domingo, 29 de novembro de 2009

A longa viagem de prazer, by Juan José Morosoli

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Você já comprou algum livro ou cd apenas por ter gostado da capa, do encarte, ou do título da obra? Às vezes eu faço isso, até mesmo pelo prazer da surpresa e nem sempre me arrependo. Na minha coleção de cds, por exemplo, uns trinta por cento foram adquiridos “no escuro”, quase sempre, admito, títulos oferecidos em bancas promocionais, do tipo qualquer coisa por nove e noventa. Acho isso um jogo divertido, pena o bolso não permitir lances mais altos.

Estava caminhando pela Paulista e numa banca de jornal, num daqueles totens que vendem livros de bolso, um pequeno exemplar me fez parar abruptamente em frente à banca: na capa, uma foto meio apagada de um campo de cereais, um céu nublado de um azul claro acinzentado e ao fundo, na linha do horizonte, um pequeno agrupamento de árvores e nada mais do que isso. Em letras grandes e negras, o título: A longa viagem de prazer. O preço de uma revista. Comprei na hora.

Juan José Morosoli, o autor dessa pequena coletânea de contos nasceu no pueblo de Minas, no Uruguai em 1899 e faleceu em 1957. Publicou uma dezena de obras, entre poemas e peças de teatro e pouca coisa há sobre ele na internet, mas o pouco que se consegue saber faz com que tenhamos a curiosidade de conhecer melhor o seu trabalho.

Morosoli foi um especialista no gênero denominado conto curto e sua principal preocupação foi a de retratar os seres anônimos marginais que viviam nos pueblos uruguaios, seres viventes, como ele os denominou, os quais enxergava, em suas humildes condições, uma “grandeza elementar”. Em suma, Morosoli foi um escritor social que se empenhou em sua arte a dar uma identidade àqueles que, afastados da vida moderna, eram ignorados pelo resto da sociedade, uma condição que nós brasileiros também conhecemos muito bem. “Não sou um literato – do qual Deus me livre e guarde – senão simplesmente alguém que põe no papel um pouco do drama de cada homem humilde”, escreveu Morosoli.

Pelo que se percebe, Juan José Morosoli assumiu o compromisso, na sua escrita, de ser uma espécie de porta-voz dos humildes (ou um revelador, como nota Pablo Rocca no posfácio da obra), cabendo-lhe a função de acompanhar, em seus processos mentais, aqueles que são incapazes de mostrar por si mesmos as dimensões de seu espírito; observador minucioso, legou ao mundo a geografia física e humana de sua terra. E como poucos, conseguiu tratar de questões profundas como a solidão e a morte sem o apelo fácil das emoções baratas e superficiais, provavelmente porque ao escrever sobre elas, sentiu um pouco da dor que sentem aqueles que estão fadados a uma existência anônima e solitária.

Fazendo jus ao lema do Odepórica, escolhi dessa vez um relato de viagem imaginário, onde você poderá ler um dos contos mais bonitos dentre os nove que compõem essa coletânea. Não foi o que mais me comoveu, apesar de ter-me encantado com sua narrativa singela, com seu leve humor e melancolia, num equilíbrio emocional que nos cativa de primeira. Se pudesse, teria elegido aquele que, até o momento, foi o conto mais triste que já li na vida e que se chama Solidão. Como será que pode haver tanta beleza na tristeza?

Mas como nosso escopo aqui é falar de viagem, então nada melhor do que um conto que trate especificamente deste tema. E esse conto, por acaso, é o que dá título à coletânea: A longa viagem de prazer. Buen viaje.

A longa viagem de prazer
Si usted quiere ser un escritor, tiene que andar.


Tertuliano ia dar partida no caminhão quando Aniceto chegou.
- Venho te cumprimentar – disse – e desejar que o desfrutes com saúde.
Tertuliano agradeceu os bons votos do amigo e contou, pela centésima vez, como se tornara proprietário do caminhão.
- Era o último número da rifa. O Índio insistindo e eu dizendo que não. Aí chegou o Bruno. Ele me devia um peso, que eu tinha dado por morto há muito tempo. O Índio ficou com o dinheiro e apontou meu nome. E não é que deu? A sorte é fogo. Quando ela quer, sempre dá um jeito.
- Sorte e morte escolhem seu consorte – sentenciou Aniceto.
E ali estava Tertuliano com seu caminhão. Fazia tempo que desejava ter um. Era um desses sonhos que as pessoas vão acalentando para justificar o dia a dia. E um sonho que se torna realidade é uma coisa muito linda.
Aniceto caminhava ao redor do veículo, olhando-o com curiosidade.
- Estou examinando em detalhes – comentou. – Acho que está precisando de uma boa pintura.
Sim, Tertuliano já notara e concordou:
- Está mesmo. Vai levar duas demãos de colorado e uma bandeira em cada lado.
Já o via pintado, rodando velozmente pela estrada.
- Já pensaste? Esse louco pintadinho, andando por aí?
Aniceto fez um esforço e também o viu em sua imaginação.
- A questão – disse – é que não ponhas esse louco a correr, podes acabar de cabeça para baixo.
- Sou dos que acreditam – respondeu seriamente Tertuliano – que o melhor é uma marcha regular. Nem caracol nem andorinha. Sempre fui partidário da moderação, e se algum dia tiver uma empresa, motorista que correr eu boto na rua.
- É um favor que lhe fazes, ele é capaz de se matar.
Calaram-se um minuto, fizeram cigarros e logo Aniceto perguntou:
- Quantos caminhões são uma empresa?
- Se a empresa é pequena, talvez três. Se é grande, qualquer quantidade.
- Era o que eu pensava – disse Aniceto.
Seguiram conversando e Tertuliano revelou que pretendia fazer uma longa viagem, de puro prazer, para conhecer o mundo e nada mais.
- Uma longa viagem?
- Sim, talvez até Rocha.
- Rocha é longe?
- Acho que sim, pois é lá que nasce o sol (*) . E o sol tem que nascer longíssimo... Esta é a informação que posso te dar.
Aniceto calou-se um instante e depois perguntou humildemente:
- Não te conviria levar um ajudante?
Tertuliano considerou que um proprietário de caminhão se rebaixaria um pouco se ele mesmo tivesse de lavar o veículo, trocar a água do radiador e juntar lenha para o assado, e respondeu:
- Pode ser que te leve.
*
O caminhão, um Chevrolet 1929, não estava bem de pintura – já o sabia Tertuliano -, mas estava pior de luz. Um dos faróis fora fabricado com uma lata de óleo, o vidro preso com arame. O outro era “aquele que o Índio sempre ia botar e não botou”. Os pneus estavam gastos, com as lonas à mostra. Mas o principal, o motor, funcionava cada vez melhor, “porque os motores de antigamente são melhores que os de hoje”.
- De longe – confirmou Aniceto.
Tertuliano pintou seu caminhão de colorado, com bandeira nos costados. Pintou-as ele mesmo. Quando o caminhão estava parado, pareciam muito malpintadas, mas em movimento eram bonitas. E além disso muito estranhas.
- De que país são – tinha perguntado Aniceto.
Displicentemente, Tertuliano respondera: -
- Não sei se haverá algum país com essas bandeiras.
Também comprou um farol enorme, com um aro de bronze largo, de quatro dedos – um farol francês, disseram -, e o instalou bem no meio do radiador.
Com essas melhoras, o caminhão ficou pronto.

*
Aquela foi, talvez, a mais bela madrugada do mundo. Chegaram no mercado, compraram pão, carne para assar, e partiram muito antes do nascer do sol.
Tinham rodado mais de hora quando Tertuliano anunciou:
- Vou parar.
- Estamos indo como anda o figurino – disse Aniceto.
- Nunca entendi essa gente que anda ligeiro – disse Tertuliano. – O bom é ir devagar, descer, fumar um cigarro e ver o que ficou para trás.
- O que ficou para trás?
- Claro, pois quem está dirigindo só vê o que está na frente. O negócio é ver tudo, e um dia te surpreendes contando pros amigos tudo aquilo que viste.
Ergueu a cabeça para ver mais longe e respirou fundo.
- Que ar! É porque vem desta quantidade de campo.
- Muito campo e nenhuma alma - disse Aniceto.
Tertuliano estava – como era lógico, pois era dono do caminhão – muito acima da ignorância do companheiro. Considerou necessário ilustra-lo sem diminuí-lo e o tratou de “você”.
- Veja bem, Aniceto, a população aí existe, você pode acreditar. Está longe, mas está aí.
Aniceto olhou para a estrada e perguntou:
- Rocha está longe?
Tertuliano sorriu piedosamente.
- Longe quer dizer longe. E perto, perto. São duas coisas diferentes. Perto quer dizer uma bobagem... e longe – pensou um pouco – quer dizer um mistério.
E para esclarecer melhor, perguntou:
- Você sabe o que é um mistério?
- Sim – disse o outro -, um mistério é uma coisa estranha... uma coisa misteriosa...
- É isso aí.
E continuaram fumando, enquanto a paisagem ia-se tornando nítida à medida que o sol subia. E foi para o sol, precisamente, que Tertuliano falou:
- Dentro de dois ou três dias vamos te ver nascer, tigre velho.

*
Chegaram na cidade. Andaram por algumas ruas e pararam numa praça. Sentaram-se num banco para trocar impressões.
- Considero – disse Tertuliano – que esta é uma cidade que está progredindo, mas te confesso que nada me chamou a atenção.
- E eu só posso concordar – respondeu o outro. – O que viste foi o mesmo que eu vi.
- Antigamente – seguiu Tertuliano -, as cidades não progrediam, era o que dizia meu pai. Todas eram pequenas e as ruas um barral medonho.
- Vai ver que era porque havia muita ignorância. Não achas?
- Pode ser, sim, que tenhas razão.
Passaram a noite numa pensão barata e muito antes da aurora partiram para o Chuy, tomando a estrada que, segundo Tertuliano, terminava justamente “onde terminava o país e começava o Brasil”.
Já perto do fim do caminho encontraram um policial, certamente despertado pelo ruído do caminhão.
- Alto – gritou-lhes.
Eles não ouviram e mantiveram a marcha. O homem correu e tornou a gritar quase no rosto de Tertuliano.
- Parem ou mando bala.
Tertuliano freou o caminhão.
- Pra onde vão e o que levam aí?
- Pra cá mesmo e não trazemos nada – respondeu Tertuliano.
- E o que vêm fazer aqui?
- Ver nascer o sol.
E Aniceto, inocentemente:
- O senhor poderia nos informar onde é mesmo que ele nasce?
- Na delegacia – disse o policial. – Desçam e me sigam.
Mas, pensando que era perigoso ter dois contrabandistas às suas costas, modificou a ordem:
- Desçam e sigam na minha frente.

*
Tiveram de esperar o delegado para que revistasse o caminhão e os interrogasse. Só no meio da manhã terminou a investigação e eles foram liberados.
Na rua, consideraram a situação. Ficariam mais um dia e uma noite esperando ali, sem conhecer ninguém, sem ter com que se distrair? Justamente ali, onde tinham sido afrontados?
- Não – disse Tertuliano -, o sol que me desculpe. Por mim que ele nasça onde quiser, eu não espero.

*
Já estavam em casa. Acabavam de aquentar a água para o mate.
- Hermano – disse Aniceto -, fizemos uma linda viagem, mas vimos pouca coisa, não achas?
- Não. As viagens só começam depois que a gente volta. Te digo isso eu, que uma vez fui a Montevidéu e só voltando, quando comecei a contar pros outros, me dei conta de que aquilo que eu tinha visto era uma coisa bárbara!


(*) O Departamento de Rocha, a leste do Uruguai, tem um brasão cuja legenda é muito popular no país: Aqui nasce o sol da pátria. (N.T.)

Leia: A longa viagem de prazer (El largo viaje de placer). Juan José Morosoli. Tradução: Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2009. Se você se interessou em conhecer um pouco mais da obra e da vida de J.J. Morosoli, sugiro a leitura do texto publicado no site de literatura uruguaia de onde tirei as informações para este post:


4 comentários :

  1. César, esta foi a prosa mais engraçada que você blogou. Só não chorei de tanto rir, porque estava no trabalho e precisei me conter. Beijocas

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  2. Hola, necesito conseguir el cuento "solidao" en portugués, soy uruguayo y ya lo tengo en español, pero lo necesito en portugues ¿me puedes ajudar?

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    1. Grego, ya lo tengo conmigo, envíame tu correo electrónico, vale?

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  3. Hola, Grego! No sé si lo lograré, pero voy a buscar el cuento para ti.

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