quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Por que viajamos, by Pico Iyer. Parte I

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Pico Iyer nasceu em Oxford, Inglaterra, em 1957. Filho de pais indianos, é um dos mais reverenciados travel writers da atualidade. Escreveu seis livros de ensaios e dois romances. No Brasil, foram publicadas duas obras suas: Cuba e a Noite (1997) e O Caminho Aberto: um Dalai-Lama na Era Global (2009). O texto que escolhemos para introduzir esse autor tão respeitado no exterior e ainda pouco conhecido por aqui, Why we travel, é um verdadeiro tratado sobre a arte de viajar. É vibrante, inteligente, introspectivo. Por ser um pouco extenso para os padrões de um blog – ainda que o Odepórica não siga essa tendência de postagens mais curtas, características dos blogs de um modo geral, irei publicar o texto na íntegra dividido em três partes. O lado bom é que você, leitor, poderá assimilar a riqueza das palavras de Pico Iyer aos poucos, fazendo dessa leitura uma experiência quase contemplativa. Afinal, um bom viajante nunca tem pressa de chegar ao seu destino, não é mesmo? Boa leitura.

Por que viajamos, by Pico Iyer


Nós viajamos, em primeiro lugar, para nos perdermos; e em seguida, viajamos para nos encontrarmos. Nós viajamos para abrirmos nossos corações e olhos e para aprendermos mais sobre o mundo do que aquilo que nos é noticiado pelos nossos jornais. Nós viajamos para trazermos um pouco do que pudermos, em nossa ignorância e conhecimento, daquelas partes do globo nas quais os ricos estão diversamente dispersos. E nós viajamos, em essência, para nos tornarmos jovens tolos novamente – para diminuir a velocidade do tempo e absorvê-lo, e nos apaixonarmos mais uma vez.
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A beleza de todo esse processo foi melhor descrita, talvez, antes mesmo das pessoas viajarem com freqüência de avião, por George Santayana no seu ensaio lapidário, “The Philosophy os Travel” (A Filosofia da Viagem). “Às vezes” - escreveu o filósofo da Harvard – “nós precisamos escapar em direção a lugares ermos, sem um propósito definido, em férias onde haja espaço para algo arriscado, aventureiro, de modo a estimular os limites da vida, a testar o sofrimento e a privação, e para ser impelido a trabalhar desesperadamente por um momento, não importa qual.”

Eu gosto daquele stress no trabalho, desde que nunca mais do que na estrada na qual nos é mostrado como nossas bênçãos são proporcionais às dificuldades que as precedem; e eu gosto do stress nas férias que seja edificante, desde que isso esteja de acordo com nossos costumes morais tão facilmente quanto cair na cama à noite. Alguns de nós sempre esquecemos a conexão que existe entre “travel” (viajar) e “travail” (labutar), e eu sei que viajo em grande parte em busca da privação – tanto a minha, a que desejo sentir – quanto a de outros, as quais eu preciso ver. Viajar nesse sentido nos guia em direção a um equilíbrio melhor em sabedoria e compaixão – em ver o mundo mais claramente, de senti-lo de maneira legítima. Pois ver o mundo sem sentimento é sinal de indolência, ao passo que senti-lo sem vê-lo pode ser sinal de cegueira.

Para mim, a primeira grande alegria de viajar é simplesmente o luxo de deixar em casa todas as minhas crenças e certezas, e enxergar tudo aquilo que eu pensei que eu soubesse sob uma luz diferente, e de um ângulo tortuoso. Nesse aspecto, até mesmo uma lanchonete da Kentucky Fried Chicken (em Beijing) ou uma apresentação tosca de “Orquídea Selvagem” (na Champs-Elysees) podem ser experiências inovadoras e reveladoras: na China, acima de tudo, as pessoas pagarão o salário de uma semana para comer com o Coronel Sanders (o autor se refere ao ícone americano que representa a cadeia KFC), e em Paris, Mickey Rourke (protagonista do mal falado filme “Orquídea Selvagem”) é saudado como o melhor ator desde Jerry Lewis.

Se um restaurante mongol nos parece exótico em Evanston, Ilinóis, o mesmo acontece com o McDonald’s em Ulan Bator – ou, pelo menos, igualmente além de qualquer coisa que se pudesse esperar. Considerando que ultimamente está na moda fazer distinção entre “turista” e “viajante”, talvez a verdadeira distinção se dê entre aqueles que deixam suas conjecturas em casa, e aqueles que não. Entre os que não deixam, um turista é apenas alguém que se lamenta, “Aqui nada é igual ao jeito que é em casa”, enquanto um viajante é alguém que murmura, “Tudo aqui é igual ao Cairo – ou Cuzco ou Kathmandu”. É tudo a mesma coisa.

Mas para o resto de nós, a soberana liberdade de viajar provém do fato de que isso mexe com você, te põe de cabeça para baixo, e coloca tudo o que você julgava garantido em seu lugar. Se um diploma pode ser um excelente passaporte (para uma jornada através de um realismo rígido), um passaporte pode ser um diploma (para um curso de impacto em relativismo cultural). E a primeira lição que nós aprendemos na estrada, quer gostemos ou não, é como as coisas que nós imaginamos ser universais são provisórias e provincianas.

Quando você vai para a Coréia do Norte, por exemplo, você realmente sente estar aterrisando em um planeta diferente – e os norte-coreanos sem dúvida sentem que estão sendo visitados por um extraterrestre também (ou senão, eles simplesmente assumem que você, assim como eles, recebe ordens cada manhã do Comitê Central sobre que roupa vestir e qual rota usar quando for caminhar para o trabalho, e você, tal como eles, possui alto-falantes no seu quarto apresentando propaganda política a cada amanhecer, e você, como eles, tem os seus rádios programados para receber notícias de um único canal fixo).

Nós viajamos, então, em parte para chacoalhar nossas complacências ao ver todas as necessidades políticas e morais, os dilemas de vida e morte, que nós sempre temos que encarar em casa. E viajamos para preencher as lacunas deixadas pelas manchetes do dia seguinte: Quando você dirige pelas ruas de Porto Príncipe, por exemplo, quando quase não há pavimento e as mulheres se aliviam próximo a montanhas de lixo, suas noções de Internet e de uma “ordem mundial” começam convenientemente a ser revisadas. Viajar é a melhor maneira que nós temos de resgatar a humanidade dos lugares, salvando-os da abstração e da ideologia.

E nesse processo, nós também nos salvamos da abstração, e vemos o tanto que podemos levar aos lugares que visitamos, e como nós podemos nos tornar um tipo de pombo correio – um anti-Federal Express, se você gostar – ao transportar para frente e para trás aquilo que cada cultura necessita. Percebo que eu sempre levo um pôster do Michael Jordan para Kyoto, e trago cestas trançadas de ikebana de volta à Califórnia; eu invariavelmente viajo à Cuba com uma mala cheia de frascos de Tylenol e de sabonetes em barra, e volto com outra lotada com gravações de salsa, e esperança, e cartas a irmãos há muito desaparecidos.

Porém, mais significantemente, nós levamos valores, crenças e notícias aos lugares que vamos, e em muitas partes do mundo, nós nos tornamos telas de vídeo ambulantes e jornais vivos, os únicos canais que conseguem tirar as pessoas dos limites da censura de sua terra natal. Em lugares fechados ou empobrecidos, como Pagan, Lhasa ou Havana, nós somos os olhos e os ouvidos das pessoas que conhecemos, seu único contato com o mundo externo e, muitas vezes, o mais próximo, quase literalmente, que eles chegarão de Michael Jordan ou Bill Clinton. O desafio mínimo de uma viagem, pelo menos, é o de aprender como importar – e exportar – sonhos com ternura.

É provável que muitos de nós já tenhamos ouvido (com bastante freqüência) a velha fala de Proust sobre como a verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novos lugares, mas em enxergar com novos olhos. No entanto, uma das belezas mais sutis de uma viagem é que ela lhe permite levar novos olhos às pessoas que você encontra. Deste modo até mesmo as férias contribuem para que você aprecie mais o seu próprio lar – nem tanto por enxergá-lo através dos olhos de um admirador distante – elas ajudam a trazer novamente olhos que sabem apreciar os lugares que você visita. Você pode ensiná-los o que eles devem celebrar tanto quanto você pode celebrar o que eles têm para ensinar.
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É deste modo, penso, como o turismo, que tão obviamente destrói culturas, pode também ajudar a ressuscitá-las ou reavivá-las, como tem acontecido com as novas danças “tradicionais” em Bali, e com os artesãos na Índia, que passaram a prestar mais atenção aos seus trabalhos. Se a primeira coisa que nós pudermos levar aos cubanos for um sentido real e equilibrado de como é a América contemporânea, a segunda – e talvez a mais importante – coisa que nós podemos mostrar-lhes é um sentido fresco e renovado de quão caloroso e belo é o seu país, para aqueles que puderem compará-lo com outros lugares ao redor do globo.

Assim, viajar nos faz girar em dois sentidos de uma vez: mostra-nos os aspectos, os valores e as questões que normalmente poderíamos ignorar; mas também, e mais profundamente, mostra-nos todas as partes de nós mesmos que de outra maneira poderiam enferrujar. Pois ao viajar para um local verdadeiramente estrangeiro, nós inevitavelmente viajamos por humores e estados de espírito e passagens escondidas que de outras maneiras dificilmente teríamos motivos para visitar.

4 comentários :

  1. Oi Césare, o começo desta matéria é estonteante. Não demore para publicar as 2 outras partes.
    Beijos

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  2. Oi Cesare! Eu ja tinha lido a versão original tem um bom tempo ... e reler em português foi bem legal! A tradução ficou bem interessante. Posso compartilhar esse post no meu blog, com devidos creditos e links para cá, claro!

    um grande abraco

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  3. Muito bom texto e tomei conhecimento dele através do blog Vou Sair Para Ver o Céu, que adoro acompanhar. Excelente e vou compartilhar!

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  4. Que bacana, VPA! Obrigado pela visita, apareça!

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