segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O lado oculto das viagens, by C.W.Leadbeater

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Desde muito jovem, por volta dos treze ou quatorze anos, me interessei pela Teosofia, por conta de alguns livros que minha mãe andava lendo naquela época, alguns títulos de Ângela Maria La Sala Batá, um ou outro do Geoffrey Hodson e de Alice Bayley. Um dia ela me levou à livraria da Editora Pensamento, aqui no centro velho de São Paulo, ainda em funcionamento e uma das poucas livrarias especializadas em títulos espiritualistas e esotéricos- cabendo, nesse amplo panorama, obras que contemplam as tradições do ocultismo, do candomblé, da umbanda, do espiritismo, da Grande Fraternidade Branca, do Xamanismo, da Projeciologia, do Hinduísmo, do Taoísmo, do Budismo, do Zen, do Sufismo, da Cabala, da Wicca e etc etc etc. Há de tudo um pouco por entre aquelas prateleiras. Mas o que me chamou a atenção - voltando no tempo - na primeira vez em que lá estive, foram os livros de Teosofia, em particular os escritos por Helena Blavatsky, Dion Fortune, Annie Besant e, meu favorito entre eles, Charles Webster Leadbeater.

Não vou escrever sobre a história da Teosofia, cujo lema “Não existe religião superior à verdade” sempre me pareceu inspirador, o que não quer dizer, nem de longe, nem de perto, que não haja controvérsias dentro e fora desses círculos (esotéricos); a própria figura de Madame Blavatsky, só para citar a grande mestra fundadora da Sociedade Teosófica, por si só é uma gigantesca fonte de polêmicas e, digo sem medo, uma das personagens históricas do final do século XIX mais interessantes que passaram por esse planeta. Se puder, leia algo sobre a vida dela, pode ser pela internet mesmo, e você verá que não estou exagerando (como introdução indico um opúsculo escrito por Luis Pellegrini intitulado Madame Blavatsky- o caminho da solidariedade, vol. 4 da coleção Transcendência, T.A. Queiroz Edit., 1986). Quanto às obras da própria HPB, aí já são outros quinhentos, não se consegue avançar muito na leitura se você não tiver antes um certo “preparo”, mas isso não é conversa para agora.

Como esse blog trata sobretudo dos relatos de viagem e temas que tenham a ver com isso, vou apenas comentar que C.W.Leadbeater (Inglaterra, 1854-1934) foi discípulo de Helena P. Blavatsky e teve um papel fundamental dentro da Sociedade Teosófica. Produziu uma obra vasta, e seus livros são ainda hoje muito estudados por aqueles que se interessam pelo ocultismo em particular e por orientalismo de um modo geral. Muitas das fontes em que HPB e Leadbeater beberam provém de antigos textos sagrados do Oriente, privilegiando, de modo geral, o hinduísmo e o budismo tibetano, mas também abrindo espaço para diversas outras tradições religiosas.

Dizem que Leadbeater conquistou com o tempo uma clarividência fenomenal, e muito daquilo que ele escreveu é resultado de tudo o que conseguiu ver através desse dom paranormal. Sim, eu sei que para os céticos isso não passa de crendice - para ser academicamente polido - por isso não me prolongarei. Essa introdução eu fiz apenas para situar o leitor e a leitora no contexto em que a passagem que vou postar aqui foi escrita. É um pequeno excerto da interessante obra “O lado oculto das coisas” (publicado em 1913), dividida em 25 capítulos, em seções intituladas “Como nós somos influenciados”. Aqui, portanto, vamos ficar sabendo como somos influenciados pelas viagens que fazemos, na ótica de C. W. Leadbeater. É diferente de tudo o que já vimos aqui no Odepórica, por isso achei que merecia a postagem. Para ler com a mente aberta, ok? Experimente.

As viagens

A extensão da influência das pessoas que nos cercam somente a percebemos quando mudamos de ambiente por algum tempo, e o meio mais seguro de verificá-la é viajarmos a um país estrangeiro. Mas a verdadeira viagem não é correr de uma a outra excursão, em um grupo composto de cidadãos de nosso próprio país, durante o tempo todo, estranhando que os costumes sejam diferentes dos de nossa pequena comarca. Mas sim demorar um pouco em terra estranha, procurando realmente travar conhecimento com seu povo e compreendê-lo; estudar os costumes e investigar sua razão de ser, o que neles há de bom, em vez de os condenar de plano por não serem os nossos. O homem que assim proceder cedo identificará os traços característicos das várias raças – compreenderá essas diversidades fundamentais, como as existentes entre ingleses e irlandeses, hindus e americanos, bretões e sicilianos, mas concluirá que devem eles ser olhados não como melhores uns do que os outros, senão como as diferentes cores de que se compõe o arco-íris, os diferentes acordes que são todos necessários como partes do grande oratório da vida.

Cada qual tem sua parte a desempenhar na evolução dos egos, que necessitam de sua influência, carecem de suas características. Há um poderoso anjo por trás de cada raça, ou seja, o Espírito da Raça, que sob a direção do Manu lhe preserva as qualidades especiais e a guia ao longo da linha que lhe foi destinada. Nasce uma nova raça quando o esquema da evolução requer um novo tipo de temperamento; extingue-se uma raça quando por ela já passaram todos os egos que podia beneficiar. A influência do Espírito de uma raça impregna por inteiro a região ou país sobre o qual se estende a sua supervisão, e é naturalmente um fator da máxima importância para todo visitante que possua um mínimo de sensibilidade.

O turista ordinário é demasiadamente aprisionado na tríplice armadilha dos agressivos preconceitos de raça; acha-se tão imbuído de preconceitos acerca da suposta excelência de sua própria nação que se torna incapaz de ver o que há de bom em outro país. O viajante esclarecido, que deseja abrir o coração à ação das forças superiores, pode receber dessa fonte muita coisa valiosa, tanto em instrução como em experiência. Mas, a fim de o conseguir, deve situar-se na atitude correta; deve estar disposto mais a ouvir do que a falar, mais a aprender do que a alardear, mais a apreciar do que a criticar, mais a tentar compreender do que a condenar irrefletidamente.

Obter semelhante resultado é o verdadeiro objetivo da viagem, e neste sentido as oportunidades de que dispomos são muito melhores do que aquelas que puderam ter nossos antepassados. Os meios de comunicação alcançaram tanto progresso que agora é possível a qualquer pessoa realizar viagens em muito menos tempo e a preços muito mais baratos que há um século – exceto às classes ricas e ociosas. A par dessas possibilidades de intercomunicação, ocorre uma ampla disseminação de notícias do exterior por meio do telégrafo e dos jornais, de modo que também aqueles que não deixam seu país conhecem ainda sobre os outros povos muito mais do que era possível anteriormente. Sem todas essas facilidades, não poderia nunca existir a Sociedade Teosófica, ou pelo menos não teria ela as características atuais, nem alcançar o seu presente nível de eficiência.

O primeiro objetivo da Sociedade Teosófica é pugnar pela fraternidade universal, e nada contribui mais para induzir o sentimento fraternal entre as nações do que um intercâmbio permanente de relações de uma para com outra. Quando os povos se conhecerem uns aos outros somente por ouvir dizer, toda espécie de preconceitos se desenvolve; mas quando chegam a conhecer-se mutuamente, cada um verifica que o outro é, acima de tudo, um ser humano como ele, com os mesmos aspectos e interesses, as mesmas alegrias e tristezas.

Antigamente cada nação vivia quase sempre em uma condição de isolamento egoísta, e, se alguma calamidade sobre ela viesse a desabar, só lhe seria possível, na maioria dos casos, contar com os seus próprios recursos. Hoje o mundo inteiro se acha tão próximo que, se há uma fome na Índia, é enviado auxílio da América; se um terremoto devasta um dos países da Europa, imediatamente se organizam subscrições em favor das vítimas em todos os outros. Por mais distante que ainda se encontre a perfeita realização do ideal de fraternidade universal, a verdade é que pelo menos dela nos aproximamos cada vez mais: ainda não aprendemos a confiar inteiramente uns nos outros, mas pelo menos estamos prontos a socorrer-nos mutuamente, e isto já representa um grande passo no caminho para nos tornarmos realmente uma só família.

Sabemos quão frequentemente é recomendada a viagem para a cura de muitas enfermidades físicas, em especial aquelas que se manifestam sob as várias formas de perturbações nervosas. Muita gente considera fatigante a viagem, ainda que sem dúvida estimulante, sem pensar que se deve isso, não só à mudança de ares e das impressões físicas ordinárias, mas também à mudança das influências etéricas e astrais inerentes a cada lugar e região.

O oceano, a montanha, a floresta, ou a queda d’água – cada qual tem o seu peculiar tipo de vida, astral e etérico, tanto quanto o visível; e, portanto, seu próprio conjunto especial de impressões e influências. Muitas dessas entidades invisíveis estão irradiando vitalidade, e, qualquer que seja o caso, as vibrações irradiadas despertam porções não-habituais de nosso duplo etérico e de nossos corpos astral e mental, e o efeito é semelhante ao exercitar de músculos que não são comumente postos em atividade – algo cansativo no começo, mas obviamente saudável e desejável em tempo mais longo.

O habitante da cidade acostumou-se ao seu ambiente, e não faz idéia dos males que nele existem, a não ser quando o deixa por algum tempo. Morar em uma rua movimentada da cidade é, do ponto de vista astral, como viver à beira de um canal aberto de esgoto – uma corrente de lama fétida, que esteja sempre a exalar e espalhar odores nauseabundos. Nenhum homem, por menos impressionável que seja, pode suportá-lo indefinidamente sem prejuízo para a saúde, e uma mudança temporária para o campo será uma necessidade, tanto sob o aspecto físico como moral. Ao viajar da cidade para o campo, deixamos também para trás muitíssimo do mar tempestuoso de lutas e paixões hostis, e estes pensamentos humanos, embora continuem a influenciar-nos, são geralmente menos egoístas e mais elevados.

Em presença de uma das grandes maravilhas da natureza, como a Catarata do Niágara, quase todos nos sentimos extasiados e libertos do círculo restrito das preocupações diárias e dos desejos egoístas, sendo por isso mais nobre e mais amplo o nosso pensamento, e menos prejudiciais e mais proveitosas as formas-pensamento que vamos emitindo. Essas considerações evidenciam uma vez mais que, com o fim de obter pleno benefício da viagem, deve o homem prestar atenção à natureza e deixá-la exercer sua influência sobre ele. Se durante todo esse tempo for ele dominado por pensamentos egoístas e melancólicos, sob o peso de preocupações financeiras, ou deixar-se absorver pela sua doença e fraqueza, escasso rendimento será colhido das influências curativas.

Outro ponto é que certos lugares estão impregnados de alguns tipos especiais de pensamento. A consideração desta matéria pertence antes a outro capítulo, mas aqui podemos adiantar que a disposição de ânimo com que as pessoas visitam habitualmente o lugar tem funda repercussão em todos os demais visitantes. As populares estâncias balneárias da Inglaterra apresentam-lhes um ar de alegria e despreocupação, um determinado sentimento de vida em férias, de libertação temporária dos negócios, e da resolução de extrair daí o máximo partido, influência da qual é difícil escapar. Assim, o homem sobrecarregado e cansado, que aproveita para passar suas merecidas férias em tal lugar, obtém resultado muito diferente daquele que teria se apenas permanecesse sossegado em casa. Ficar em casa seria provavelmente menos fatigante, mas também muito menos estimulante.

Fazer um passeio pelo campo é viajar em miniatura, e, a fim de apreciar o seu efeito salutar, devemos ter em mente o que foi dito a respeito da diversidade de vibrações emitidas pelas várias espécies de plantas e árvores, e também dos diferentes tipos de solo ou rocha. Exercem todos como que uma massagem nos corpos etérico, astral e mental, e tendem a afrouxar a tensão que os aborrecimentos da vida quotidiana trazem a certas partes desses veículos.

Alguns vislumbres da verdade acerca dos pontos a que nos referimos podem ser captados de tradições de gente do campo. Por exemplo, há uma crença generalizada de que se adquire energia dormindo debaixo de um pinheiro com a cabeça voltada para o norte. Tal coisa em alguns casos é admissível, e a razão está em que existem correntes magnéticas que sempre estão fluindo na superfície da terra e que o homem comum desconhece inteiramente. Essas correntes, por meio de uma pressão suave, mas firme, eliminam gradualmente os obstáculos e fortalecem as partículas, tanto do corpo astral como da parte etérica do corpo físico, e assim lhes dão mais harmonia, repouso e tranqüilidade. Primeiro, o papel desempenhado pelo pinheiro é tal que suas radiações tornam o homem sensível às correntes magnéticas, deixando-o em uma condição na qual a estas é possível influenciaram-no; segundo, e conforme já foi explicado, o pinheiro está sempre difundindo vitalidade naquele estado especial em que ao homem é mais fácil absorvê-la.

O lado oculto das coisas. Charles Webster Leadbeater. A Editora Pensamento tem editado muitas obras desse autor. Se você se interessa por esse tipo de leitura, vale a pena ir pessoalmente à livraria da editora, localizada na Rua Dr. Mário Vicente, 374. Fica bem próxima à igrejinha de São Gonçalo, na Praça João Mendes, São Paulo-SP. E não se esqueça de atravessar a rua para observar atentamente a arquitetura do pequeno edifício que abriga a livraria, pertencente ao Círculo Esotérico Comunhão do Pensamento. É de encantar.

2 comentários :

  1. Oi César, interessante que esta matéria tem praticamente um século e parece que acabou de ser publicada. Gostei do toque sobre a Madame Blavastky, a bibliografia dela é bem interessante. Beijocas.

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  2. Concordo com o prezado amigo, já li diversos livros do Leadbeater. Gostei muito do O Homem donde e como veio e para onde vai. Recentemente comprei um que ainda não existe em português e começarei a lê-lo, Química Oculta. Recomendo comprar os livros da Alice Bailey (diversos estã otraduzidos pela Avatar em Niterói), pois são na atualidade os livros mais completos sobre o assunto em pauta. Destaco Tratado do Fogo Cósmico, Tratado de Magia Branca, Hierarquia Humana e Solar. Estes livros foram ditados pelo Mestre Tibetano o mesmo que orientou a Madame Blavatsky, também conhecido como Djwal Khul, é o Mestre dentro da nossa Hierarquia, que coordena o conhecimento do nosso planeta... Um forte Abraço, Etienne

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