sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Por que viajamos, by Pico Iyer. Parte 3, final.

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O outro fator complicador e emocionante de tudo isso são as pessoas, cada vez mais habituadas a conviver com diferentes idiomas e mestiçagens, fato comum em cidades como Toronto, Sydney ou Hong Kong. Eu mesmo sou, em muitos sentidos, uma espécie típica e crescente disso, pois nasci na Inglaterra, sou filho de pais indianos, me mudei para os Estados Unidos aos sete anos e não posso dizer que seja um americano, um indiano ou um inglês. Fui, desde pequeno, um viajante de nascimento, para quem até mesmo uma visita à loja de doces era uma viagem a um mundo estrangeiro, onde ninguém que eu visse combinava com a herança cultural de meus pais – ou com a minha mesma. E embora parte disso seja involuntário e trágico – o número de refugiados no mundo, que chegou a 2,5 milhões em 1970, hoje já atinge pelo menos 27,4 milhões – também envolve, para alguns de nós, a chance de sermos transnacionais em um sentido mais alegre, aptos a nos adaptar em qualquer lugar, a nos acostumar a sermos estrangeiros em qualquer local e forçados a modelar rigorosamente nossos próprios conceitos de lar. (E se nenhum lugar é como o nosso lar, podemos ser otimistas em qualquer lugar).


Além disso, mesmo aqueles que não se movem ao redor do mundo, vão encontrar cada vez mais o mundo se movendo ao redor deles. Caminhe apenas seis quarteirões no Queens ou Berkeley, e você estará viajando por diversas culturas em poucos minutos; desça de um táxi em frente à Casa Branca e você muitas vezes se sentirá em Addis Abeba. A tecnologia, também, aumenta esse sentido de disponibilidade (às vezes de maneira ilusória), de modo que muitas pessoas sentem que podem viajar pelo mundo sem sair do quarto – através do cyberspace ou de CD-ROMs, vídeos e viagens virtuais. Há muitos desafios nisso, naturalmente, no que diz respeito sobre as noções de família, comunidade e lealdade e a preocupação de que as versões puramente sintéticas dos lugares possam substituir a coisa real – para não mencionar o fato de que o mundo parece aumentar como uma torrente, um alvo que se movimenta tão rápido que não se consegue percebe-lo. Mas existe, pelo menos para o viajante, a noção de que aprender sobre a sua origem ou sobre um mundo exterior pode ser uma única e mesma coisa.


Todos nós sentimos isso desde o berço, e sabemos, de algum modo, que todo o movimento significante que alguma vez fizemos se deu no âmbito interno. Nós viajamos quando vemos um filme ou travamos uma nova amizade. Romances (literários) muitas vezes são viagens tanto quanto livros de viagem são ficção; e ainda que isso seja um fato desde que Sir John Mandeville narrou seus pitorescos contos do século 14 sobre o Oriente - que ele nunca visitou – há uma distinção ainda mais obscura agora, quando gêneros distintos se juntam a outras fronteiras em colapso.


Em sua obra “House Arrest”, um disfarce sutil sobre a Cuba de Fidel Castro, Mary Morris reitera, na página dos direitos autorais, “Todos os diálogos são inventados. Isabella, sua família, os habitantes e até mesmo a ilha foram criações da imaginação da autora.” Entretanto, na página 172, pode-se ler: “A ilha, é claro, existe. Não deixe ninguém lhe enganar sobre isso. Pode parecer que não existe. Mas ela existe.” Não é de admirar que a narradora do relato de viagem – uma construção ficcional (ou não?) – confesse que dedica sua coluna na revista de viagem a lugares que nunca existiram. “Erewhon”, afinal de contas, a terra desconhecida do romance de Samuel Butler, é apenas a palavra “nowhere” (“lugar nenhum”) reajustada.


Viajar, então, é uma aventura rumo a uma zona reconhecidamente subjetiva, a imaginação, e o que o viajante traz na volta é – e tem que ser – um componente inefável dele mesmo e do lugar, o que de fato se encontra lá e aquilo que somente existe nele. Embora os livros de Bruce Chatwin pareçam oscilar entre fato e fantasia, V.S. Naipaul teve sua obra “A Way in the World” (1994) publicada como não-ficção na Inglaterra e como “romance” nos estados Unidos. E quando alguns dos contos de Paul Theroux, da obra “My Other Life” (“Minha Outra Vida”, 1996, um livro de memórias meio-inventado) foram publicados no The New Yorker, eles foram categorizados dissimuladamente como “Fato e Ficção”.


E sendo a viagem, de certo modo, uma trama entre percepção e imaginação, os dois maiores travel writers, para mim, aos quais eu constantemente volto são Emerson e Thoreau. Ambos insistem no fato de que a realidade é uma criação nossa, e que nós inventamos os lugares que vemos da mesma forma que fazemos com os livros que lemos. Aquilo que encontramos fora de nós tem que estar dentro de nós para que possa ser encontrado. Ou, como sabiamente colocou Sir Thomas Browne (1605-1682), “Nós carregamos em nosso interior as maravilhas que buscamos em nosso exterior. Existe uma África e seus prodígios dentro de nós.”


Portanto, se cada vez mais temos que levar nossa percepção de lar dentro de nós, também temos – como nos recordam Emerson e Thoreau – que levar conosco nosso sentido de direção. Os mais valiosos oceanos que iremos explorar serão sempre as vastas expansões dentro de nós, e as travessias mais importantes serão aquelas que cruzaremos no limiar do coração. A virtude de encontrar um pavilhão dourado em Kyoto é que ele lhe permite levar de volta um Templo Dourado particular e mais duradouro ao seu escritório no Rockefeller Center.


Embora o mundo pareça estar cada vez mais esgotado, o mesmo não se pode dizer de nossas viagens, e os melhores relatos de viagem nos últimos anos têm sido aqueles que empreendem uma jornada paralela, combinando os passos físicos de uma peregrinação com os passos metafísicos de um questionamento interior, ou os que falam de viagens aos mais distantes patamares da esquisitice humana (como na obra de Oliver Sack, “A Ilha dos Daltônicos”, que mostra uma jornada não apenas a uma remota ilha do Pacífico, mas a uma região onde as pessoas realmente vêem a luz de maneira diferente). As praias mais distantes, somos constantemente lembrados, situam-se dentro da pessoa que se encontra adormecida ao nosso lado.


De modo que, a viagem, de coração, é apenas uma maneira rápida de manter nossas mentes despertas e em movimento. Como escreveu Santayana, herdeiro de Emerson e Thoreau, autor citado no começo deste texto, “Existe sabedoria em mudar, sempre que possível, de um patamar familiar para um desconhecido; isso mantém a mente ágil, liquida com o preconceito e nutre o humor”. Os poetas românticos inauguraram a era das viagens porque eles foram os grandes apóstolos dos olhos abertos. Monges budistas são frequentemente vagabundos, em parte porque eles acreditam na vigília. E se a viagem é como o amor, é porque ela também é um estado de consciência dos mais elevados, no qual estamos atentos, receptivos, não ofuscados pelo que nos é familiar e prontos para sermos transformados. É por isso que as melhores viagens, tal como os melhores casos de amores, nunca terminam de fato.
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O texto original em inglês pode ser acessado através do site Worldhum.

Um comentário :

  1. Muito bom Paulo, fiquei com vontade de ler mais. beijos.

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