quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Índia, o comedor de excrementos, e o olhar do viajante

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Há poucos anos fiz uma resenha para um periódico acadêmico de um livro excepcional, ainda que introdutório, intitulado O que é Ciência da Religião, de autoria de Hans-Jürgen Greschat, professor de História da Religião da conceituada Universidade de Marburgo, na Alemanha. Muitas coisas me encantaram nessa obra, como a maneira simples e direta do autor, sua paixão declarada pelo que faz, a didática objetiva e inspiradora para quem o lê, e os estudos de casos e situações escolhidos para ilustrar algumas passagens.

Outro dia, ao fazer uma arrumação em minha biblioteca, voltei a folhear as páginas desse estudo, lendo aleatoriamente as marcações coloridas que usei para destacar as passagens mais interessantes. Uma delas me chamou a atenção em especial, porque o que nela está escrito é uma das coisas mais fantásticas que já li sobre um ritual hindu.

Tenho um interesse especial pela Índia no tocante à sua espiritualidade, à sua arte e sua culinária, tendo inclusive visitado o país no ano de 1997, numa breve viagem de três semanas; não faço parte da turma que volta de lá deslumbrada, afirmando que a vida mudou depois de tudo o que viu, da espiritualidade tocante do povo, toda aquela conversa que você já deve ter ouvido alguém relatar em algum programa de televisão. Muitas dessas pessoas ficam encantadas com uma Índia que não existe de fato: chegam ao país e vão direto do aeroporto ao “Ashram”, que na verdade é um spa/hotel que oferece tudo o que a Índia tem de melhor: aulas de yoga (com professores americanos ou europeus), culinária vegetariana (com preços de culinária francesa), massagem ayurvédica, equilíbrio dos chacras e outras tantas novidades que você fica fascinado e morrendo de vontade de experimentar. Tudo bem, e por que não? Para quem pode pagar, deve ser um ótimo investimento, ainda que você possa usufruir de tudo isso, talvez até mais prazerosamente, sem a necessidade de voar tantas milhas. Procure na internet, e procure, de preferência, na região da Califórnia, pois boa parte dessa “Índia nova era” se encontra por lá, incluindo os gurus “indianos da Índia”.

Por isso eu desconfio desses relatos emocionados de quem viaja à Índia e volta transformado com aquilo que viu. Simplesmente porque este é um país que pede tempo para se acostumar a ele, tamanha a diferença cultural entre a nossa cultura ocidental e a deles. Em Rishikesh conheci um monge budista mexicano que não se surpreendeu quando lhe disse que não estava gostando tanto de minha viagem quanto esperava gostar, não pela miséria e pelas dificuldades impostas pela estrada (sempre de praxe nessas aventuras), mas pelo povo de um modo geral, muito diferente da imagem pré-concebida que eu tinha em mente, de um indiano humilde e espiritualizado... ele me disse, Miguel era seu nome, que o meu erro foi o de começar a julgar um povo sem nem mesmo conhecê-lo e que se continuasse agindo assim, jamais iria conseguir conhecer a Índia, entender a Índia, e sobretudo amar a Índia. Eu mesmo, disse-me ele, só fui começar a gostar do país depois de havê-lo visitado quatro vezes, nunca menos do que seis meses em cada estadia.

A partir desse encontro, infelizmente já nos meus últimos dias de passagem pelo país, tratei de mudar o meu campo de visão, deixando o turista para trás e trazendo à tona o viajante que em mim se encontrava adormecido. A passagem que vou transcrever a seguir tem muito a ver com a experiência que vivi naquela viagem que fiz ao subcontinente indiano. O autor dirige-se aos cientistas da religião (que é o meu caso hoje) afirmando que o pesquisador (isso pode se estender a um viajante) tem que ser receptivo às impressões de vida religiosa alheia (que pode ser estendida às impressões de um modo geral). “Um cientista da religião”, escreve Greschat, “quando exerce sua profissão, deve colocar um parênteses em sua fé pessoal, uma vez que, se ela sobressaísse, poderia distorcer o objeto pesquisado”. E continua:

“Tal distorção aparece quando o pesquisador, em vez de olhar e ouvir com a mente aberta – parte para avaliações espontâneas e descontroladas, feitas com a cabeça repleta de comparações. A recepção de algo desconhecido gasta toda a nossa energia. Enquanto passamos por esse processo, deveríamos suspender nossos julgamentos”.

Isso foi escrito para um público acadêmico, mas sem sombra de dúvida serve como ferramenta de viagem para qualquer pessoa disposta a aproveitar ao máximo um país ou uma cultura diferente da sua. Se você puxar pela memória provavelmente irá se lembrar de alguma viagem em que instintivamente agiu dessa forma, deixando-se levar pela situação, pelo momento, sem julgamentos, em um episódio que o marcou em especial, e que você só se deu conta da importância que teria em sua vida algum tempo depois.

Na passagem que você irá ler a seguir, há um exemplo de como não podemos julgar uma atitude sem conhecer seus fundamentos, e muito menos generalizar um fato estendendo-o a toda uma cultura. É como se um estrangeiro viesse ao Brasil, ficasse duas semanas em Salvador e voltasse à sua terra afirmando que os brasileiros são em sua maioria negros de origem africana e que a religião dominante no país é o candomblé. Não seria de fato uma mentira completa, mas também está muito distante da realidade do que é o Brasil. Esse caso foi relatado na obra de um teólogo chamado Klaus Klostermaier que lecionou filosofia na Universidade Vaishnava em Vrindaban, na Índia.

“Vi um jovem nu que estava deitado, com a cabeça para baixo, em uma calha de esgoto. Começou, com a mão em forma de concha, a jogar os dejetos do esgoto sobre si: um ato ritual a que ele se sentira obrigado. Logo depois chegaram os bhangis, ou seja, os lixeiros, membros de uma casta impura. Alguns removiam os excrementos que se acumularam durante a noite varrendo-os com uma vassoura para as canaletas, outros, que carregavam peles de cabra com água, enxaguavam o chão para que as fezes fossem transportadas para o rio. Uma massa consistente, preta, corria pela calha. O jovem encheu sua mão com ela e colocou-a sobre a cabeça. O sumo espesso espalhou-se lentamente e, enquanto escorria, deslizou sobre seu rosto. A seguir, o homem apanhou mais uma porção, levou-a à boca e engoliu com dificuldade. Todavia, o estômago rebelou-se e ele teve de vomitar. Encheu a mão mais uma vez, vergado pelo enjôo. A partir daí o estômago acostumou-se, e o homem devorou uma porção atrás da outra daquela porcaria opaca, preta, malcheirosa.”

“O homem jovem”, explica Hans-Jürgen Greschat, “era um daqueles hindus que acreditam literalmente na doutrina de que tudo é brahman, ou seja, que deus está presente em tudo, tanto no pão quanto nos excrementos. São devotos do deus Shiva que moram nos crematórios e que, às vezes, se alimentam de cadáveres. Enquanto eles existirem, farão parte do hinduísmo.”.

Parece inacreditável, mas essas coisas acontecem, e quantas outras atividades estranhas não devem ocorrer em outras partes do planeta, as quais sequer poderíamos imaginar existirem, como o caso relatado acima? Um viajante desatento, muito provavelmente, ao testemunhar um fato como esse que acabamos de ler é capaz de voltar para casa afirmando, categoricamente, que na Índia as pessoas comem fezes e bebem água de fossa. Com o tempo, se mais e mais pessoas repetirem essa história, será difícil mudar o imaginário popular, e o que era um fato isolado, acaba tornando-se o costume de toda uma população.
Um exemplo prático de como funciona o imaginário: qual é a idéia que se faz da mulher brasileira no exterior? Nem é preciso responder, e posso garantir que conheço algumas que já sentiram na pele as conseqüências dessa visão estigmatizada, preconceituosa e deturpada. Portanto, um bom viajante deve saber como educar o seu olhar e, principalmente, ter em mente que uma viagem, por mais intensa que tenha sido, não lhe dá crédito para tirar conclusões generalizadas sobre qualquer cultura diferente da sua. Esse tipo de atitude é muito comum na literatura odepórica, quando, no calor das emoções, o viajante narra suas impressões sobre um determinado local ou acontecimento e julga toda uma cultura a partir de um fato isolado. O resultado disso nós ouvimos o tempo todo: os franceses são antipáticos, os argentinos idem, os americanos ignorantes, os japoneses falsos, os mineiros desconfiados, os baianos preguiçosos, os cariocas malandros, os europeus nórdicos frios, os latinos “calientes” e a lista não termina nunca. Claro que existem características próprias inerentes a cada cultura, mas isso não significa que estas devam ser entendidas (e tratadas) como um estigma, uma marca indelével. Para refletir.

O livro que me inspirou a escrever esse post foi “O que é Ciência da Religião”, Hans-Jürgen Greschat, Ed. Paulinas, São Paulo, 2005. Altamente recomendado para quem estuda ou apenas se interessa por religião e pesquisas relacionadas a essa área.

Um comentário :

  1. Oi César, estranhei o título desta matéria, mas foi uma ótima escolha para salientar o que é o pré-julgamento e como isso é perigoso se empregado no relato de viagem. Seus comentários e a passagem escolhida foram perfeitos. Beijocas

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