sábado, 31 de outubro de 2009

40 anos sem Jack, o vagabundo iluminado.

.

Quando criei o Odepórica, desde o primeiro momento pensei em manter uma coluna onde iria resenhar apenas as obras da literatura beat, gênero que me fascina desde a primeira vez que li On the road, de Jack Kerouac, há muitos e muitos anos. Voltei a ler Kerouac há pouco mais de um ano, no embalo das obras que pouco a pouco estão sendo editadas pela L&PM editora em sua providencial coleção pocket com autores da geração beat. Creio que ao invés de criar uma coluna contemplando a literatura da geração beat eu vá partir para um blog específico sobre o tema, mas isso não vem ao caso agora.

Há exatos 40 anos (21 de outubro de 1969) Jack Kerouac tomava o rumo da estrada sem volta, deixando atrás de si uma obra que continua fascinando várias gerações de jovens (ou não tão jovens) que se encantam pelas narrativas desse autor que criou uma nova maneira de se expressar literariamente (a prosa espontânea), agradando muitos, desagradando outros tantos, e que, apesar dos altos e baixos de sua carreira e de sua vida particular, tornou-se um ícone da cultura norte-americana. O álcool e outros excessos o levaram embora precocemente aos 47 anos, mas os grandes escritores nunca partem totalmente, não é mesmo?

As viagens tiveram na literatura de Kerouac um papel fundamental, muito mais do que em qualquer outro autor; sua produção literária nos mostra quase sempre a visão de um homo viator pelas estradas americanas, resgatando uma simplicidade em muitos casos aparentemente perdida já naqueles longínquos anos 40 e 50 do século passado. A estrada, aqui, também uma metáfora, como sempre, da vida daquele que narra suas experiências, aventuras e decadências. Kerouac sempre quis, movido por uma intensa paixão, trazer à tona aquela “América” de sonho, o que, de certo modo, o afastou de outras maneiras de enxergar as mudanças que se avizinhavam; por outro lado, talvez seja essa visão quase romântica, quase ingênua e quase utópica de Kerouac que de fato traga encanto aos seus romances de uma maneira muito especial e singular. Um encanto que aparece escancarado em sua obra The Dharma Bums, em português, Os vagabundos iluminados.

Ainda não li a obra completa do Kerouac, mas duvido que qualquer publicação dele consiga me agradar mais do que Os vagabundos iluminados, publicado pela primeira vez em 1958, um ano após a edição de sua obra mais conhecida e admirada, o clássico On the road, (Pé na estrada).

Nem vou perder tempo comparando uma obra à outra: amo as duas, incondicionalmente, mas há algo em Os vagabundos iluminados que toca mais fundo do que qualquer aventura pela rota 66: a profunda espiritualidade de Kerouac, aliás, de Ray Smith, o alter-ego do escritor nessa jornada. E é impressionante como Kerouac conseguiu construir uma narrativa tão fascinante com uma história tão simples – simplicidade esta bastante propícia, já que o pano de fundo da obra é a conduta zen-budista das personagens, com as quais o autor de fato conviveu, e que aparecem no livro com nomes fictícios mas facilmente identificáveis entre seus leitores.

A história, como já disse, é simples: Ray Smith, um jovem escritor na faixa dos trinta e poucos anos e simpatizante do zen-budismo leva a vida, pelo que parece, batendo perna por aí, apaixonado pela liberdade de ir e vir e pela sabedoria adquirida com o tempo gasto pelas estradas americanas. Um vagabundo, na definição de Kerouac, mas temos que lembrar que o termo, entre os beats, não é pejorativo, muito pelo contrário: é preciso muito jogo de cintura para manter-se nesse nível - se é que podemos nos expressar assim – de vida itinerante. O termo em inglês, e que dá o título à obra, The Dharma Bums, tem de fato a conotação encontrada na língua portuguesa, onde “bum” significa vagabundo, parasita que vive às custas dos outros, mas não é isso o que esses vagabundos do Dharma (que deveria ser a tradução para o título em português, muito mais conveniente por sinal) fazem, embora talvez seja esta a forma como sejam vistos pela sociedade. Se formos parar para pensar, Kerouac antecipou aquilo que o movimento hippie iria fazer a partir da segunda metade da década seguinte, mas logo retorno à essa questão.

Voltando ao livro, certo dia de um final de setembro de 55, Ray chega a São Francisco e conhece um cara alguns anos mais jovem do que ele, Japhy Rider, formado em antropologia e dedicado aos estudos orientais, especialmente poesia chinesa e japonesa. Praticante do zen-budismo, e apaixonado por montanhismo, logo estabelece um forte vínculo de amizade com Ray, que passará muitas e muitas páginas dessa história ao lado do amigo, que de certa maneira assume uma postura de mestre em relação a Ray, mas de forma muito livre e descompromissada, quase não se percebendo esse tipo de relação entre os dois, mesmo porque Japhy também aprende muito com Ray .

Como em qualquer leitura que fazemos de um texto, podemos ler este sob diversos ângulos: o relato de uma aventura, o relato de uma época em transformação, o relato de uma amizade, o relato de uma busca espiritual. Um pouquinho de tudo isso está presente neste texto de Kerouac, que em certos momentos nos enche de uma doce alegria de viver, alternados com outros de uma tristeza sutil, melancólica e que tem tudo a ver com a realidade dos fatos, já que não se conhece jornada nesta vida que esteja isenta de alegrias e de sofrimentos.

Então não percamos tempo e vamos ao que é bom de verdade, lendo algumas brilhantes passagens de um Kerouac iluminado como nunca. E a obra começa assim, para lhe explicar um pouquinho esse lance de vagabundo do Dharma:

“(...) Pulei do vagão e atravessei a rodovia 101 correndo até a loja e comprei, além do vinho, um pouco de pão e algumas balas. Voltei correndo para o trem de carga que ainda ia demorar mais quinze minutos para sair daquele cenário, agora ensolarado e quente. Mas já estava bem no fim da tarde e com certeza logo esfriaria. O sujeitinho estava sentado de pernas cruzadas na ponta dele, de frente para uma refeição deplorável que consistia em uma lata de sardinhas. Fiquei com pena, fui até lá e disse: ‘Que tal um pouco de vinho para se aquecer? Você não quer um pouco de pão e queijo para comer com as sardinhas?’

‘Pode crer.’ A voz saía de algum lugar distante dentro dele, uma vozinha contida e meiga que tinha medo ou não estava com vontade de se afirmar. Eu tinha comprado um queijo três dias antes, na Cidade do México, antes da longa viagem barata de ônibus para atravessar três mil longos quilômetros por Zacatecas e Durango e Chihuahua até a fronteira em El Paso. Ele comeu o queijo e o pão e tomou o vinho com gosto e gratidão. Fiquei contente. Lembrei-me do verso no Sutra do Diamante que diz: ‘Pratique a caridade sem ter em mente nenhuma concepção a respeito de caridade, porque caridade, apesar de tudo, não passa de uma palavra.’ Eu era muito devoto naquele tempo e praticava minha devoção religiosa quase à perfeição. Mas, com o tempo, acabei ficando um pouco hipócrita em relação à minha pregação, além de me sentir um pouco cansado e cético. Porque agora estou tão velho e tão neutro... Mas naquele tempo eu realmente acreditava na caridade e na gentileza e na humanidade e no zelo e na tranqüilidade neutra e na sabedoria e no êxtase, e acreditava a ser um antigo bhikku com roupas modernas vagando pelo mundo (geralmente percorrendo o imenso arco triangular de Nova York até a Cidade do México e até São Francisco) para fazer girar a roda do Verdadeiro Significado, ou Darma, e conquistar méritos próprios para me transformar em um futuro Buda (Despertado) e em futuro Herói no Paraíso. Ainda não tinha conhecido Japhy Ryder, isso aconteceria na semana seguinte, nem tinha ouvido falar de nada parecido com ‘Vagabundos do Darma’ apesar de naquele tempo eu ser um perfeito Vagabundo do Darma e me considerar um andarilho religioso. O sujeitinho no vagão de carga deu forma a todas as minhas crenças ao se aquecer com o vinho e conversar e no final sacar uma tirinha de papel que continha uma prece de Santa Tereza anunciando que, depois de sua morte, ela retornaria à Terra por meio de uma chuva de rosas vinda do céu, para sempre, para todas as criaturas vivas.”

Você pode perceber então, logo no início dessa história, que o narrador mostra uma forte ligação com a espiritualidade oriental. Termos tais como Dharma (aquilo que sustenta e dá suporte à vida, e que nos ensinamentos do Budismo está relacionado aos ensinamentos de Buddha, e muitas vezes aparece traduzido, para poder simplificar a complexidade do termo, como “Lei”), bhikku (um discípulo mendicante, no budismo), Bodhisattwa (adepto do budismo que, tendo atingido um grau de iluminação, decide continuar encarnado para ajudar outros seres humanos até que estes também se libertem), Bodhidharma (o primeiro Patriarca da escola Ch’an, ou Zen, e que pregava um regime ascético muito rígido) entre outros, vão se repetindo aqui e ali com tanta naturalidade na obra que logo você nem estranha mais, e se bobear vai até se interessar em pesquisar um pouquinho sobre zen-budismo, o que eu acho que é o que você deveria mesmo fazer.

Pois bem, voltando ao livro, iremos ver como Ray descreve o interessantíssimo personagem Japhy Rider, que vem a ser, na vida real, o poeta Gary Snider, ainda vivo, e ainda na ativa, que bom:

“(...) todos os outros poetas esperançosos estavam lá, cada um com sua roupa típica, casacos de veludo cotelê puídos nos cotovelos, sapatos com as olas gastas, livros caindo dos bolsos. Mas Japhy usava roupas grosseiras de proletário compradas de segunda mão em lojas de caridade, que lhe eram úteis em escaladas de montanhas e caminhadas e para ficar sentado ao ar livre à noite, para acampamentos com fogueira e para pegar carona litoral acima e abaixo. Aliás, na pequena mochila ela trazia também um chapéu alpino verde muito engraçado que colocava quando chegava ao sopé de uma montanha, ato geralmente acompanhado de um canto tirolês, antes de começar a subir algumas centenas de metros de altitude.... Japhy não era alto, tinha só cerca de um metro e setenta, mas era forte e delgado e rápido e musculoso. O rosto dele era uma máscara ossuda de tristeza, mas seus olhos brilhavam como os dos velhos sábios risonhos da China, por cima daquele cavanhaquezinho, para amenizar a aparência rude de seu rosto tão bonito. Os dentes dele eram um pouco escuros, devido à negligência de quem mora no mato no começo da vida, mas isso nunca se notava e ele abria bem a boca para rir de piadas. Às vezes ficava quieto só olhando para o chão com tristeza, como se estivesse definhando. Às vezes, ficava animado. Demonstrou enorme interesse solidário por mim e pela história sobre o sujeitinho de Santa Tereza e pelas histórias que lhe contei a respeito das minhas experiências pessoais como clandestino em trens, pegando carona e caminhando no mato. Na mesma hora afirmou que eu era um baita bodisatva, que significa ‘grande ser sábio’ ou ‘grande anjo sábio’, e que eu ornamentava este mundo com minha sinceridade.”

Nessa passagem podemos apreciar o talento descritivo de Kerouac, certamente um dom adquirido não só com a prática da escrita mas também com o hábito de observar detalhadamente os diversos aspectos da natureza humana e do mundo ao redor. Kerouac foi genial nesse aspecto. Prossigamos.

Um ponto que merece atenção nessa relação entre o budismo – mais propriamente o Zen - e a obra de Kerouac é a estreita relação entre a história e a forma como ela foi construída com os princípios da doutrina oriental do Zen. Uma das maiores referências do zen-budismo, Daisetz Teitaro Suzuki (que Kerouac chegou a conhecer pessoalmente), inclusive aparece citado numa passagem de Os vagabundos iluminados, quando Ray descreve o singelo e cheio de paz barraco em que vivia Japhy, numa rua tranqüila, “cerca de três metros e meio por três metros e meio, com recheio de nada além dos apetrechos típicos de Japhy, que demonstravam sua crença na vida monástica simples – nenhuma cadeira, nem mesmo uma cadeira de balanço sentimental, mas apenas esteiras de palha. No canto ficava sua famosa mochila com as panelas e frigideiras limpas que se encaixavam umas nas outras formando uma unidade compacta e guardadas com uma bandana azul amarrada. Então havia os chinelos japoneses altos de madeira, que ele nunca usava, e um par de meias pretas japonesas para usar dentro de casa e caminhar maciamente sobre as belas esteiras de palha, com o espaço certo para os quatro dedos de um lado e o dedão do outro. Tinha uma porção de caixotes de laranja repletos de lindos livros eruditos, alguns deles em línguas orientais, todos os grandes sutras, a obra completa de D.T. Suzuki e uma edição em quatro volumes de haicais japoneses.”

O professor Suzuki (1870-1966), numa obra introdutória sobre o zen-budismo, esclarece que “o moderno monge Zen está abundantemente suprido. Suas necessidades, realmente, reduzem-se a um mínimo, e qualquer um poderá levar uma vida das mais simples, caso imite o monge Zen. O desejo de possuir é considerado pelo budismo uma das piores paixões que podem obcecar os seres humanos. (...) O ideal Zen de pôr todas as posses do monge numa pequena caixa é o seu mudo e inoperante protesto contra a ordem de coisas da sociedade.”

E o que Kerouac criou nessa obra faz total sentido com os preceitos acima expostos por D.T. Suzuki, como se o autor intencionalmente tivesse construído seu relato seguindo uma proposta muito bem definida em que o romance fosse apenas um pano de fundo para algo maior, em outras palavras, uma parábola sobre a essência do Zen. Mas não podemos viajar tanto, é claro, pois o mais provável é que Kerouac, como sempre, simplesmente escreveu sobre aquilo que ele mesmo viveu e sentiu na pele. Japhy, o amigo (e uma possível paixão reprimida, quem sabe) parece ter sido um caso clássico de projeção: era tudo aquilo que Ray (JK) queria ter sido, mas não conseguia ser. E um pouco da recíproca pode também ser verdadeira, por que não? O fato é que Kerouac se interessou profundamente pelo budismo, mas isso não poderia durar muito, devido ao enorme peso que o cristianismo católico teve em sua vida.

Japhy teve grandes sacadas em algumas passagens da obra, duas que merecem ser lidas antes de pormos um ponto final nessa resenha. Uma delas diz respeito à própria relação de Ray com a sua religiosidade. Japhy estava muito seguro de sua busca e de sua “conversão” ao budismo, mas percebeu que Ray jamais chegaria ao mesmo nível de comprometimento, tanto que profetizou:

“(...) ‘Você gosta mesmo de Cristo, não é?’. ‘Claro que gosto. E afinal, muita gente diz que ele é Maytreya, o Buda profetizado a aparecer depois de Sakyamuni, você sabe, Maitreya significa ‘Amor’ em sânscrito e Cristo só falava de amor.’
‘Ah, não vai começar a pregar o cristianismo para cima de mim, já estou vendo você no seu leito de morte beijando a cruz igual a um velho Karamazov ou o nosso velho amigo Dwight Goddard que passou a vida inteira como budista e de repente retornou ao cristianismo nos últimos dias da vida.’ ” Foi o que acabou acontecendo com Jack.

Uma outra “profecia” de Japhy, agora de âmbito mais planetário, antecipava em alguns anos a época do desbunde, do movimento da contracultura dos anos 60 e que vem cheia de poesia e energia como você pode ler a seguir:

“Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cherr up slaves, and horrify foreign despots (Alegrem-se escravos, e horrorizem os déspotas estrangeiros), ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorante e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas para rezar, fazendo as crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça deles sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas...”

Não é surpreendente? É sim. E há tantas passagens legais dessa obra que fica até difícil de selecionar as prediletas; entretanto, preciso dizer que do modo como conduzi até aqui essa leitura corro o risco de afirmar que Vagabundos Iluminados só fica nessa de zen-budismo e tradições religiosas e, bem, isso não é verdade. Há espaço para outras coisas também, coisas que nada têm a ver com esse “espírito zen”, como as festas improvisadas na casinha de Japhy próximo às montanhas, com muito sexo livre, peladões e peladonas, muita bebida de garrafão rolando solta, cigarrinhos suspeitos, essas coisas que fazem a alegria da meninada. Afinal de contas, nem Japhy, nem Ray são ascetas, e nem tudo é proibido afinal. Nem brincar com o sagrado, como acontece lá quase no final do livro. Começa com Japhy assim:

“Você sabe como Kasyapa se tornou o Primeiro Patriarca? O Buda estava pronto para começar a expor um sutra e mil duzentos e cinqüenta bikkhus estavam esperando com as vestes arrumadas e os pés cruzados, e tudo que o Buda fez foi erguer uma flor. Todo mundo ficou perturbado. O Buda não disse nada. Só Kasyapa sorriu. Foi assim que o Buda escolheu Kasyapa. Isso ficou conhecido como o sermão da flor, rapaz.”

Ray continua:

“Entrei na cozinha e peguei uma banana e saí e disse: ‘Bom, vou te contar o que é o nirvana’.
‘O quê?’
‘Comi a banana e joguei a casca fora e não disse nada.’ ‘Este é o sermão da banana.’”

Senso de humor não faz mal a ninguém, certo? E assim as passagens desse livro genial vão te embalando página a página, e você se pega sonhando com uma casinha no sopé de uma montanha, meditando sobre as coisas boas e simples da vida e em como quase sempre somos nós mesmos os responsáveis pelos nossos sofrimentos, que bastaria mudar um pouco a dieta, largar uns dois ou três vícios ruins (mas um só já está bastante bom também), dar uma relaxada com os compromissos, desligar-se um pouco que seja de alguns aparatos tecnológicos, preparar um reconfortante bule de chá bem quentinho já resolveria algumas coisas... tão fácil e tão difícil, por que será? O que uma boa leitura não faz com a gente, não? Por isso eu adoro esse livro do Kerouac, ele me faz refletir sobre isso tudo.

O resto dessa história eu não conto, que é mesmo para te obrigar a comprar o livro e ler com calma. E não se intimide com a prosa espontânea tão alardeada na produção kerouaquiana: aqui ela quase não aparece, o que faz de Os vagabundos iluminados uma boa introdução ao universo beat de JK.

Para terminar, escolhi umas palavras ditas por Ray que mostram um vagabundo do dharma singelo, quase infantil em sua pureza e simplicidade, e que algo me diz deveria corresponder àquilo que Jack Kerouac, em sua verdadeira essência, foi em vida.

“Passei muito tempo meditando de pernas cruzadas, mas o ruído dos caminhões me incomodava. Logo as estrelas despontaram e minha fogueirinha de índio enviou um pouco de fumaça na direção delas. Enfiei-me dentro do saco de dormir às onze e dormi bem, a não ser pelas hastes de bambu sob as folhas que me fizeram ficar virando de um lado para o outro a noite inteira. ‘É melhor dormir em uma cama desconfortável de graça do que dormir em uma cama desconfortável que não é de graça. ‘Eu ia inventando toda sorte de ditados na medida em que avançava. Tinha iniciado minha nova vida com meu novo equipamento: um verdadeiro Dom Quixote da ternura. De manhã me senti alegre e a primeira coisa que fiz foi meditar e inventei uma rezinha: ‘Abençôo-as, todas as coisas vivas, abençoo-as no passado infinito, abençoo-as no presente infinito, abençoo-as no futuro infinito, amém.’

“Essa rezinha fez com que eu me sentisse bem e todo bobo e feliz enquanto arrumava minhas coisas na mochila e saía em direção à água corrente que escorria de uma pedra do outro lado da rodovia, água de fonte deliciosa para lavar o rosto e limpar os dentes e beber. Então estava pronto para os cinco mil quilômetros até Rocky Mount, na Carolina do Norte, onde minha mãe esperava, provavelmente lavando a louça em sua cozinha querida de dar dó.”

Se você tiver que ler apenas um livro de Jack Kerouac, sugiro Os Vagabundos Iluminados, lançado aqui no Brasil pela L&PM. 1ª ed., 2004. Se quiser saber um pouco mais da vida dele, daí sugiro mais dois livros: Kerouac, de Yves Buin, também da L&PM (2007), e a pequena e simpática biografia escrita pelo Antonio Bivar, Jack Kerouac: o rei dos beatniks, coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 2004.

E, finalmente, se você quiser ler algo sobre o Zen, indico duas pequenas obras que merecem destaque em sua pesquisa: a primeira delas, já falei lá em cima, é Introdução ao Zen-Budismo, de D.T.Suzuki com prefácio de C.G.Jung. Saiu pela Pensamento e é um must. A outra deve agradar sobretudo aos que também curtem Kerouac: O Zen e a experiência mística, da Editora Cultrix, escrita por Alan Watts e que traz um capítulo inteiro dedicado ao “Zen Beat”.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O lado oculto das viagens, by C.W.Leadbeater

.

Desde muito jovem, por volta dos treze ou quatorze anos, me interessei pela Teosofia, por conta de alguns livros que minha mãe andava lendo naquela época, alguns títulos de Ângela Maria La Sala Batá, um ou outro do Geoffrey Hodson e de Alice Bayley. Um dia ela me levou à livraria da Editora Pensamento, aqui no centro velho de São Paulo, ainda em funcionamento e uma das poucas livrarias especializadas em títulos espiritualistas e esotéricos- cabendo, nesse amplo panorama, obras que contemplam as tradições do ocultismo, do candomblé, da umbanda, do espiritismo, da Grande Fraternidade Branca, do Xamanismo, da Projeciologia, do Hinduísmo, do Taoísmo, do Budismo, do Zen, do Sufismo, da Cabala, da Wicca e etc etc etc. Há de tudo um pouco por entre aquelas prateleiras. Mas o que me chamou a atenção - voltando no tempo - na primeira vez em que lá estive, foram os livros de Teosofia, em particular os escritos por Helena Blavatsky, Dion Fortune, Annie Besant e, meu favorito entre eles, Charles Webster Leadbeater.

Não vou escrever sobre a história da Teosofia, cujo lema “Não existe religião superior à verdade” sempre me pareceu inspirador, o que não quer dizer, nem de longe, nem de perto, que não haja controvérsias dentro e fora desses círculos (esotéricos); a própria figura de Madame Blavatsky, só para citar a grande mestra fundadora da Sociedade Teosófica, por si só é uma gigantesca fonte de polêmicas e, digo sem medo, uma das personagens históricas do final do século XIX mais interessantes que passaram por esse planeta. Se puder, leia algo sobre a vida dela, pode ser pela internet mesmo, e você verá que não estou exagerando (como introdução indico um opúsculo escrito por Luis Pellegrini intitulado Madame Blavatsky- o caminho da solidariedade, vol. 4 da coleção Transcendência, T.A. Queiroz Edit., 1986). Quanto às obras da própria HPB, aí já são outros quinhentos, não se consegue avançar muito na leitura se você não tiver antes um certo “preparo”, mas isso não é conversa para agora.

Como esse blog trata sobretudo dos relatos de viagem e temas que tenham a ver com isso, vou apenas comentar que C.W.Leadbeater (Inglaterra, 1854-1934) foi discípulo de Helena P. Blavatsky e teve um papel fundamental dentro da Sociedade Teosófica. Produziu uma obra vasta, e seus livros são ainda hoje muito estudados por aqueles que se interessam pelo ocultismo em particular e por orientalismo de um modo geral. Muitas das fontes em que HPB e Leadbeater beberam provém de antigos textos sagrados do Oriente, privilegiando, de modo geral, o hinduísmo e o budismo tibetano, mas também abrindo espaço para diversas outras tradições religiosas.

Dizem que Leadbeater conquistou com o tempo uma clarividência fenomenal, e muito daquilo que ele escreveu é resultado de tudo o que conseguiu ver através desse dom paranormal. Sim, eu sei que para os céticos isso não passa de crendice - para ser academicamente polido - por isso não me prolongarei. Essa introdução eu fiz apenas para situar o leitor e a leitora no contexto em que a passagem que vou postar aqui foi escrita. É um pequeno excerto da interessante obra “O lado oculto das coisas” (publicado em 1913), dividida em 25 capítulos, em seções intituladas “Como nós somos influenciados”. Aqui, portanto, vamos ficar sabendo como somos influenciados pelas viagens que fazemos, na ótica de C. W. Leadbeater. É diferente de tudo o que já vimos aqui no Odepórica, por isso achei que merecia a postagem. Para ler com a mente aberta, ok? Experimente.

As viagens

A extensão da influência das pessoas que nos cercam somente a percebemos quando mudamos de ambiente por algum tempo, e o meio mais seguro de verificá-la é viajarmos a um país estrangeiro. Mas a verdadeira viagem não é correr de uma a outra excursão, em um grupo composto de cidadãos de nosso próprio país, durante o tempo todo, estranhando que os costumes sejam diferentes dos de nossa pequena comarca. Mas sim demorar um pouco em terra estranha, procurando realmente travar conhecimento com seu povo e compreendê-lo; estudar os costumes e investigar sua razão de ser, o que neles há de bom, em vez de os condenar de plano por não serem os nossos. O homem que assim proceder cedo identificará os traços característicos das várias raças – compreenderá essas diversidades fundamentais, como as existentes entre ingleses e irlandeses, hindus e americanos, bretões e sicilianos, mas concluirá que devem eles ser olhados não como melhores uns do que os outros, senão como as diferentes cores de que se compõe o arco-íris, os diferentes acordes que são todos necessários como partes do grande oratório da vida.

Cada qual tem sua parte a desempenhar na evolução dos egos, que necessitam de sua influência, carecem de suas características. Há um poderoso anjo por trás de cada raça, ou seja, o Espírito da Raça, que sob a direção do Manu lhe preserva as qualidades especiais e a guia ao longo da linha que lhe foi destinada. Nasce uma nova raça quando o esquema da evolução requer um novo tipo de temperamento; extingue-se uma raça quando por ela já passaram todos os egos que podia beneficiar. A influência do Espírito de uma raça impregna por inteiro a região ou país sobre o qual se estende a sua supervisão, e é naturalmente um fator da máxima importância para todo visitante que possua um mínimo de sensibilidade.

O turista ordinário é demasiadamente aprisionado na tríplice armadilha dos agressivos preconceitos de raça; acha-se tão imbuído de preconceitos acerca da suposta excelência de sua própria nação que se torna incapaz de ver o que há de bom em outro país. O viajante esclarecido, que deseja abrir o coração à ação das forças superiores, pode receber dessa fonte muita coisa valiosa, tanto em instrução como em experiência. Mas, a fim de o conseguir, deve situar-se na atitude correta; deve estar disposto mais a ouvir do que a falar, mais a aprender do que a alardear, mais a apreciar do que a criticar, mais a tentar compreender do que a condenar irrefletidamente.

Obter semelhante resultado é o verdadeiro objetivo da viagem, e neste sentido as oportunidades de que dispomos são muito melhores do que aquelas que puderam ter nossos antepassados. Os meios de comunicação alcançaram tanto progresso que agora é possível a qualquer pessoa realizar viagens em muito menos tempo e a preços muito mais baratos que há um século – exceto às classes ricas e ociosas. A par dessas possibilidades de intercomunicação, ocorre uma ampla disseminação de notícias do exterior por meio do telégrafo e dos jornais, de modo que também aqueles que não deixam seu país conhecem ainda sobre os outros povos muito mais do que era possível anteriormente. Sem todas essas facilidades, não poderia nunca existir a Sociedade Teosófica, ou pelo menos não teria ela as características atuais, nem alcançar o seu presente nível de eficiência.

O primeiro objetivo da Sociedade Teosófica é pugnar pela fraternidade universal, e nada contribui mais para induzir o sentimento fraternal entre as nações do que um intercâmbio permanente de relações de uma para com outra. Quando os povos se conhecerem uns aos outros somente por ouvir dizer, toda espécie de preconceitos se desenvolve; mas quando chegam a conhecer-se mutuamente, cada um verifica que o outro é, acima de tudo, um ser humano como ele, com os mesmos aspectos e interesses, as mesmas alegrias e tristezas.

Antigamente cada nação vivia quase sempre em uma condição de isolamento egoísta, e, se alguma calamidade sobre ela viesse a desabar, só lhe seria possível, na maioria dos casos, contar com os seus próprios recursos. Hoje o mundo inteiro se acha tão próximo que, se há uma fome na Índia, é enviado auxílio da América; se um terremoto devasta um dos países da Europa, imediatamente se organizam subscrições em favor das vítimas em todos os outros. Por mais distante que ainda se encontre a perfeita realização do ideal de fraternidade universal, a verdade é que pelo menos dela nos aproximamos cada vez mais: ainda não aprendemos a confiar inteiramente uns nos outros, mas pelo menos estamos prontos a socorrer-nos mutuamente, e isto já representa um grande passo no caminho para nos tornarmos realmente uma só família.

Sabemos quão frequentemente é recomendada a viagem para a cura de muitas enfermidades físicas, em especial aquelas que se manifestam sob as várias formas de perturbações nervosas. Muita gente considera fatigante a viagem, ainda que sem dúvida estimulante, sem pensar que se deve isso, não só à mudança de ares e das impressões físicas ordinárias, mas também à mudança das influências etéricas e astrais inerentes a cada lugar e região.

O oceano, a montanha, a floresta, ou a queda d’água – cada qual tem o seu peculiar tipo de vida, astral e etérico, tanto quanto o visível; e, portanto, seu próprio conjunto especial de impressões e influências. Muitas dessas entidades invisíveis estão irradiando vitalidade, e, qualquer que seja o caso, as vibrações irradiadas despertam porções não-habituais de nosso duplo etérico e de nossos corpos astral e mental, e o efeito é semelhante ao exercitar de músculos que não são comumente postos em atividade – algo cansativo no começo, mas obviamente saudável e desejável em tempo mais longo.

O habitante da cidade acostumou-se ao seu ambiente, e não faz idéia dos males que nele existem, a não ser quando o deixa por algum tempo. Morar em uma rua movimentada da cidade é, do ponto de vista astral, como viver à beira de um canal aberto de esgoto – uma corrente de lama fétida, que esteja sempre a exalar e espalhar odores nauseabundos. Nenhum homem, por menos impressionável que seja, pode suportá-lo indefinidamente sem prejuízo para a saúde, e uma mudança temporária para o campo será uma necessidade, tanto sob o aspecto físico como moral. Ao viajar da cidade para o campo, deixamos também para trás muitíssimo do mar tempestuoso de lutas e paixões hostis, e estes pensamentos humanos, embora continuem a influenciar-nos, são geralmente menos egoístas e mais elevados.

Em presença de uma das grandes maravilhas da natureza, como a Catarata do Niágara, quase todos nos sentimos extasiados e libertos do círculo restrito das preocupações diárias e dos desejos egoístas, sendo por isso mais nobre e mais amplo o nosso pensamento, e menos prejudiciais e mais proveitosas as formas-pensamento que vamos emitindo. Essas considerações evidenciam uma vez mais que, com o fim de obter pleno benefício da viagem, deve o homem prestar atenção à natureza e deixá-la exercer sua influência sobre ele. Se durante todo esse tempo for ele dominado por pensamentos egoístas e melancólicos, sob o peso de preocupações financeiras, ou deixar-se absorver pela sua doença e fraqueza, escasso rendimento será colhido das influências curativas.

Outro ponto é que certos lugares estão impregnados de alguns tipos especiais de pensamento. A consideração desta matéria pertence antes a outro capítulo, mas aqui podemos adiantar que a disposição de ânimo com que as pessoas visitam habitualmente o lugar tem funda repercussão em todos os demais visitantes. As populares estâncias balneárias da Inglaterra apresentam-lhes um ar de alegria e despreocupação, um determinado sentimento de vida em férias, de libertação temporária dos negócios, e da resolução de extrair daí o máximo partido, influência da qual é difícil escapar. Assim, o homem sobrecarregado e cansado, que aproveita para passar suas merecidas férias em tal lugar, obtém resultado muito diferente daquele que teria se apenas permanecesse sossegado em casa. Ficar em casa seria provavelmente menos fatigante, mas também muito menos estimulante.

Fazer um passeio pelo campo é viajar em miniatura, e, a fim de apreciar o seu efeito salutar, devemos ter em mente o que foi dito a respeito da diversidade de vibrações emitidas pelas várias espécies de plantas e árvores, e também dos diferentes tipos de solo ou rocha. Exercem todos como que uma massagem nos corpos etérico, astral e mental, e tendem a afrouxar a tensão que os aborrecimentos da vida quotidiana trazem a certas partes desses veículos.

Alguns vislumbres da verdade acerca dos pontos a que nos referimos podem ser captados de tradições de gente do campo. Por exemplo, há uma crença generalizada de que se adquire energia dormindo debaixo de um pinheiro com a cabeça voltada para o norte. Tal coisa em alguns casos é admissível, e a razão está em que existem correntes magnéticas que sempre estão fluindo na superfície da terra e que o homem comum desconhece inteiramente. Essas correntes, por meio de uma pressão suave, mas firme, eliminam gradualmente os obstáculos e fortalecem as partículas, tanto do corpo astral como da parte etérica do corpo físico, e assim lhes dão mais harmonia, repouso e tranqüilidade. Primeiro, o papel desempenhado pelo pinheiro é tal que suas radiações tornam o homem sensível às correntes magnéticas, deixando-o em uma condição na qual a estas é possível influenciaram-no; segundo, e conforme já foi explicado, o pinheiro está sempre difundindo vitalidade naquele estado especial em que ao homem é mais fácil absorvê-la.

O lado oculto das coisas. Charles Webster Leadbeater. A Editora Pensamento tem editado muitas obras desse autor. Se você se interessa por esse tipo de leitura, vale a pena ir pessoalmente à livraria da editora, localizada na Rua Dr. Mário Vicente, 374. Fica bem próxima à igrejinha de São Gonçalo, na Praça João Mendes, São Paulo-SP. E não se esqueça de atravessar a rua para observar atentamente a arquitetura do pequeno edifício que abriga a livraria, pertencente ao Círculo Esotérico Comunhão do Pensamento. É de encantar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nova Era, by Luiz Carlos Lisboa

.


Um post diferente para abrir o mês de outubro aqui no Odepórica. Hoje vou trazer a você, leitor/a, alguns pensamentos de um escritor que eu admiro muito e acredito que poucas pessoas devam conhecer. Pois não sabem o que estão perdendo, por isso anotem esse nome: Luiz Carlos Lisboa. Conheci o trabalho desse fantástico escritor e poeta nos anos 80 do século passado, e de uma maneira muito prazerosa: através de um programa chamado “Música da Nova Era”, que era transmitido pela Rádio Eldorado aqui de São Paulo, apresentado por Mirna Grzich, jornalista e locutora e dona de uma das vozes mais lindas que já ouvi na vida.

Devo dizer que sou um verdadeiro órfão desse programa, que era apresentado todos os domingos das 22 às 23 horas. Cheguei a ter uma coleção de fitas k7 com as gravações de muitos daqueles programas, fitas que eram passadas de mãos em mãos entre os amigos do colégio que também estavam sintonizados com a egrégora zen do programa, de suas músicas e, desconfio, igualmente apaixonados pela voz silfídica de Mirna, que nos fazia viajar, viajar, viajar... uma sensação única.

O programa contava com a grande sapiência de Mirna nesse universo New Age (como costumávamos falar naquela época); tendo vivido alguns anos na Califórnia (nada mais propício), Mirna estava por dentro de tudo o que estava acontecendo no mundo dentro daquele contexto, digamos, “espiritual”, principalmente no tocante à música, à literatura, concertos, além de indicar palestras e workshops de temas ligados ao universo do programa. Foi Mirna quem nos introduziu (não tínhamos internet naquela época) o som viajante de artistas excepcionais como Steve Roach, Dead Can Dance, David Darling, Constance Demby, Kitaro, Deuter, Carlos Nakai, Paul Horn, Steven Halpern, Tangerine Dream.... Era bom para a cuca, era bom para a alma também. O bacana então, era que entre uma música e outra, Mirna “declamava” os textos de Luiz Carlos Lisboa, sempre muito simples, sempre muito zen, sempre muito tocantes. O lance foi tão marcante, que do programa saiu um livro, foríssimo de catálogo mas fácil de encontrar em sebos. Leva o nome do programa, claro, Nova Era, e sempre que eu encontro um por aí, compro e dou de presente, porque acho um crime ver essa preciosidade tomando pó em sebo.

Tudo bem, posso estar exagerando um pouco, mas sempre ajo assim quando falo de algo que me encanta, como é o caso desse livro. Escolhi poucos trechos dessa vez, e apenas aqueles que têm alguma mensagem relacionada ao ato de viajar. Confira, e depois se puder, ouça-os na íntegra. Como dizia a saudosa Mirna depois de apresentar as canções que iriam ao ar: Boa Viagem!




“A idéia de peregrinação parece tão antiga quanto a primeira idéia religiosa do homem - tendo talvez a idade do próprio homem. Peregrinar é andar numa direção, fazendo do meio o fim, do percurso a chegada, da busca da graça o próprio encontro com a Graça. Diz um provérbio antigo que o bom peregrino é aquele que já chegou, antes mesmo de partir.”

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa - aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa - não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.”

“Entre dois caminhos semelhantes, deixo que meus pés façam a escolha. Permitir que o coração ou a cabeça interfiram é pensar que a vontade é onipotente. De um modo misterioso, meus pés sabem mais sobre os caminhos do mundo do que meus pensamentos, porque o corpo tem uma sabedoria que a consciência não possui. Por isso, prefiro ser escolhido a escolher, com o amor de quem não sabe porque ama.”

“O caminho de casa tem tudo para ser o mais conhecido, e no entanto é o que menos conhecemos. De tanto percorre-lo distraidamente, não o vemos mais como de fato é, com suas cores e formas, seus sons e perfumes. É assim também que agimos com aqueles que dizemos amar: eles estão próximos, com a sua verdade, mas nós estamos cegos pelo hábito de viver.”

“De volta a casa, não estamos de volta à rotina enquanto tivermos na alma o gosto da aventura do viajante. O prazer de falar costuma ser maior e mais comum que o prazer de ouvir – e no entanto, quando por algum motivo precisamos ficar calados, descobrimos que quase tudo que dizemos é perfeitamente dispensável e despido de importância. A experiência de reduzir ao mínimo a própria fala pode mostrar resultados surpreendentes – em nosso íntimo e fora de nós. Ainda assim, são poucos os que se aventuram ao silêncio, como são raros os que ousam caminhar na sua direção.”

“O sonho de viajar inquieta o espírito do homem quando o essencial em sua vida já foi assegurado. Logo que o alimento, a casa e o repouso foram conquistados, o ser humano volta seus olhos para lugares distantes – que um dia ele viu em sonho ou conheceu de passagem. Aos poucos, vai sendo tecido um paraíso imaginário, que uma vez alcançado oferece todos os seus encantos. Mais difícil será descobrir, talvez, que há um paraíso aqui, que há um estado de serenidade perfeita agora, para quem abre as portas do coração.”

“Um grande pensador do nosso tempo disse uma vez que todo homem pode conhecer, dentro de sua casa, tudo aquilo que vale a pena conhecer. A beleza, o amor, o sentido da dor e da morte, a inocência e a culpa – cada pessoa, cada objeto, cada quarto contém o que o mundo lá fora possui. E se alguém deseja viajar por muitos lugares para aprender, talvez fosse bom lembrar antes que quem não vê o mundo inteiro no seu quarto, ou na pessoa a seu lado, não o vê em parte alguma, por mais que procure. A revelação dessa verdade simples pode ser o começo de uma grande mudança.”

“O desejo humano de viajar, de percorrer terras e de conhecer continentes, pode levar ao prazer ou ao desencanto, conforme atenda ou não aos nossos sonhos. Mas onde pode ir um homem sem levar consigo tudo o que de fato é, e tudo o que se acostumou a desejar? A verdadeira viagem, a que conserva as paisagens mas modifica o homem, é talvez a única que não deve ser adiada. Nela, o viajante é mais importante do que as terras que percorre, e a partir dela todos os caminhos têm um encanto novo – mesmo os que levam de uma rua a outra, na cidade em que se vive.”

“Um dia podemos descobrir que toda viagem é, de algum modo, uma peregrinação em busca de um lugar que é o coração do viajante. Seu destino final é sua realidade interior, mas faz parte do ritual a busca em lugares distantes, onde seu coração sempre vai, desejoso de um encontro que nem sempre acontece.”

Leia: NOVA ERA, de Luiz Carlos Lisboa, com seleta de textos do Programa “Música da Nova Era”. Apresentação e discografia essencial de Mirna A. Grzich. Livraria Cultura Editora: São Paulo. 2ª edição. 1989.

Se você se interessou em ouvir os textos originais de Luiz Carlos Lisboa na voz maravilhosa de Mirna Grizich acesse os links abaixo. Agradeço a Arly Cravo por nos disponibilizar essa raridade via You Tube. Namastê!



Parte II