segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O céu que nos protege, by Paul Bowles (1910-1999)

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Paul Bowles foi um escritor incrível. Em 1949, há exatamente 60 anos, publicava seu primeiro romance, O céu que nos protege (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990. Para muitos, não é apenas o primeiro romance de um grande escritor, mas o primeiro e melhor romance por ele escrito, o que não desqualifica qualquer obra publicada posterior a ela, já que Bowles sempre manejou muito bem a escrita.

Descobri Bowles através do filme de Bertolucci; gostei tanto da filmagem que saí do cinema e comprei o livro e o álbum com a trilha sonora original de Ryuichi Sakamoto (quem também compôs as trilhas para o Pequeno Buda e o Último Imperador) que é uma viagem à parte, altamente recomendada.

O céu que nos protege tem muito da vida de Paul Bowles e sua mulher, Jane. Nascido em 1910, em Nova Iorque, Bowles começou sua carreira literária escrevendo poemas, mas numa viagem a Paris, hospedado na casa de Gertrude Stein (1874-1946) e de sua companheira Alice Toklas, foi totalmente desestimulado pela escritora a continuar com seus poemas, simplesmente porque, para ela, o que ele escrevia não era poesia. Foi Stein quem incitou Bowles a trocar uma viagem pelo litoral francês por uma estadia em Tânger, no Marrocos, cidade que ficaria para sempre associada à obra e à vida do escritor.


Bowles sempre viajou muito, numa época em que viajar era um acontecimento de grandes proporções na vida de quem o fazia, com muitos dias gastos em navios, trens e outros meios de transporte mais precários ou menos glamourosos. Evidentemente, as estadias eram longas e além de ter que contar com um saldo bancário considerável, muitos eram os que se valiam dos laços de amizade para serem bem recebidos ao mesmo tempo em que eram apresentados à sociedade local.

Toda essa dinâmica de relações pessoais construídas ao longo de inúmeras viagens parece ter dado a Bowles a faculdade de desenvolver personagens que o leitor sente terem sido inspiradas em pessoas com as quais o autor realmente conheceu ou conviveu por algum período. Tudo parece muito real, talvez plausível seja o termo adequado, e como nem sempre a realidade é algo agradável, a leitura de Bowles às vezes incomoda, pela crueza com que o escritor mostra a conduta humana em certas ocasiões, o que não deixa de ser uma experiência interessantíssima.

Voltando às viagens, numa passagem de sua autobiografia, Bowles escreve sobre a primeira vez em que viajou ao Marrocos, depois da estadia em casa de Gertrude Stein:

“Quando embarcamos no Iméréthie II, disseram-nos que haveria alteração no itinerário. O navio não atracaria em Tânger, e sim em Ceuta, no Marrocos espanhol. Na madrugada do segundo dia subi ao convés e vi à minha frente a silhueta denteada das montanhas da Argélia. Senti de imediato uma grande empolgação; fiquei muito empolgado; era como se ver a terra próxima tivesse acionado algum mecanismo dentro de mim. Sem nunca formular o conceito, eu havia baseado minha sensação de estar no mundo parcialmente numa convicção absurda de que determinadas regiões da superfície terrestre possuíam mais magia que outras. Se alguém me perguntasse o que queria dizer com magia, provavelmente eu definiria o termo como uma relação secreta entre o mundo da natureza e a consciência do homem, uma passagem oculta porém direta que ignora a mente. (Aqui a palavra-chave é “direta”, porque neste caso equivale a “visceral”.) Como qualquer romântico, sempre tive uma vaga certeza de que em algum momento da minha vida entraria num lugar mágico que, revelando-me seus segredos, me daria a sabedoria e o êxtase – talvez até a morte. E agora, parado no vento, olhando para as montanhas à minha frente, sentia o movimento do motor dentro de mim, e era como se me aproximasse da solução de um problema que ainda não fora colocado. Eu estava incrivelmente feliz, olhando a muralha de montanhas que pouco a pouco ganhavam corpo, mas deixei a felicidade me invadir e não fiz mais perguntas.”

Paul Bowles foi tão enfeitiçado pela magia daquele lugar que viveu em Tânger por mais de cinquenta anos até o último dia de sua vida. Sobre o fato de ter se estabelecido nessa cidade, lemos o seguinte em sua autobiografia:

“Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.”

Além de escrever, Paul Bowles compunha, chegando a ser um compositor com certo prestígio dentro da música erudita, tanto que uma de suas peças, “The wind remains the same” foi dirigida por Leonard Bernstein e outras entraram em peças de teatro e cinema, associadas a nomes de peso como Orson Welles, Elia Kazan e Tennessee Williams.

Bowles em algum momento de sua autobiografia afirma que sua felicidade era proporcional à distância que o separava dos Estados Unidos; seu lar e sua paixão foram para sempre o Marrocos e, por extensão, o deserto, pois “lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio”, palavras suas que encontram ecos num romance de Cees Nooteboom sobre suas andanças pela Espanha, quando afirma que se sentiu atraído pelas mesetas espanholas (grandes planícies desertas) porque seu interior, de alguma forma, se parecia com elas.


O deserto, sempre o deserto. Poucas metáforas são tão poderosas como esta na literatura mundial. Além do mais, em diversos sistemas religiosos o deserto serve de cenário para momentos cruciais de algum acontecimento revelador; são muitas as vezes que para lá se dirigem aqueles que anseiam desesperadamente por uma resposta, um sinal ou uma revelação – dentro de um contexto mais místico.

O deserto, dentro de suas inumeráveis interpretações simbólicas, também significa o lugar onde o ser humano se afasta de Deus; basta lembrarmos das tentações e dos demônios habitantes do deserto, imagem forte na tradição judaico-cristã, para entendermos com mais clareza essa questão da ausência divina. Entretanto, não nos apressemos: pois aquele que conseguir passar pelas tentações e ataques de ordem inferior, terá conquistado a sua salvação, única e exclusivamente através da graça divina, um paradoxo simples de entender: não podendo contar com nada e com ninguém, só Deus é capaz de salvar o homem. E é claro que, novamente, isso também deve ser entendido de forma metafórica: o deserto simboliza o homem interiorizado, estado que se pode atingir de várias maneiras, seja vivendo em comunidade (religiosa ou não), isolado numa floresta, ou mesmo praticando algum tipo de meditação, o suficiente para permitir alguns momentos de isolamento das coisas mundanas.

E o deserto será a chave de interpretação de toda a narrativa de O céu que nos protege. A história é a seguinte: um casal, Port e Kit (alter-egos de Bowles e sua esposa, Jane) partem dos EUA nos anos 40 do pós-guerra, em direção ao Norte da África numa travessia de navio, acompanhados do amigo Tunner. Não há data marcada para o retorno, um fato curioso e revelador: Port não se considera um turista, mas um viajante. A diferença entre ambos é explicada logo no início da narrativa:

“Mesmo durante os curtos períodos de imobilidade na sua vida em comum, realmente raros desde o casamento há doze anos, bastava-lhe ver um mapa, para começar a estudá-lo apaixonadamente. Com grande probabilidade de vir a planejar, em seguida, alguma viagem impossível que às vezes se tornava, de fato, real. Ele não se considerava um turista: era um viajante. A diferença devia-se, em parte, à utilização do tempo, explicaria ele. Enquanto o turista volta correndo para casa depois de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a lugar nenhum, viaja lentamente, durante anos e anos, de uma a outra parte da Terra. (...) Outra importante diferença entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita sua cultura sem questioná-la, o que não é o caso do viajante, que a compara com as outras, rejeitando os elementos que não lhe agradam.”

Os três viajantes não possuem, aparentemente, um roteiro pré-definido, e a impressão que se tem é que a viagem pelo Saara será feita de acordo com as circunstâncias tanto dos viajantes quanto dos serviços demorados e incertos de uma sociedade ainda muito atrasada, e por isso mesmo muito encantadora, sobretudo aos olhos de Port; Kit parece deixar-se levar pelas decisões do marido, o que mais tarde terá conseqüências transformadoras em sua vida, e Tunner aparece como um viajante burguês que não esconde uma forte atração pela mulher do amigo, com quem chegará a ter uma noite de amor embalada por garrafas de champanhe, aproveitando uma breve ausência de Port.

Port e Kit demonstram viver uma relação bastante moderna para a época (anos 40) o que de fato aconteceu com Paul e Jane Bowles (e foi a ela quem o autor dedicou esse seu primeiro romance) que, é sabido, viviam juntos e mantinham seus casos extra-conjugais, incluindo parceiros do mesmo sexo. Em O Céu que nos protege a trama toda gira em torno da relação homem-mulher; Port e Kit levam um casamento de dez anos que já demonstra desgaste, embora ambos pareçam não querer assumir essa realidade, de modo que a viagem, a princípio, pode servir de pretexto para uma fuga dos problemas conjugais. Logo irão perceber que a presença de Tunner foi um erro, e quando surge uma oportunidade conseguem se separar do amigo, o que acabará tendo uma conseqüência nefasta: logo depois Port contrai a febre tifóide e cai gravemente doente num local inóspito no meio do deserto. Caberá a Kit cuidar do marido sob condições das mais precárias até a sua inevitável morte.

É a partir desse fato que a história toma outro rumo: a sobrevivência de Kit. Mas não se trata apenas da sobrevivência física: a morte do companheiro leva junto a própria noção de individualidade de Kit; o grande terror de Port, quando percebeu que não sobreviveria à doença, foi descobrir que o grande erro cometido por ele e por Kit foi que ela viveu toda a sua vida em função da dele. E quando Port finalmente se vai, Kit praticamente enlouquece, porque parte de sua essência estava associada a Port de tal modo que sequer conseguiria visualizar sua existência a partir daquele momento. Num sentido figurado, sem Port sua vida era tão vazia quanto o deserto que a cercava.

“Nem lhe ocorrera, agora, que certa vez imaginara que se Port morresse antes dela, não acreditaria que ele estivesse realmente morto, mas sim que houvesse retornado de algum modo para dentro de si mesmo para ali permanecer e que ele nunca mais teria consciência dela; de modo que, na realidade, teria sido ela a deixar de existir, pelo menos em grande parte. Seria ela a entrar um pouco no reino da morte, enquanto ele prosseguiria, uma angústia dentro dela, uma porta fechada, uma oportunidade irreparavelmente perdida.”

O título da obra tem um sentido bastante profundo dentro da narrativa, e parte de sua compreensão aparece num breve diálogo (e numa linda cena do filme), num momento em que o casal saiu para um passeio de bicicleta a fim de contemplar um maravilhoso pôr do sol no Saara:

“- Sabe – disse Port, e sua voz soava irreal, como acontece com as vozes após um longo silêncio em lugares totalmente isolados -, o céu aqui é muito estranho. Quando olho para ele tenho a sensação de que é sólido lá em cima, protegendo-nos do que está atrás.
Kit estremeceu um pouco ao dizer:
- Do que está atrás?
- Sim.
- Mas o que está atrás? – Sua voz estava muito fraca.
- Nada, acho eu. Só a escuridão. A noite absoluta.”

O que ele quis dizer com a noite absoluta? A morte, provavelmente, porque em certos momentos da história, vemos Kit apavorada com essa ideia, como se pressentisse que algo ruim e triste estivesse para acontecer. Não cometerei o erro de comentar o final dessa história forte, densa, que convida-nos a refletir sobre o papel que desempenhamos em nossas vidas e em nossos relacionamentos íntimos. Mas acho que muitas mulheres irão se surpreender com o desenrolar da trama após a morte de Port, que terá Kit como a principal protagonista do romance.

É preciso dizer que Paul Bowles escreve incrivelmente bem, de modo que seu domínio da escrita dá um peso, um brilho maior à história por ele narrada. Durante a leitura de O céu que nos protege você se sentirá tão ambientado no deserto que em alguns momentos sentirse-á participando de toda a viagem, como se Bowles lhe induzisse, com a sua arte, a sentir não só as angústias dos personagens, mas as mesmas sensações físicas destas: o calor do Saara, o cheiro de suas paragens, a brisa fria da noite estrelada em companhia dos beduínos, o aroma de um chá de hortelã ou de um cigarro de haxixe, o sabor do pão seco numa boca sem saliva... em suma, uma leitura extremamente prazerosa.

Para terminar, escolhi a passagem que mais me tocou nessa obra fascinante; no livro, ela aparece no momento em que Kit se encontra ao lado do corpo sem vida do marido (no filme, foi escolhida para fechar a história). É linda e começa assim:

“A morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites.”

Leia: O céu que nos protege, de Paul Bowles. Lançado em 1990 pela Rocco com tradução de Roberto Grey, a obra foi reeditada em 2009 pela Editora Alfagura. Outros títulos do autor publicados no país: Tantos caminhos- autobiografia (Martins Fontes, 1994); Bem acima do mundo (Nova Fronteira, 1976); Chá nas montanhas (Rocco, 1994); Um amigo do mundo (Rocco, 1995); Que venha a tempestade (Rocco, 1997).

Assista: O céu que nos protege. (The Sheltering Sky) Direção de Bernardo Bertolucci, trilha sonora de Ryuichi Sakamoto. Não deixe de reparar: o próprio Paul Bowles aparece na cena final do filme (sua fisionomia é a mesma da foto postada neste blog)

3 comentários :

  1. Oi César, fiquei tão interessada nesta leitura que reservei o livro na biblioteca. Vc foi sacana! Sabia que eu não resistiria ao comentário das mulheres se surpreenderem com o desenrolar da trama, não é? Beijocas

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  2. É isso mesmo, como se não te conhecesse, né?
    Vais adorar o livro, boa leitura!
    bacio,
    pcésar

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