segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 1

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Depois do último post sobre o Kerouac resolvi mergulhar ainda mais na literatura beat e já li tanta coisa interessante que nem sei por onde começar. E tudo tem tanto a ver com a proposta do Odepórica que me dá vontade de ficar o dia inteiro lendo, escrevendo, viajando.... muito bom mesmo, mas é preciso manter um foco, paciência, então vou começar com um texto que vou postar em três partes, um texto muito gostoso de ler – e muito visual, você irá perceber.

O autor: Eduardo Bueno, jornalista e escritor gaúcho, que carrega no currículo a belezura de haver traduzido em 1984, junto com A. Bivar o clássico On the road, nosso Pé na estrada. E pensar que o Brasil demorou tanto tempo para ler Kerouac, um espanto isso. Para nossa sorte e comodidade, Bueno é apaixonado pela cena beat e você encontrará muita coisa traduzida por ele na literatura beat publicada aqui pela L&PM.

A obra: Alma beat: ensaios sobre a geração beat, editada no inverno de 1984 pela L&PM, claro, uma coletânea com artigos de vários escritores, que cito a seguir porque merecem: Antonio Bivar, Cláudio Willer, Eduardo Bueno, Leonardo Fróes, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e Roberto Muggiati. Todos com textos muito originais, com fotos e breves biografias dos autores da geração beat. Foríssima de catálogo, uma pena, o jeito é sebar. Recomendadíssima para os amantes da literatura beat.

Na estrada da beatitude

“Qual a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada da droga, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em algum lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância.” (Neal Cassady)

Visões da América. Refinarias fumegando sob estrelas opacas da noite industrial, água oleosa de rio poluído sem peixes refletindo o céu rubro do entardecer, longas retas de estradas desertas conduzindo em direção a montanhas purpúreas que pertencem a outros estados, imensos céus azuis cristalinos com nuvens brancas silenciosas acima das macieiras carregadas, garota loira gorda de jeans montada num cavalo marrom no acostamento ensolarado à beira da estrada onde uma enorme jamanta vermelho metálico passa levantando poeira e agitando os tufos de capim do deserto escaldante; velhos restaurantes de beira de estrada com a grelha gordurosa fritando hamburgers, e bacon, e ovos sob luz de néon esverdeada na noite cálida do sul da Califórnia; ratos percorrendo caminhos de terra nos fundos de um posto de gasolina onde cães assassinos rosnam por trás de cercas de arame farpado; vagabundos maltrapilhos tomando café numa lata junto a uma fogueira próxima aos trilhos do trem ao lado de um imenso silo amarelo de zinco; luzes e sirenes de viaturas policiais brilhando/zumbindo no silêncio morto da noite como se estivessem fugindo de algum crime inconfessável; um índio parado ao lado de uma máquina de fliperama numa estação rodoviária com o piso recoberto de tickets, baganas e saliva (provocando aquela melancolia que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir), andarilhos desamparados de rosto fino e nariz aquilino cruzando e tornando a cruzar o país – para o sul no inverno, rumo ao norte no verão – carregando um pequeno pedaço de papel amassado com a imagem de Santa Teresa num dos bolsos da mochila. Policiais de óculos escuros e botas reluzentes e rosto macilento aguardando soturnos, sombrios e insondáveis em postos fronteiriços palitando os dentes no calor abafado do meio-dia; um grupo de índios Omaha, pequenos e mirrados, prostados à beira da estrada, com olhos fixos e vazios, acocorados sob a chuva fina, perdidos na imensidão descolorida, sem ter para onde ir ou o que fazer...

Eis aí o que buscavam os beats em sua peregrinação: visões da América ao longo dos caminhos, estradas e trilhas. “Todas essas caronas, todo esse sacolejar ferroviário, todos esses regressos eternos à América!” Longas loucas cenas americanas que pareciam estar ali à espera desde sempre, à margem da super-freeway rasgando o coração industrial de alguma grande cidade da costa Leste, ao lado de extensas estradas de duas pistas cruzando desertos de areia e artemísia, nas trilhas secundárias e tortuosas entre montanhas de pico nevado.

Um bando de garotos inquietos, universitários de saco cheio, intelectuais avessos aos gabinetes e seu imenso país continental com um apelo irresistível: “Toda aquela terra crua e rude se esparramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, e todas as pessoas sonhando nessa imensidão enquanto a estrela do entardecer vai caindo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria...” profetizava Jack Kerouac no final nostálgico, melancólico de On the road, ao pensar em Dean Moriarty, e também no velho Dean Moriarty (o pai que ele e Neal “Dean” Cassady jamais encontraram), ambos perdidos na “pavorosa imensidão da América...”

A estrada dos loucos

Jack, como se sabe, não foi o mais estradeiro dos beats. Mas sem dúvida foi quem criou a mística literária da estrada e incorporou-a definitivamente à narrativa beat. Nunca chegou a viajar tanto quanto gostaria (ou quanto geralmente se imagina que tenha viajado). Além das rotas de On the Road (quatro viagens entre julho de 1947 e abril de 1950, pelo grande triângulo Nova York-San Francisco-Cidade do México, com constantes paradas em Denver, Colorado), houve poucas aventuras estradeiras na vida de Kerouac.

Mesmo antes de virar um barrigudo meio reacionário tomando cerveja e vendo TV na casa da mãe em Massachussets, Jack já tinha abandonado as caronas. Até 1959, porém, continuava tomando velhos ônibus de segunda classe, ou utilizando seus passes ferroviários em pesados e escuros trens de carga, (ou às vezes embarcando num cargueiro lerdo em direção ao Marrocos e a Europa). Esteve várias vezes na Califórnia e no México (onde escreveu Doctor Sax, México City Blues, Tristessa e Desolation Angels). Em Lonesome Traveler, descreve sua “viagem épica” até lá, mais de três mil quilômetros num ônibus “que era uma lata velha, alto e frágil, com os bancos de madeira e passageiros de poncho e chapéu de palha com suas cabras ou porcos ou galinhas, avançando aos trancos e solavancos por uma interminável estrada de terra com breves paradas para desentorpecer as pernas nas cabanas do deserto de Sonora onde grandes índias gordas cozinham tortillas em fogões de pedra enquanto eu aproveitava pra fumar um baseado escondido nos fundos das estações rodoviárias, entre os cactus, acocorado no chão poeirento sob o sol abrasador.”

Mas de carona mesmo, Kerouac fez apenas uma grande viagem: a de Nova York a Denver, e a descreve em ínfimos detalhes nos capítulos 2 a 9 de On the Road. Aos 25 anos, de saco cheio da escola (“minha vida de vagabundagem pelo campus tinha completado seu ciclo e já não significava nada para mim”), recém-curado de “uma doença séria, da qual nem vale a pena falar” e com o “sentimento de que tudo estava morto”, Jack encontrou-se pela primeira vez com o já lendário Neal Cassady, de 21 anos, na época “um delinqüente juvenil envolto em mistério” e que tinha larga experiência pelas estradas da América. Das conversações intermináveis pelos túneis, ruas, cais de Nova York, explode em Kerouac o desejo irresistível de finalmente cair na estrada. “Mais tarde ele (Neal) me abandonaria em sarjetas famintas e camas enfermas, mas o que me importava? Eu era um jovem escritor e tudo o que eu queria era cair fora. Em algum lugar, ao longo da estrada, eu sabia que haveria garotas, visões e tudo mais; em algum lugar a pérola me seria ofertada.”

E assim, em julho de 1947, com 50 dólares no bolso, Kerouac caiu fora em direção à dourada Costa Oeste, a seis mil quilômetros de distância. E o que narra então faz bater os corações (estradeiros ou não) ainda hoje, trinta anos depois que o livro foi escrito e quase quarenta depois de suas cenas terem sido vividas.

Um comentário :

  1. Oi César, quando vc comentou que este texto é visual, pensei que seria parecido com as outras matérias que você vem blogando, que considero maravilhosas exatamente por terem estas características. Mas este texto me surpreendeu. Tive a sensação de estar vendo slides. As palavras jogadas fazem o cérebro trabalhar de uma forma diferente, embaralhando as nossas experiências pessoais com o que o escritor vai relatando. Manda logo a segunda parte! Beijocas.

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