sábado, 12 de setembro de 2009

Carma-Cola, by Gita Mehta

.
.


Li duas vezes, num intervalo de tempo relativamente longo, a obra Carma-Cola, de Gita Mehta. Na primeira leitura, achei que havia errado o momento. Isso quer dizer que, de maneira inadvertida, havia começado a ler a obra num momento em que não estava de fato interessado naquele tipo de tema. Acredito que isso deva acontecer com muitas pessoas, o fato de ter um livro bom nas mãos mas não se apaixonar muito pela narrativa. Nove anos depois resolvi dar uma nova chance ao livro e confesso que dessa vez me entusiasmei um pouco mais, embora essa obra não esteja entre as minhas leituras prediletas sobre a Índia. Mesmo assim, valeu a pena pescar algumas passagens bem interessantes sobre os costumes da cultura indiana, e sobre algo que me interessa em especial, que é a leitura que um povo faz sobre o outro quando em contato direto, como costuma acontecer em muitas viagens.


Acho que um dos motivos de não ter aproveitado melhor as impressões de Gita Mehta sobre a Índia tem a ver com o estilo narrativo da autora; há passagens em que você simplesmente não consegue entender a mensagem, geralmente fragmentos soltos de um pensamento em voz alta (uma impressão minha) que, se funciona para alguns escritores, não me pareceu funcionar para Gita em muitos momentos.


Entretanto, há passagens em Carma-Cola que valem o preço pago, principalmente se o leitor tem interesse pela religiosidade hindu e pelas (frequentemente) absurdas histórias que nos chegam da terra de Ganesha quando o assunto é a relação guru/discípulo. Um ponto a favor da autora é que, mesmo sendo de origem indiana, ela consegue manter um afastamento providencial na hora em que se dedica a narrar alguns acontecimentos e incidentes que ela mesma presenciou ou lhe contaram, entre seus patrícios e os ocidentais malucos que perambulam pelo subcontinente indiano à procura de iluminação, quase sempre a qualquer preço. Também é divertido reconhecer alguns gurus que não aparecem nominados na obra, em situações que estão longe da “beatitude” que se espera de um yogue, embora essa visão só seja divertida para os “iniciados” nas leituras dos homens santos da Índia.


Nem sempre as passagens dessa obra são divertidas, muito pelo contrário. Há nesse processo da relação guru-discípulo histórias muito tristes, às vezes até mesmo trágicas, de pessoas que Gita chama de “vítimas do turismo espiritual”.

“... aqueles que visitam a Índia não foram informados vezes suficiente, ou de maneira popularmente compreensível, que a experiência do Oriente simplesmente não é acessível à mente ocidental, a não ser que a pessoa passe por uma reeducação quase total. Contudo, a falácia costumeira de que sentar-se por longos períodos de tempo na posição de lótus tem o efeito de avançar o indivíduo até a metade da roda da existência não só não está sendo negada como é ativamente propagada por muitos ashrams atualmente em voga. Os gurus ignoraram uma diferença primária entre eles e seus discípulos.”

É muito fácil perceber que a escritora está coberta de razão, pois qualquer pessoa um pouco mais esclarecida consegue ver como as religiões/seitas/ordens/grupos hoje identificam-se como produtos muitas vezes prontos para serem consumidos como um fast-food espiritual, numa versão pós-moderna das sacolinhas balançadas às portas das igrejas na Idade Média, amealhando moedas em troca de salvação. Nesse contexto pouca coisa mudou.


A seguir vamos ler algumas das passagens que mais me tocaram e que acredito também lhe parecerão interessantes.

Sobre a Deusa Kali

Outro comerciante, mal discernível em meio a colares de contas, mandalas pintadas em tecido e lamparinas de bronze suspensas por correntes de ferro, tudo pendurado do teto de sua pequena loja, espiou-me preocupado por entre as mercadorias.

“Às vezes me pergunto o que vai ser desses viajantes. Eles não andam com os indianos. São como crianças, sabe. Não somos nós, mas nossos deuses que os confortam. Eles gostam de coisas familiares, como contas de mala (colar/terço) e incenso. Ficam felizes de encontrar tanta variedade, contas de sândalo, contas de marfim. Rosa, jasmim, tantos tipos diferentes de incenso.”

Seu ajudante, um homem mais moço de calça justa e cabelo bem untado, interveio com irritação. “Eles são loucos. Tudo bem, quando sabem o que fazer com essas coisas. Seria melhor que fossem embora, que fossem adorar a Mãe Maria na igreja deles com os malas e o incenso. Mas eles não querem a Mãe Maria. Querem Kali. Isso mostra que têm mau caráter.”
O homem mais velho reconsiderou sua posição.

“Não, eles não são ruins. Mas acho que não gostam mais de beleza. Veja, vem uma mulher, digo, leve a deusa Saraswati tocando vina. Ou Tara, como esta bela peça aqui, com a turquesa na testa. Ou pelo menos leve Durga Mata cavalgando seu tigre. Não, elas querem Kali, com a sua grinalda de crânios, bebendo sangue. Falo que vai assustar os filhos delas. Elas dizem que a Mãe kali mostra a força da fêmea. Me diga, irmã. O que elas querem dizer com isso?”.

Carma-Cola?

Um anúncio publicado em revistas estrangeiras da companhia aérea nacional indiana, que cuida de todo o tráfego aéreo dentro do país, alardeava uma tarifa que oferecia “Nirvana a US$100 por dia”.

Um guru que tem um ashram na Índia ocidental, com um grande número de seguidores estrangeiros, confidenciou a um correspondente da revista Time:
“Meus seguidores não têm tempo. Então dou-lhes salvação instantânea. Transformo-os em neo-sanyasis”.

Um sanyasi na Índia está a meio caminho de ser um santo, um homem que renunciou ao mundo para buscar a verdade, uma renúncia que é tanto social quanto física. Seus votos não são significativamente diferentes daqueles que entram para mosteiros no Ocidente – dedicação à pobreza, castidade, e se o sanyasi tem um mestre, obediência. Mas o hinduísta simplório, quando encontra dois estrangeiros de pele clara no bazar, compartilhando um cachimbo de haxixe enquanto se acariciam, está pronto para pensar que os estrangeiros estão usando os trajes cor de laranja do sadhu como um ato de zombaria agressiva. O hinduísta simples, ao contrário do guru sofisticado, não incorporou conceitos tais como “neo” ou “instantâneo” ao seu vocabulário, tanto diário quanto religioso.

Parece que quando o Oriente encontra o Ocidente, tudo que você consegue é o neo-sanyasi, o Nirvana instantâneo. Chegando ao problema vindo de diferentes direções, ambos os lados acabaram na mesma conclusão, a saber, que a arma mais eficaz contra a ironia é reduzir tudo ao banal. Você fica com o Carma, nós levamos a Coca-Cola, um refrigerante metafísico por um físico.”

Deus existe?

Há outro guru que estimula a fé de seus seguidores num estádio de futebol de Delhi prometendo uma prova da existência de Deus. O homem tem sido visto realizando milagres às pencas, de tal forma que as pessoas estão predispostas a lhe conceder insight sobrenatural na lógica e na semântica. As massas esperam resfolegantes.

O guru lhes informa, por meio de um tradutor simultâneo, que Deus existe porque se você olhar no Dicionário de Inglês de Oxford, na letra G, acabará encontrando a palavra God. Triunfal, o guru ergue seus braços curtos abençoando a platéia perplexa mas crente, sentada em fileiras apertadas no vasto campo onde, seis horas antes, atletas suados correram atrás de uma bola e anuncia:

“Está no dicionário. Aqueles que duvidam da existência do divino, que procurem a prova no dicionário. Como poderia o que não existe estar no dicionário?”.

O número de adeptos desse guru se tornou tão grande nos últimos anos que ele tem agora de dar sua benção de um helicóptero. No seu aniversário, hinos de louvor irrompem das gargantas de um milhão de crentes terrenos, dirigidos à pequena pinta cor de laranja de certeza acenando para eles de uma máquina voadora.

Sobre Benares

Benares está ficando diariamente mais divertida. É a cidade nas margens do rio Ganges, em sua confluência mais sagrada. O coração da Índia hinduísta, com os paradoxos expostos em seqüência perfeita. Primeiro, o rio: mortalidade e imortalidade. Depois, os templos: devoção e profanidade. Depois, os bazares: comércio e caridade. Depois, os mendigos: pobreza e santidade.

“Ouça, querida”, dizia o quebra-galhos da embaixada americana. “Não posso vê-la nesta tarde. Um de nossos rapazes puxou um revólver e matou outro de nossos rapazes num templo perto de Benares. Provavelmente uma briga por drogas, mas tenho de ir até lá e resolver as coisas. Vamos nos encontrar quando eu voltar, certo?”

Foi nessa cidade que se originou a rota do brocado, com seus artesãos levando para o Nepal, o Tibete e a China não apenas seu conhecimento de seda e tecelagem, mas também os segredos da sabedoria hinduísta, até que a maior expansão de terra e gente da terra tivesse ouvido e aceito os conceitos de reencarnação e moksha, libertação.

“Você realmente não vai querer ver o que foi feito de Benares nos últimos anos”, disse o fotógrafo alemão. “Há morfina por toda parte. Feridas nos braços. Gente morrendo nas ruas.”

É a cidade para onde vão as viúvas dos encraves hinduístas conservadores que consideram casar-se com uma viúva uma obscenidade só comparável à necrofilia. Com seus sáris brancos e cabeças raspadas, elas podem ser vistas em todos os templos, pedindo esmolas aos peregrinos que vêm oferecer orações aos seus ancestrais.

Outros mendicantes são sadhus das montanhas, nus e carregando o tridente de ferro para mostrar sua lealdade ao deus Shiva. Alguns mendigos são praticantes do tantrismo, buscando realizar a não-existência do bem e do mal, rompendo tabus ao pedir esmolas para pessoas de qualquer casta. Outros são hippies, garantindo a sobrevivência da maneira mais fácil.

Os hippies originais eram mais do que mendigos. Eram pioneiros que descobriram os ghats (escadarias que dão acesso ao rio) de cremação. A Índia é provavelmente o único país que permite que o turista trate a morte como um esporte a ser assistido, e atualmente cresce o número daqueles que vêm em busca dessa experiência. As viagens ao desconhecido são monogramadas pela sensação – não pela fotografia-, e poucos lugares são mais sensacionais do que os ghats de Benares – o lugar onde todos os devotos hinduístas esperam ser cremados.

Inevitavelmente, aqueles que realizam as cremações exercem seu poder sobre os devotos e alguns deles usam esse poder impiedosamente. Os sacerdotes discutem com as famílias enlutadas o preço e a quantidade de sândalo e de manteiga clarificada a serem usados na pira funerária, para ajudar na ignição e na salvação. Travam-se batalhas em sânscrito enquanto o corpo queima. E quando, finalmente, as negociações se concluem, o corpo está sendo queimado com sucesso e a cabeça do cadáver explodiu, então começa uma nova transação: o preço do guarda que cuidará do corpo até que ele esteja reduzido a cinzas, despesa necessária porque entre o grande número de sadhus presentes nos ghats pode haver algum que esteja tentando erguer-se acima da moral convencional mediante a ingestão de carne humana.



Leia: Carma-Cola: o marketing do Oriente místico, de Gita Mehta. Escrito em 1979, foi editado no Brasil vinte anos depois pela Companhia das Letras, São Paulo. A tradução é de Pedro Maia Soares.

Um comentário :

  1. Oi Paulo, vc vende qualquer matéria que vc desenvolve uma resenha. Não é a primeira vez que a sua análise é melhor do que o texto publicado. Bem, se eu não pudesse pegar este livro emprestado com vc, provavelmente eu o compraria. :-) Beijocas.

    ResponderExcluir