domingo, 15 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 3, final

.

A estrada do arco-íris

Nascido em 31 de maio de 1819, descendente de lavradores ingleses, Walt Whitman morreu em março de 1892, solitário e tranqüilo numa colônia em Nova Jersey. Havia crescido em Brooklyn, então uma pequena aldeia estabelecida em frente de Nova York, do outro lado do East River. Entre as rochas de sua ilha nativa, lia clássicos gregos, Shakespeare, Hegel, Cervantes, Dante e a Bíblia, sempre “na presença total da natureza, solitário sob o sol, em frente à paisagem ampla e o azul distante do mar.” Desta maneira, cresceu disposto a levar uma vida aventureira. Foi professor numa escola primária, carpinteiro, tipógrafo, jornalista e enfermeiro. Mas acima de tudo, aprendeu a amar a estrada: fez duas longas viagens a pé, a primeira até os Grandes Lagos na fronteira com o Canadá, a outra até New Orleans, ao sul. “Como Adão ao amanhecer/ saio do bosque fortalecido pelo descanso noturno”, escreveria num de seus poemas estradeiros. Nenhum deles, porém, pode se comparar ao Canto da Estrada Aberta:

A pé e de coração leve
eu enverdo pela estrada aberta,
saudável, livre, com o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo
levando-me aonde eu queria.
(...)
Ó estrada minha e de todos,
o que posso lhe dizer
é que não tenho medo de deixá-la,
por mais que a ame: você me expressa melhor
do que eu expresso a mim mesmo,
você há de ser para mim
mais do que o meu poema.

Ao final do canto traduzido por Geir Campos, Whitman adverte aqueles que pretendem segui-lo e fazer da estrada sua vocação:

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
você não acumulará riquezas, assim chamadas,
distribuirá com mão pródiga
tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
nem bem chegando à cidade à qual era destinado
dificilmente se há de estabelecer
e ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir (...)

Outro velho andarilho, contemporâneo de Whitman, está na raiz estradeira da América: o fauno, o wildman Henry David Thoreau, nascido em Concord, Massachusets, (nas proximidades da insignificante e têxtil Lowel, de Kerouac) a 12 de junho de 1817. Aos 28 anos, abandonou a cidade e transferiu-se para o lago de Walden, há uns vinte quilômetros de Concord e lá construiu com as próprias mãos uma cabana, onde viveu durante oito anos e dois meses, “para encurralar a vida a um canto e arrancar dela seu sentido mais íntimo”. Antes, durante e depois da estadia em Walden, Thoreau realizou caminhadas inacreditavelmente longas, e extensas excursões de canoa pelos rios límpidos da região. Deixou textos admiráveis, como Walking:

“Desejo dizer uma palavra em nome da liberdade absoluta, em nome da natureza, em nome da amplidão, que contrastam tanto com a liberdade e a cultura opressivas da cidade. Em todo o decurso da minha vida só encontrei uma ou duas pessoas que compreendiam a arte de caminhar, isto é, de andar a pé – que tinham o gênio, por assim dizer, do sautering, palavra esplendidamente derivada de ‘pessoas vadias que erravam pelo país, na Idade Média, sob o pretexto de irem à la Sainte Terre’, até as crianças exclamarem ‘lá vai um Sainte-terrer’. (...) Os que se deixam ficar em casa, quietos e calados, sempre e sempre, podem ser os maiores errantes, mas o saunterrer não é mais errante do que o rio sinuoso cujo propósito é encontrar o caminho mais curto para o mar. (...) Sou capaz de andar facilmente dez, quinze, vinte, qualquer número de milhas, começando da minha porta, sem parar em qualquer casa, sem atravessar uma estrada exceto nos trechos em que as próprias raposas e doninhas são obrigadas a fazê-lo e, do alto das colinas, posso ver a civilização e suas construções. O homem, seus negócios, a Igreja, o Estado, a escola, o comércio, a agricultura, a política – folgo em ver a insignificância do espaço que ocupam na paisagem. Ah, mas cada vez derrubam-se mais florestas, surgem novas cercas... Temo o dia que há de chegar em que não poderemos caminhar pelas matas sem ter que cruzar por propriedades particulares.”

Os beats amam Thoreau, e Kerouac – ao abandonar a Columbia University – parece ter tomado ao pé da letra uma das muitas frases antológicas deste ultra rebelde: “Quanto mais ar e luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor.”

Mais tarde, o espírito estradeiro americano amplia seu raio de ação com a marcha para Oeste, depois capitalizada pelo fascistíssimo princípio do “Destino Manifesto”: a expedição de Lewis e Clark em 1805, a corrida do ouro em 1860, na Califórnia e depois no Alaska, o massacre das tribos selvagens das Grandes Planícies abrem novos espaços para a colonização. Surgem as primeiras grandes estradas continentais americanas: a Bozeman Trail, a Parkman Trail, e os “fios que falam” do telégrafo dividindo o céu límpido da pradaria; as ferrovias do Leste e do Oeste se encontram afinal. O país está unido de costa a costa (apenas o México insiste em atrapalhar um pouco reivindicando a propriedade de seus territórios, o Texas, O Novo México, o Colorado e a Califórnia – uma guerra rápida e fácil termina com essa questiúncula) “Pobre México, tan lejos de Dios, tan cerca de Norte América.”

Bem, e as novas estradas se povoam de andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos, especuladores de terra, jornalistas abelhudos, militares obtusos (“Índio bom é índio morto”), religiosos beatos, vendedores de elixir, caçadores de peles e toda essa fauna impressionante que Hollywood reduziu a estereótipos medíocres – mas que, é claro, existiram de fato e foram estradeiros de primeira.

Na virada do século, os velhos ratos mochileiros começaram a ser enxotados das cidades que ajudaram a fundar, “mas que se tornaram tão prósperas que já não precisavam mais de mochileiros”. Na segunda década do século, a agricultura altamente mecanizada, a concentração de terras e o capitalismo selvagem expulsam milhares de habitantes de Oklahoma e demais estados do Meio Oeste de suas propriedades. Eles partem para a Califórnia formando filas imensas pelas estradas. As fronteiras do estado são fechadas. Lá ninguém entra (pelo menos não sem grana). Muitos colhem algodão e maçãs em troca de um prato de comida.

Por mais indigna que seja uma época, sempre sobram homens íntegros nela: Woody Guthries e Joe Hill são apenas dois exemplos. Bound for Glory, a emocionante biografia de Guthrie (em cujo violão estava escrito à faca: “Essa máquina mata fascistas”) oferece um retrato bastante fiel deste período sombrio, quando o Oeste foi tomado por andarilhos, desempregados e marginais em geral, viajando sobre os trens de carga, enfrentando a fúria dos guardas-freios e dos fura-greves. Na mesma época, as garotas da indústria têxtil de Chicago entram em greve. Seu lema: “We want bread. And roses too.” Várias foram assassinadas pela polícia. Uma tragédia americana, como tantas. A Depressão de 29 aumentou ainda mais a população de estradeiros americanos – a maioria, claro, sem muita convicção na nova atividade.

John Steinbeck, que se declarava andarilho na alma, foi um escritor que penetrou no mundo destes vagabundos de beira de estrada, enxovalhados por um modelo econômico exclusivista. Criou clássicos admiráveis: Ratos e Homens, Tortilla Flat, Cannery Row e a saga atormentada da família Joad em Vinhas da Ira. Em Viajando com Charley (ed. Record, 1979), Steinbeck diz:

“Quando eu era muito jovem e sentia o impulso intenso de estar em algum outro lugar, as pessoas mais velhas me garantiam que a maturidade haveria de curar tal anseio. Quando, com o passar dos anos, pude ser classificado como um homem amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Então, depois dela, afirmaram que mais alguns anos abrandariam minha febre. Agora, aos 58 anos, talvez a senilidade possa dar um jeito. O fato é que nada funcionou. Os quatro apitos roucos da chaminé de um navio ainda deixam meus cabelos arrepiados. O ruído de um jato, um motor esquentando, o som do galope de um cavalo trazem de volta o antigo estremecimento. Em outras palavras: não melhorei nada. Uma vez vagabundo, sempre vagabundo. Receio que a doença seja incurável...”

Portanto (e isso sem citar os naturalistas, caminhantes e escritores John Muir e John Burroughs, o super ídolo beat Jack London, o desertor de navios baleeiros Herman Melville, o jornalista revolucionário John Reed, o implacável assassino de animais selvagens Ernest Hemingway e centenas de outras estrelas norte-americanas com um pé ou uma gota de sangue na estrada), quando os beats arrombaram a cena literária na América, a estrada estava longe de ser uma novidade. Antes deles, porém, ela nunca fora tão importante no ato da criação artística. A não ser talvez, no Japão dos séculos XVI e XVII.

A estrada mística

Luas e sóis são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e que vão são viajantes também. Aqueles que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre em viagem, e seu lar é lá onde essas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos morreram pelos caminhos e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou idéias contínuas de meter o pé na estrada (...) Os espíritos do caminho me fizeram inúmeros sinais, e eu descobri que não podia continuar trabalhando e tinha que partir.

Matsuó Basho (1644-1694) foi o mais célebre dos poetas andarilhos do Japão, e autor do hai-ku inigualável sobre a rã que salta numa antiga cisterna, quebrando o silêncio e provocando uma profunda ressonância. Neste trecho de Sendas de Oku, o mais famoso de seus relatos de viagem, traduzido por Paulo Leminski (publicado pela Brasiliense numa biografia de Basho feita para a coleção Encanto Radical), o venerável poeta fala nos “homens de antigamente”, também estradeiros em busca de um satori (o súbito despertar), como ele próprio.

Essa frase já é suficiente para comprovar que a estrada mística seguida por Gary Snyder, o budista beat da poesia americana, não chega a ser propriamente uma novidade. Por outro lado, poucas vidas beats são tão inovadoras e límpidas como a de Snyder, poucas estradas tão luminosas e repletas de visões, revelações e espíritos mágicos. Ecologista, profundo conhecedor da ecologia tribal dos índios da América, lunático zen, Snyder traçou uma longa e serena trajetória pelas rotas de seu vasto país. Jamais ficou à margem de freeways vorazes onde roncam os motores todos da América: seu caminho foi trilhado entre as florestas do Noroeste, pelas montanhas ao redor de San Francisco (“velhas rotas percorridas por Jack London, há meio século”) nos vales soberbos de rios cristalinos fluindo murmurantes entre rochas recobertas de musgos e liquens e, por duas vezes, esse caminho levou-o ao Japão para o treinamento formal zen. Ao contrário das descrições kerouakianas das periferias da América industrial, os poemas de Snyder transmitem outra vibração:

Terminamos de abrir a última parte da trilha lá pelo meio dia
Lá em cima, no topo do espinhaço
Seiscentos metros acima da enseada
Alcançamos a passagem, e seguimos
Além do bosque de pinheirais brancos,
No ar puro e fresco,
Comemos truta fria e frita
Sob sombras cintilantes
Uma região de gamos gordos
E eles vieram até o nosso acampamento
Na sua própria trilha
Eu segui a minha até aqui
Dez mil anos.

Depois de ter seguido uma estrada bastante semelhante à de Kerouac (provavelmente por influência de seu amante fortuito Neal Cassady), Allen Ginsberg teve o que chamou de “iluminação auditiva de Blake”. Deu então uma guinada em direção a essa estrada mística de Snyder e ela o levaria a fazer uma viagem de dezoito meses pela Índia e países do Oriente bem como aproximar-se bastante do zen-budismo. Em busca da iluminação, porém, o maior poeta beat não se limitou a seguir apenas esse caminho.

A estrada da droga

Na verdade, Allen Ginsberg figura entre os beats mais estradeiros. Sua vida e obra estão repletas de poemas, trechos & visões da estrada. O antológico Long Poem of these States, por exemplo, foi escrito segundo o próprio poeta “num fluxo onírico autoconsciente de carros ônibus aviões, pelas estradas destes Estados”. Seus diários narram também passagens por quase todos os países do mundo. E antes da fama, Ginsberg costumava pegar muitas caronas pela América.

Viajar com a cabeça feita sempre foi uma de suas predileções. Por isso, sempre curtiu as drogas da estrada: haxixe no Marrocos, ópio na Índia, peiote e cogumelos no México, maconha em qualquer lugar, yage no Peru, ácido na Grã-Bretanha e daí pra fora.

Seguindo os passos do mais drogado de todos os beats, William Burroughs, Ginsberg esteve no Peru em 1963 em busca do yage, o poderoso cipó alucinógeno dos índios do alto Amazonas. A correspondência alucinada que os dois mantiveram foi publicada pela L&PM na coleção Alma Beat. Ela mostra os sacrifícios que Burroughs era capaz de fazer pela sensação de experimentar um novo barato. Na sua alma – beat, sem dúvida – Burroughs não é exatamente o que se pode chamar de estradeiro. Mas em busca das droga (com preço barato e qualidade acima de suspeitas) e de sexo (homossexual), passou boa parte de seus jovens anos girando pelo planeta: fixou residência no México e no Marrocos onde obtinha ambos com facilidade. Seus livros, porém falam muito mais em suas estações no inferno do que dos caminhos que percorria para penetrar nelas...


*


Esse texto é um excerto da obra Alma Beat, capítulo 5, "Beats e a estrada", de autoria de Eduardo Bueno. Publicado em 1984 pela L&PM, infelizmente encontra-se fora de catálogo.

2 comentários :

  1. Oi César, meu cérebro teve um espasmo com esta matéria, mas isso não foi ruim. Texto único, informativo, nostálgico e inspirador. Amei, parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Que bom que vc gostou, eu também adorei esse texto. Parabéns ao Eduardo Bueno, um grande expert da beat generation...
    bacio, césare

    ResponderExcluir