segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Por que viajamos, by Pico Iyer. Parte 2

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Por que viajamos, by Pico Iyer. Parte 2


De um modo geral, quando estou na Tailândia, embora seja um abstêmio que geralmente vai para a cama às nove horas da noite, eu fico pelos bares locais até o amanhecer; e no Tibet, embora não seja de fato um budista, passo dias inteiros nos templos, ouvindo o canto dos sutras. Vou para a Islândia visitar os espaços lunares dentro de mim, e, na misteriosa quietude e vazio daquele vasto mundo desarborizado, remendo as partes de mim que se encontram obscurecidas pelas conversas fiadas e pela rotina.


Nós viajamos, via de regra, em busca de nós mesmos e de anonimato – e, é claro, quando encontramos um, capturamos o outro. Num país estrangeiro nos encontramos maravilhosamente livres de posição social, trabalho e reputação; somos, como Hazlitt (famoso economista e escritor norte-americano) coloca, apenas os “cavalheiros de gabinete”, e as pessoas não podem colocar um nome ou uma etiqueta em nós. E por estarmos esclarecidos a esse respeito, e libertos de rótulos secundários, temos a oportunidade de entrar em contato com as partes mais essenciais de nós mesmos (o que pode explicar por que nos sentimos mais vivos quando estamos distantes do lar).


Longe de casa ficamos acordados até tarde, seguimos impulsos e nos encontramos tão abertos como quando estamos amando. Vivemos sem um passado ou um futuro, pelo menos por um momento, o que nos deixa abertos a novas interpretações. Até podemos nos tornar misteriosos – aos outros, num primeiro momento, e às vezes até a nós mesmos – e, como nada menos do que um dignitário como Oliver Cromwell (estadista inglês, 1599-1658) observou certa vez, “nunca se vai tão longe como quando não se sabe para onde se vai”.


Há, naturalmente, grandes riscos nisso, como em qualquer tipo de liberdade, mas a grande dádiva é que, ao viajar, nós nascemos novamente e podemos voltar a ter, em alguns momentos, uma natureza mais jovem e aberta. Viajar é um modo de reverter o tempo a uma pequena escala, e fazer um dia durar um ano – ou pelo menos 45 horas – e de nos envolvermos, como na infância, com o que não conseguimos compreender. A língua facilita essa fissura aberta, de modo que quando vamos à França nós sempre migramos para o francês, e esse contato com a língua estrangeira revela um lado nosso que é inocente, simples e educado. Mesmo quando eu não estou falando inglês pidgin em Hanói, eu estou simplificado de uma maneira positiva, consciente de que não estou me expressando, mas simplesmente tentando fazer sentido.


Pois viajar, para muitos de nós, é uma busca não só do desconhecido, mas do desconhecimento; eu, pelo menos, viajo em busca de um olhar inocente que possa levar-me de volta a uma natureza mais inocente. Eu tendo a acreditar mais quando estou no estrangeiro do que quando me encontro em casa (e embora isso possa ser traiçoeiro, ao menos ajuda a expandir a minha visão), e tenho tendência a ficar mais facilmente animado no exterior, e até mais gentil. E desde que ninguém que eu conheça pode “tomar” o meu lugar – ninguém pode me prender no meu currículo – eu posso me refazer de uma maneira melhor, ou mesmo pior, naturalmente (se a viagem é notoriamente um berço de falsas identidades, ela também pode ser, no seu melhor, uma prova severa para alguns). Nesse sentido, uma viagem pode ser um tipo de monaquismo em movimento: na estrada, nós frequentemente vivemos de maneira mais simples (mesmo quando hospedados em um hotel luxuoso), apenas com as posses que podemos carregar e nos rendendo ao acaso.


Isso é o que Camus quis dizer quando afirmou que “o que dá valor à viagem é o medo” – a ruptura, em outras palavras, (ou emancipação) de circunstância, e todos os hábitos por trás dos quais nos escondemos. É por isso que muitos de nós não viajamos em busca de respostas, e sim de melhores perguntas. Eu, como muitas pessoas, tenho tendência a fazer perguntas sobre os lugares que visito e aprecio e que tenham relação com algo que me dê suporte: no Paraguai, por exemplo, onde um em cada dois carros é roubado, e dois terços dos produtos à venda são contrabandeados, me vejo obrigado a repensar toda a minha presunção californiana. E na Tailândia, onde muitas mulheres jovens abdicam do seu corpo para poder dar amparo às suas famílias – e se transformar em budistas melhores – eu tenho que questionar meus próprios pré-julgamentos. “O livro de viagem ideal”, disse certa vez Christopher Isherwood, “deve ser um pouco talvez como um romance policial no qual você está em busca de algo”. E isso ainda seria melhor, eu completaria, se você nunca chegasse a encontrar aquilo que busca.


Lembro-me, de fato, após minhas primeiras viagens ao sudeste asiático, há algumas décadas, como eu retornava ao meu apartamento em Nova Iorque e ficava largado na cama, sem conseguir dormir por causa de algo mais do que um jet lag, revirando na memória tudo aquilo que eu havia experienciado, e vendo saudosamente minhas fotografias e relendo meus diários, como se pudesse extrair algum mistério a partir disso. Qualquer um que testemunhasse essa estranha cena teria tomado a conclusão correta: eu estava apaixonado.


Pois se cada relação amorosa pode soar como uma jornada a um país estrangeiro, onde você mal consegue falar o idioma, e não sabe onde está indo, e é atraído cada vez mais profundamente para uma escuridão sedutora, cada visita a um país estrangeiro pode ser um caso de amor, como um enigma onde você tenta descobrir quem você é e por quem está apaixonado. Todos os grandes livros de viagem são histórias de amor – da Odisséia à Eneida, da Divina Comédia ao Novo Testamento – e todas as boas viagens são, assim como o amor, sobre como ser levado a dar cabo de si mesmo e ser atirado em direção ao terror e à surpresa.


E o que essa metáfora também nos ensina quando voltamos para casa é que a viagem é uma transação bilateral, como nós tão facilmente esquecemos, e se uma guerra não deixa de ser um tipo de encontro entre nações, o romance é outro. O que nós muitas vezes ignoramos quando vamos ao exterior é que somos objetos de escrutínio tanto quanto as pessoas que nós próprios examinamos, e somos consumidos pelas culturas que consumimos, tanto na estrada como quando estamos em casa. No mínimo, somos objetos de especulação (e mesmo de desejo) que podem parecer exóticos às pessoas ao nosso redor, assim como elas a nós.


Somos os acessórios cômicos nos filmes caseiros japoneses, os esquisitos das anedotas contadas na Malásia e os caras decadentes nas piadas dos chineses; somos os cartões postais ambulantes ou os objetos bizarros sobre os quais os habitantes dos vilarejos peruanos falarão mais tarde aos seus amigos. Se o ato de viajar trata do encontro de realidades, não deixa de tratar menos do confronto de ilusões: você me dá a minha tão sonhada visão do Tibet, e eu lhe darei sua tão desejada Califórnia. E na verdade, muitos de nós, até (ou especialmente) aqueles que estão fugindo da América rumo ao exterior, serão tomados, quer queira quer não, como símbolos do sonho americano.


Talvez essa seja de fato a questão mais central e deturpada das questões que a viagem nos propõe: como responder aos sonhos que as pessoas lhe oferecem? Você encoraja as suas idéias de uma Terra de Leite e Mel por todo o horizonte, mesmo que essa seja a terra que você mesmo abandonou? Ou você tenta diminuir o entusiasmo delas dizendo que esse lugar só existe em suas mentes? Estimular os seus sonhos pode, afinal, fazer com que elas vivam com uma ilusão, mas tirar os seus sonhos pode por outro lado tirar-lhes a única coisa que as sustenta em suas adversidades.


Toda essa complexa interação – semelhante aos dilemas que nós encaramos com aqueles a quem amamos (como equilibrar a veracidade e o discernimento?) – é parte da razão pela qual muitos travel writers são, por natureza, entusiastas: não só Pierre Loti (romancista francês, 1850-1923), que tinha a fama e a infâmia de se apaixonar em qualquer lugar que chegasse (um marinheiro arquetípico deixando descendência na forma mítica de Madame Bovary), mas também Henry Miller, D.H. Lawrence ou Graham Greene, todos os quais confirmaram a verdade oculta de que somos otimistas quando estamos fora e rapidamente pessimistas quando ao lar voltamos. Nenhum deles de modo algum foram cegos em relação às deficiências dos lugares ao seu redor, mas todos, tendo escolhido ir até lá, trataram de encontrar algo para admirar.


Todos, nesse sentido, acreditaram no “estar em mudança” como um dos pontos de decisão de partir em viagens, e “ser transportado” no sentido público tanto quanto no privado; todos os que experimentaram aquele “ecstasy” (“ex-estase”) nos falam que nossas sensações mais intensas vêm de quando não estamos parados, e a epifania pode seguir-se ao movimento bem como precipitá-lo. Lembro-me de uma vez haver perguntado ao renomado travel writer Norman Lewis se alguma vez ele se interessou em escrever sobre o apartheid na África do Sul. Ele me olhou espantado. “Para escrever bem sobre algo”, ele disse, “Eu tenho que gostar”.


Ao mesmo tempo, como tudo isso é intrínseco ao ato de viajar, de Ovídio a O’Rourke, a viagem em si cambia conforme as mudanças do mundo, e com ela, o mandato dos que escrevem sobre viagem. Não basta ir até os confins do mundo nos dias de hoje (mesmo porque os confins do mundo estão frequentemente vindo até você); e os locais onde um escritor como Jan Morris poderia, há poucos anos, obter algo surpreendente apenas viajando para todas as grandes cidades do globo, agora qualquer um com um cartão Visa pode fazer igual. Quando Morris, por sua vez, escrevia suas crônicas sobre os últimos dias do Império (britânico), um travel writer mais jovem se encontra numa posição melhor para mapear os primeiros dias de um novo Império, pós-nacional, global e tão diligente como um Rajá ao transportar seus objetos e valores ao redor do mundo.


Em meados do século 19, os britânicos notavelmente levaram a Bíblia, Shakespeare e o críquete para todo o mundo; agora um tipo de Império muito mais internacional está enviando a Madonna, os Simpsons e Brad Pitt. E a maneira como cada cultura faz uso desse reservatório comum de referências diz muito mais a respeito delas do que seus produtos nativos poderiam revelar. Madonna num país islâmico, afinal, soa radicalmente diferente da Madonna num país confucionista, e o que dizer de uma Madonna pelas ruas de Manhattan. Quando você for a um MacDonald´s em Kyoto, você irá encontrar Mcburgers Teriyaki e tortas de batata com bacon. As toalhinhas de bandeja apresentam mapas dos grandes templos da cidade, e os pôsteres pendurados por todo o ambiente mostram as maravilhas de São Francisco. E - o mais crucial de tudo – os jovens comendo seus Big Macs, com bonés de baseball usados ao contrário, com suas calças Levi’s 501, ainda são completamente e inalienavelmente japoneses na maneira como se movem, como acenam com a cabeça, como bebericam seus chás Oolong – e os proprietários de um McDonald’s do Rio, Marrocos ou de Manágua jamais se equivocarão quanto a isso. Estes são os dias em que um domínio totalmente novo e exótico surge a partir da maneira como uma cultura se apropria e afeta os produtos da outra.

Um comentário :

  1. Paulo, estou amando este texto. Parabéns pela excelente matéria. Beijos

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