quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 2

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Em 1978, tive a sorte de fazer uma viagem de carona de Nova York a San Francisco (depois, é claro, de ter lido On the Road nos bancos amarelos ensolarados de um parque no outono azul de Porto Alegre). A grandiosidade da prosa de Kerouac me envolveu como se tudo fosse um filme em três – ou mais – dimensões. Era tudo tão igual, tão real. Os arredores cinzentos desolados sob a névoa poluída na periferia de Nova York, prédios meio avermelhados de tijolos à vista com escadas de incêndio, troleibus rangendo na manhã desesperançada, o “insólito vazio fosforescente do túnel Lincoln” e o livro ali, no bolso do meu casaco militar (“I touch your book and feel absurd”). Lembram de Ginsberg, comprando imagens, seguindo Walt Whitman entre carnes no frigorífico, delícias congeladas, frutas de néon e bebês nos abacates? Pois era mais ou menos assim...

Depois de “meses delirando em cima dos mapas”, Jack concluiu que o melhor seria seguir por uma única estrada até Frisco. E se deu extremamente mal, como a absoluta maioria das pessoas que cai na estrada pela primeiríssima vez (oh, aquele trevo na saída de Florianópolis, oito horas de espera, a noite úmida, a chuva fina). Mas depois foi tudo uma interminável sucessão de imensos e loucos caminhões com motores potentes roncando dentro da noite americana, caixeiros viajantes com seus Fords e suas opiniões absurdas e conversas chatas (“um dos maiores tormentos de se viajar de carona é ter que falar com incontáveis pessoas, distraí-las, até que elas se convençam que não cometeram um erro ao ter te apanhado”), cowboys motorizados reacionários, sujeitos muito loucos em caminhonetes caindo aos pedaços com o painel coberto de mapas e barras de chocolate meio derretidas, loiras num cupê (com idade suficiente para serem sua mãe), tortas de maçã em bares de beira de estrada cheios de moscas com lento ventilador de hélice, ônibus Greyhound velozes ondulantes passando como num sonho em direção a cidade na qual você daria tudo para chegar.

E trechos como: “A maior carona da minha vida estava prestes a surgir, um caminhão com uma plataforma atrás, o motorista vinha recolhendo toda e qualquer alma solitária que encontrasse por aquela estrada”. (Stop. Rewind. Remind: A periferia de Istambul – algo como Nova Iguaçu com minaretes, Osasco com mesquitas ou Cachoeirinha repleta de bazares turcos – chuva fina, dia gris – vento soprando na manta hindu lilás – cabelos úmidos, gola de casaco levantada junto ao pescoço – parado em frente a uma vulcanizadora, à beira de uma estrada estreita e esburacada, com o acostamento de terra sujo com graxa e cascas de frutas estranhas – um livro de Thoreau num bolso, uma harmônica noutro – de repente, o imenso caminhão verde escuro range os pneus e pára aos solavancos a uns cem metros de distância – corrida descabelada, mochila com 33 quilos, vermelha, às costas, uns quinze livros dentro – pé no estribo do caminhão; motorista loiro, barbudo, jovem sorridente, mãos enormes, pulsos grossos, costas largas, camiseta de física com botão anti-nuclear, cabeça feita – oh, man, demais: ‘Pra onde você tá indo?’ “Pra Basel, Suíça, mas só te levo até a fronteira com a Iugoslávia.” “Legal, vamo nessa!” E lá fomos nós, e o caminhão, pra completar, tinha um gravador, e fitas de Miles Davis e Doors – cruzando lentamente a Turquia e seus campos de papoula, as ruínas de Tróia – entrando na Grécia e todos nós conversando sobre John Huston e Wim Wenders, e Plotino e Diógenes, o cínico – conquistei claro, a carona até onde queria ir, Veneza – a três mil e oitocentos quilômetros da periferia funesta de Istambul – cruzando as montanhas litorâneas recobertas de neve da Iugoslávia (era novembro) – avançando dia e noite – comendo em bares de caminhoneiros que vinham do Iraque – oh, a maior, mais vibrante e inesquecível carona da minha vida, com um americano chamado Michael, um australiano (Bill?), eu e Ron, motrorista suíço que recolhia toda e qualquer alma solitária naquela estrada desamparada.”

Bem, antes que seja tarde demais: claro que importante mesmo foi o que a estrada significou dentro da ruptura que os beats provocaram no panorama até então europeizado da literatura americana; os críticos (mesmo aqueles que desde o início perceberam a importância do grupo na inovação da linguagem literária deste lado do planeta) sempre consideraram que aquilo que realmente valeu no trabalho dos beats foi a forma “espontânea”, o estilo novo com que eles descreveram sua “omnívora percepção dos fenômenos” nas ocasiões em que eram tomados por aquilo que Ferlinghetti chamou de “Febre da Observação” (e isso geralmente acontecia, não por acaso, quando eles estavam justamente na estrada). Mas a estrada como coisa em si, o ato de estar ou cair na estrada sempre foi visto como um fenômeno menor por aqueles que gostam de desvendar um pouco dos aspectos literários do riquíssimo universo beat. Pois bem, o que eu estou a fim de fazer neste texto um tanto desarticulado é justamente o oposto: uma Ode à estrada Aberta, um cântico àquela permanência às vezes absurdamente longa nos acostamentos do asfalto; um elogio à vagabundagem à beira dos caminhos. Algo, aliás, que possui raízes bastante profundas na tradição de rebeldia norte-americana.

Antes de cavoucar nessas raízes históricas, porém, quero terminar o papo sobre Kerouac e sua estrada. E, infelizmente, a conversa acaba de jeito melancólico (como o final de On the Road e de sua própria vida). A última grande viagem de Jack pela América foi no verão de1960, para encontrar-se com Lawrence Ferlinghetti em San Francisco e tratar da publicação do seu Book of Dreams. Em Chicago, apanhou o Califórnia Zephyr, um trem expresso, comprando uma cabine só para si, com sanduíches e café preparados por sua mãe Gabrielle, a Memére. Já bastante abatido pelo álcool, com úlcera estomacal, diarréia e problemas circulatórios, Kerouac não saiu da cabine por três dias e noites. Imaginava como ficariam surpresos os garotos que agora liam On the Road ou Dharma Bums se vissem o quão confortavelmente ele viajava. “Eles devem pensar que eu tenho eternos 26 anos, mantenho o rosto voltado para o vento e para a chuva, sempre escalando montanhas ou pedindo carona à beira de estradas. Sequer imaginam que tenho quase 40, moro com minha mãe e estou à beira de um colapso físico e mental”, escreveu em Big Sur, um relato amargurado.

E já essa primeira parte é dedicada à “estrada dos loucos”, não dá pra deixar de falar em Neal Cassady. Filho de “um dos bêbados mais trôpegos da Larimer Street” de Denver, Neal passou a infância em becos imundos, esmolando na esquina das grandes avenidas e entregando a grana para o pai, que jazia atirado entre garrafas estilhaçadas, cobertores em farrapos em ruas estreitas sem saída na parte baixa do centro de Denver. Aos seis anos, depôs num tribunal para livrar o velho do xadrez. Segundo Kerouac, Neal era “o cara perfeito para a estrada, já que nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City, 1926, num calhambeque caindo aos pedaços.”.

Em 1943, depois de fugir de vários reformatórios, essa “nova espécie de Santo Americano”, fez sua primeira grande viagem. E nas páginas de On the Road ele conta tudo: “Eu trabalhava na lavanderia Nova era, em Los Angeles, aí falsifiquei meus papéis e fui até o autódromo de Indiana, que ficava a uns três mil quilômetros, com a determinação expressa de assistir a clássica corrida de Memorial Day, pedindo carona de dia e roubando carros à noite pra ganhar tempo.” E depois: “No outono seguinte, aos 17 anos, refiz o mesmo percurso para assistir o jogo entre Notre Dame e Califórnia em South Bend, Indiana – e tinha apenas a grana para a entrada, nem um centavo a mais, e não comi absolutamente nada na ida e na volta, a não ser o pouco que consegui mendigar de todos os tipos malucos com os quais ia cruzando pela estrada, e das putas também. Fui o único sujeito em todos os Estados Unidos da América que se sujeitou a tamanhas dificuldades somente para assistir um jogo de baseball.”

Mais tarde, Neal pôde percorrer com mais conforto (mas não menos demência) as estradas da América: conseguiu comprar alguns carros, como o lendário e flamante Hudson 49 de uma das viagens de On the Road, ou o Cadillac que ele e Jack deveriam levar de Denver a Chicago (e realmente levaram, só que o reduziram a escombros – “mais parecia uma bota enlatada do que uma limousine flamejante; pagara o preço da noite), ou o velho Ford modelo 1937 com as portas amarradas por uma corda, no qual ambos viajaram para o México na primavera de 1950.

Maior motorista de todos os tempos (“Cody, como qualquer outro motorista que dirigia por aquelas estradas cheias de buracos e tremendamente perigosas, apoiava o cotovelo na janela e, mais do que ninguém dava a impressão de sentir-se particularmente calmo, tranqüilo e à vontade atrás do volante, com seu pescoço grosso, musculoso, erguido e eficiente – como são os pescoços dos grandes motoristas de ônibus – e era assim que eu o via enquanto olhava por cima de seu ombro para a estrada que à noite mostra apenas uma pequena parte de si mesma”, escreveu Kerouac no sublime Visions of Cody sendo que Cody Pomeroy,claro, é Neal Cassady e o livro, a obra suprema da prosa “espontânea” de Jack), Neal continuou na estrada mesmo depois que Kerouac careteou de vez.

Tornou-se chofer do ônibus mais alucinado de todos os tempos: o ônibus pintado com a bandeira dos Estados Unidos no qual viajavam o escritor Ken (Um estranho no ninho) Kensey e seus Merry Pranksters, além do conjunto Greatful Dead, dando concertos gratuitos e promovendo coloridíssimos happeanings, nos quais aproveitavam para distribuir ácido para todos os participantes, graciosamente.

No dia 4 de fevereiro de 1968, pouco antes de completar 42 anos, Neal Cassady foi encontrado estendido à beira dos trilhos de trem, no deserto mexicano. Misturara (propositadamente?) uma dose descomunal de álcool e anfetaminas. Quando o encontraram, “era puro espírito já.” Foi uma morte bastante diferente daquela que, setenta e seis anos antes levara o maior poeta da América.

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