quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A arte de passear, by Karl Schelle

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Acabo de ler uma pequenina obra intitulada A arte de passear escrita pelo filósofo alemão Karl Gottlob Schelle no ano de 1802. Trata-se de um estudo, como o próprio título indica, sobre a arte de passear, num tempo (final do século XVIII) em que o passeio era um sinal distintivo de certas camadas (abastadas) da sociedade, como podemos assistir em vários filmes hollywoodianos que abarcam o período, com as mulheres cheias de rendas e vestidos ajustados, luvas brancas e sombrinhas rococós, ao lado de cavalheiros de cartola e sapatos lustrosos, tudo nos parecendo tão inadequado para o local em que estavam, um campo com o mato na altura dos joelhos, a beira de um regato barrento....como conseguiam?

Enfim, o que Schelle fez com muita classe foi dar a essa atividade, aparentemente tão banal, um status à altura de sua possibilidade de permitir que o passeante (termo meu, não dele) consiga, influenciado pela natureza que o circunda, filosofar sobre a vida. Particularmente, sem querer menosprezar o trabalho do alemão, acredito que não é preciso ser filósofo para saber que uma boa caminhada é um santo remédio para ajudar a por os pensamentos em ordem, a cabeça no lugar, arejar a cuca, essas coisas todas. E se a gente puder tirar uma soneca depois, melhor ainda.

Mas o bacana do estilo de Schelle é a maneira como ele consegue escrever sobre um assunto ordinário, como por exemplo, caminhar numa alameda, ou num pasto, ou num bambuzal, qualquer sítio, e fazer disso um acontecimento com uma aura de complexidade que afugenta qualquer leitor que ache a filosofia um porre. Para ser sincero, eu não tenho muita paciência com textos que me obrigam a ler uma mesma passagem duas ou três vezes, mas sei que isso é uma questão de treino, de se acostumar também com o estilo e o raciocínio do autor. Por isso, dei uma chance ao Schelle (fiquei íntimo dele agora) e não é que me diverti muito com sua leitura? Vai ver que é porque ele faz parte do que chamam de filosofia popular, como leio agora no prefácio (que ganhou o genial título de “Passeios pelos campos da utopia”), que explica que o objetivo dessa filosofia era o de reconciliar-se com o cotidiano, apartando-se do meio acadêmico. Mais sobre a filosofia popular: “A história da filosofia popular remonta na verdade a meados do século XVIII (...) Tratava-se de listar as diferentes disposições e qualidades humanas, de desenvolvê-las e conduzir o espírito humano a nelas aplicar sua reflexão. Não foi por acaso que também nessa época começou-se a ter interesse pela antropologia e pela etnografia e foram publicados numerosos relatos de viagens, alguns dos quais são citados nas notas de Schelle.”

O mérito de Schelle, insinua claramente o autor desse prefácio, foi o de ter sido o primeiro filósofo a teorizar a atividade do passeio. E eu gostei dele mais ainda depois de saber disso, porque estou convicto de que um passeio – que eu também estendo às viagens de um modo geral – são atividades que merecem muito esse olhar mais atento, que me parece acontecer, quase sempre, apenas dentro do contexto capitalista da situação; o mercado das viagens gera grandes riquezas e dividendos, e isso é bom, mas também é importante para nós compreender os outros benefícios do deslocamento, que vão muito mais além do que a simples noção do bem estar físico e mental. Um passeio, uma viagem, até mesmo uma volta no quarteirão da casa em que você vive, quando feitos com a mente aberta, receptiva, podem transformar a vida não só da pessoa que deambula, mas também das que lhe são próximas. Evidentemente isso vai depender dos propósitos, do momento, da capacidade mental, do amadurecimento psicológico, do que Schelle chama de “ocupação do espírito” e de muitos outros fatores. E por aqui paro porque não sou filósofo e nem pretendo filosofar.

Tive, como é de praxe aqui no Odepórica, que escolher uma passagem interessante da obra retratada. Só para situar você que está lendo esse texto, o autor discorre sobre os mais variados tipos de passeios: nas alamedas, em jardins, montanhas, vales, campo, pradaria e floresta e outras situações (passeios a pé, a cavalo, de coche, os fenômenos da natureza, etc.). Escolhi a passagem em que Schelle divaga sobre o passeio pelas montanhas (porque minha irmã que vive próximo às montanhas no Canadá irá gostar), mas qualquer outra segue o mesmo estilo descritivo. Dê uma chance ao alemão e veja como o produto de sua escrita é na verdade um exercício filosófico de difícil execução. Para mim, as reflexões filosóficas de Schelle se aproximam muito de um processo meditativo, uma espécie de meditação em movimento, onde cada passo, cada parada para retomar o fôlego, vêm acompanhados de pequenos momentos de realização interior, que podem ganhar, dependendo do sucesso da empreitada, uma dimensão bem maior do que aquela imaginada antes do início da jornada.

Montanhas (cap. 12)

As montanhas e os vales não são os menores ornamentos de uma paisagem. A natureza não tem aí essa monotonia cansativa que transforma um grande trajeto através de uma região plana em sonolência melancólica. Ao contrário, o espírito fica tenso e revigorado pela alternância de montanhas e vales, e assim fica desperto e animado pela alternância de diferentes impressões.

Em si as montanhas, essas excrescências que dilatam a superfície plana da Terra, não são um ornamento do lugar onde se encontram. Semelhantes aos montículos num prado, elas dão à Terra um aspecto repulsivo, como as pústulas num rosto humano. Vistas de um balão, com uma luneta, elas não deixariam de causar essa impressão repulsiva. Sem contar que são um obstáculo às comunicações, tornadas assim difíceis. Mas o que elas perdem do ângulo da razão, ganham do ângulo da estética. Sua situação elevada ativa a imaginação de forma pouco usual, e torna a natureza atraente pela diversidade e força das impressões.

Na medida em que, segundo o plano da natureza, povoamos a superfície da Terra e não os ares como os pássaros, podemos fazer apenas uma idéia da desordem que as montanhas imprimem à Terra, mas não a experimentamos. As montanhas só nos aparecem na perspectiva que nos coloca face a face com elas, e apenas essa impressão natural dos sentidos determina portanto o julgamento que fazemos delas.

Da mesma forma que as montanhas tornam difícil uma comunidade de vida entre as pequenas cidades que ali estão disseminadas, elas transformam muitas vezes as regiões mais retiradas, na imaginação daquele que, do topo de uma montanha, abarca com o olhar uma grande quantidade de vilarejos e cidades, em uma comunidade abstrata e enganadora. Por esse motivo, elas também têm um efeito favorável pelo viés da imaginação. Como diante do Etna, por exemplo, elas permitem à imaginação reunir, por uma verdade tangível e uma impressão direta dos sentidos, as regiões e os países inteiros que espaços imensos separam. Desse modo elas ampliam ao infinito o campo da imaginação.

Quando, durante um passeio, se sobe uma montanha para, uma vez ao alto, desfrutar de uma vista elevada, percebe-se que a paisagem embaixo realça sempre mais, à medida que se sobe. Aquele que subisse sem parar, nem se voltar, perderia o prazer desse panorama que não pára de se transformar. Ele estaria apenas perseguindo uma meta que se teria fixado, sem imaginar que já poderia saborear numerosos prazeres no caminho. Na verdade, um passeio digno desse nome, que deve portanto evitar degenerar em uma expedição fatigante ou se reduzir a um simples movimento do corpo, deveria convidar a essas pausas, que transformam então a ascensão de uma montanha em um verdadeiro passeio, por uma caminhada tranqüila associada a uma ocupação do espírito. O espetáculo de uma paisagem que se desvenda pouco a pouco é para o espírito um prazer particular.

Os passeios numa montanha ou numa cadeia de montanhas que não apresentam grandes dificuldades e desvendam um amplo panorama elevam o espírito de maneira incomparável. Como poderia ser de outra forma, quando se tem o orgulho de passear nas regiões altas da Terra, diante do céu, sobretudo quando o olhar mergulha no mundo estendido embaixo? Como a imaginação, mesmo a mais indolente, poderia não se sentir tocada por uma tal diversidade de objetos e de pontos de vista, que nenhum outro passeio pode oferecer? Quando não nos demoramos muito tempo no mesmo lugar, usufruímos de uma vista sempre diferente, de um prazer leve que não detém a ação das forças da alma necessárias ao passeio, enquanto o observador imóvel se deixa facilmente levar pela seriedade, pelas quimeras mais loucas, e mergulha numa reflexão que vai além da impressão das coisas.

Da mesma forma que na subida, o panorama se revela, na descida, sob um aspecto particular e sempre cambiante. A única diferença é que, na descida, a paisagem, que se oferecia inteira quando se estava no alto, se subtrai pouco a pouco ao olhar, na mesma medida em que se desvendava na subida. Contudo, a impressão da paisagem se revelando na subida surpreende mais do que o pode fazer a impressão de dissipação progressiva na descida, quando o panorama se comprime cada vez mais e os objetos já nos são conhecidos pela primeira impressão que tivemos na subida. Se quiséssemos reservar-nos ainda a novidade das impressões, teríamos que descer da montanha por uma vertente diferente daquela por onde tínhamos subido. No entanto, descer a montanha pela vertente pela qual se subiu tem também seu encanto, para verificar a impressão que pôde produzir essa montanha sobre o espírito, mas em sentido inverso.

Uma vez de volta, quando nos encontramos novamente no sopé da montanha em que acabamos de subir e olhamos os objetos que a rodeiam, aparecendo do seu topo todos de tamanho reduzido, espantamo-nos de ver que tudo o que parecia até aí convergir e se aproximar do solo se entende, de repente e retoma seu relevo.

Leia: A arte de passear, de Karl Gottlob Schelle. Editora Martins Fontes, 2001. Não é para qualquer um, mas pode ser para você.

Um comentário :

  1. Oi Pá, vc não poderia ter escolhido uma passagem melhor, ainda mais pq nesta semana que passou subi e desci tantas ladeiras e montanhas que entendi exatamente o que Mr. Schelle disse. Apenas um comentário, como vc ficou íntimo dele, vc pode chamá-lo pelo primeiro nome, não é? Outra coisa, esta foi a matéria mais despojada que vc blogou. Me diverti bastante com seus comentários e p/ variar adore! Beijocas

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