A Doutrina Secreta. Condessa Constance Wachtmeister (e outros). Editora Pensamento. Adoro essa obra, que tem como mérito uma autora que conviveu na intimidade com Madame Blavatsky. Além do mais, é um documento sobre os costumes da segunda metade do século dezenove.

A Esfinge Helena Blavatsky. Marina César Sisson. Editada em 2003 pela autora. (email:
msisson@terra.com.br). A autora enriqueceu sua obra ao publicar diversas correspondências entre HPB e membros da ST. De quebra, o livro traz em suas 307 páginas umas fofoquinhas (sem maldade) bem interessantes sobre HPB. Recomendadíssima.

Madame Blavatsky. Luis Pellegrini. T. A. Queiroz Editor, 1986. Coleção Transcendência. Do Luis Pellegrini o Odepórica já postou uma resenha, Os pés alados de Mercúrio. Neste livrinho (tem somente 67 págs) o autor dá conta do recado como ninguém. Um dos capítulos, que trata das viagens de HPB, você irá ler na íntegra na minha próxima postagem.

3 comentários :

  1. Meu caro Paulo César
    acho realmente importante passar esses recados sobre a vida e o pensameno dessa mulher tão importante para a elaboração do paradigma holístico que hoje começa a penetrar em todas as áres do conhecimento. E aguardo o capítulo sobre as viagens iniciáticas dela, que você promete para dentro em breve.
    Agradeço seu comentário no meu blog recém lançado! O primeiro comentário é o seu. E isso certamente significará alguma boa coisa.
    Abração do
    Luis Pellegrini

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  2. Valeu, peregrino Pellegrini! Sinto que, com todas as mudanças que se avizinham, personagens marcantes do passado como HPB voltarão a ser estudados, talvez com novos enfoques, o que seria(será!) genial. Quantas coisas boas, em todas as áreas do saber, ficaram para trás embora ainda guardando um potencial imenso a ser explorado, não? Agradeço a visita e aguarde uma surpresinha no próximo post... Aliás, notou algo diferente no link aí ao lado sobre os sites interessantes? : )))
    Saludos,
    paulocésar

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  3. REALMENTE, BLAVATSKY FOI UM ÍCONE EM ESPIRITUALIDADE , TRABALHO E SOLIDARIEDADE !

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