quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Os pés alados de Mercúrio, por Luis Pellegrini

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No panteão da mitologia romana, Mercúrio (Hermes, para os gregos) é o deus protetor dos viajantes. Pegando carona nessa simbologia, Luis Pellegrini publicou uma coletânea de textos que merece destaque na biblioteca dos aficionados pela literatura odepórica. Os pés alados de Mercúrio: relatos de viagens à procura do self é daqueles livros que encantam do primeiro ao último relato. Luis Pellegrini, jornalista e atual diretor de redação da Revista Planeta, reuniu nessa obra relatos de viagem que, em comum, trazem à tona um viajante-peregrino fascinado pela estrada que conduz aos lugares mais emblemáticos do planeta, tendo como objetivo principal o autoconhecimento adquirido com o deslocamento.


Com Pellegrini vamos de Roma ao Egito, de Compostela aos Himalaias, e de lá para outros tantos lugares onde se possa fazer alguma conexão entre o profano e o sagrado. Em cada parada, um aprendizado, um carimbo no passaporte da alma. Aqui o que vale é a percepção de que tudo se conecta, de que tudo na jornada é uma única e mesma coisa. Essa é uma visão típica daquilo que se denomina Nova Era, um termo desgastado pelo uso e pela banalidade com que foi concebido, mas ainda assim, algo que faz parte de uma nova maneira de se relacionar com o sagrado. Pellegrini, que dedica sua vida e sua carreira às questões espirituais, num dos relatos deixa transparecer um pouco dessa conduta new-age que faz o cabelo de muita gente arrepiar (de acadêmicos a religiosos), mas que eu particularmente acho muito sedutor. Vamos lá:

“O ser humano é um ente essencialmente espiritual – não necessariamente um ente religioso -, e nosso espírito precisa de alimento da mesma forma que o corpo físico. A grande carência de verdadeiro alimento espiritual é certamente uma das muitas mazelas do nosso mundo moderno. Como não gosto de passar fome de nenhum tipo, procuro comida onde puder encontrá-la. Onde ela estiver, ali é o meu “restaurante”. Aprendi a me alimentar de força espiritual em qualquer lugar onde a encontro. E por achar que todos os espaços sagrados são meus, sinto-me católico nas igrejas, judeu nas sinagogas, muçulmano nas mesquitas, budista nos mosteiros, umbandista nos terreiros. Meu interesse é sempre por aquilo que unifica, e não por aquilo que divide e fragmenta. Por isso, em matéria de sistemas religiosos, assumi há muito tempo a condição do curinga: todos me servem, e eu sirvo a todos.”

O mérito de Pellegrini é o de conseguir falar sobre espiritualidade sem parecer um desses deslumbrados que afirmam haver encontrado a paz interior naquele eremitério escondidinho na montanha, aos pés de um guru iluminado com a cabeça cheia de haxixe e os bolsos cheios de dólares. Nada disso. Seus relatos são simples, intuitivos e acessíveis a qualquer um, mesmo àquele que não se interessa por questões de ordem espiritual/religiosa, pois ainda que esta seja a linha condutora dos relatos, o que dá ao conjunto aquele sabor especial próprio dos relatos de viagem é o chamado à aventura.


Tentei escolher um dos relatos para postar aqui no blog, mas não me decidi por nenhum porque todos são igualmente interessantes. Por isso, convido-o (a) a ler a introdução que Pellegrini preparou para apresentar sua simpática obra a seus leitores. Trata-se de uma visão muito especial sobre o sentido da viagem, com ênfase no aspecto da transformação interior a ela relacionada. Em tempo: o termo Self (ou Si-Mesmo), que aparece no título dessa obra é um conceito (na verdade, um arquétipo) próprio da psicologia analítica junguiana que pode ser traduzido como “Centro”, ou “núcleo central da psique”. O mecanismo que faz com que o indivíduo tenha acesso a esse centro é conhecido como processo de individuação, que em outras palavras é o caminho do autoconhecimento. E esse caminho se dá aqui, no dia-a-dia de cada um, mas numa viagem, quando estamos mais abertos ao outro e a nós mesmos, somos agraciados com uma maior facilidade de compreensão dessa dinâmica.

Introdução

Eu tinha dez anos de idade quando meus pais, num acesso de luminosa clarividência – ou de temerária responsabilidade, segundo alguns parentes -, decidiram autorizar que viajasse sozinho. Claro, não era para dar a volta ao mundo, mas apenas para superar os escassos duzentos quilômetros que separam a cidade onde nasci, São Carlos, no interior paulista, de Franca, onde morava uma tia. Apesar da modéstia do percurso, essa aventura deixou em mim uma marca indelével e fez desabrochar uma paixão por viagens que cresceu mais e mais no transcorrer do tempo.

Lembro-me como se fosse agora. Às duas da madrugada meu pai me fez subir num trem da velha Companhia Paulista, instalou-me numa cabine, fez um afago de despedida, e mal teve tempo de voltar à plataforma. O trem apitou e partiu, e da janela eu via a carinha um tanto agoniada do meu velho e a sua mão que acenava sem parar.

O trem penetrou na escuridão da noite. E eu, encolhido no fundo de uma poltrona, a examinar com o rabo dos olhos o ambiente ao meu redor. Era uma cabine no velho estilo, toda forrada de madeira avermelhada, e no teto havia um lampadário com arandelas de metal preto terminadas por grandes flores de vidro. Comigo, na cabine, estavam três rapazes fardados, saídos de alguma escola militar da capital e de volta às cidades de origem para passar férias. Riam muito e falavam alto, com aquele arroubo que só ostenta quem ainda se sente senhor do mundo.

Os assuntos não podiam ser outros: futebol, automóveis, mulheres e incríveis bandalheiras. Eram fortões e eu parecia um nanico em meio a jogadores de basquete. Mesmo assim, rapidamente me adotaram, e apesar de não me deixarem provar das bramas que enxugavam meio em segredo, com medo de algum oficial a passar pelo corredor, acabaram me oferecendo uma coca-cola semigelada. Eu ouvia cada vez mais fascinado as histórias que contavam. Quase tudo papo-furado, lorotas inventadas pela vaidade juvenil. Mas cada uma daquelas histórias chegava a mim como um raio de luz diretamente desprendido da cidade grande. Elas me revelavam coisas assombrosas que aconteciam nas metrópoles que eu um dia viria a conhecer.

E foi assim que, de modo inesperado, no decorrer de uma viagem noturna de trem, fui iniciado nos mistérios do mundo masculino. Saí de São Carlos e era um menino. Quatro horas depois, ao chegar a meu destino, já era homenzinho feito.

Viagens são assim: oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Mas é bom dizer desde já que as viagens com sentido iniciático não são apenas aquelas feitas no mundo de fora. Mais tarde vim a descobrir que viagens no mundo de dentro podem perfeitamente produzir o mesmo efeito. Como as viagens que fazemos nos nossos sonhos, ou mesmo nos devaneios quando despertos.

Viajar, pelo mundo ou por dentro de si mesmo, é fundamental para os processos do crescimento pessoal e do autoconhecimento. Por que? Em primeiro lugar, porque tomar contato com lugares desconhecidos, pelo simples fato de tirar a pessoa do seu cotidiano habitual, obrigando-a a estar mais desperta e atenta, representa a oportunidade de pôr em prática a capacidade de adaptar-se a situações novas. Adaptabilidade é o melhor sinônimo de inteligência: sem a capacidade de adaptação aplicada a qualquer situação da vida, não se vai longe no aprendizado da relação harmoniosa consigo mesmo e com o mundo.

Terá a viagem, em si mesma, algum sentido de tipo espiritual? Será ela um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível distinguir o valor simbólico original que leva a pessoa a viajar, a abandonar temporariamente o conhecido em troca do desconhecido?

Qualquer psicólogo, filósofo ou poeta sabe que o simbolismo da viagem, num enfoque ao mesmo tempo psicológico e transcendental, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual interno. Aquilo que Carl Gustav Jung chamava de self e Gautama Buda chamava de eu superior. A viagem exprime também um desejo profundo de transformação interior que se projeta no desejo da viagem exterior. Representa, mais que um simples deslocamento físico no espaço e no tempo, a necessidade de experiências novas e renovadoras. Como conseqüência, entende-se que estudar, investigar, procurar intensamente o novo e o oculto, são também modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.

Viagem, definida de outro jeito, é transformação pelo movimento. E todo movimento que acontece em nossa vida converge de algum modo para aquele centro espiritual interno.

O italiano Giuseppe Tucci, um dos grandes orientalistas e exploradores da Ásia neste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas algo importante a respeito do sentido profundo das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com total conhecimento de causa. Além de ser ele mesmo um grande apaixonado pelas viagens, conhecera praticamente todos os descobridores importantes do seu tempo. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente a esperança de descobrir um dia, para além de qualquer passo esquecido de montanha, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera séculos isolada do resto da humanidade: o mito do reino perdido de Shagri-lá. Poderoso símbolo do reino interno ou espiritual, esse mito teve e tem cultores ilustres. Mas Tucci não zombava daquilo que um pensador racionalista convencional poderia considerar uma simples fraqueza: “Só quem caminhou durante semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia.”.

Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas, para quem tem na alma a inquietude do vento, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada. Empurra o peregrino em direção à meta sagrada e secreta, o seu Shangri-lá pessoal.

Toda viagem é um ato sagrado, e todo viajante é um herói inquieto. Quem viaja busca, mesmo sem o saber, o seu próprio self, a conexão com alguma forma de divindade. Por isso tantas epopéias religiosas e espirituais estão ligadas à idéia de viagem. Os cavaleiros medievais em busca da Terra Santa ou do Santo Graal; os argonautas gregos à procura do velocino de ouro; o herói Ulisses na sua odisséia de retorno à ilha de Ítaca; os peregrinos de todos os tempos e lugares que vão a Roma, a Santiago de Compostela, a Jerusalém ou ao santuário de Aparecida do Norte; todos caminham em direção a seu centro espiritual, a seu self.

‘Os verdadeiros viajantes são aqueles que partem por partir’, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos constituem um tipo especial de viajantes que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado: santuários, templos, cidades, montanhas sagradas. Mas o peregrino não vai a eles apenas por curiosidade, ou para se divertir e descansar. O que o atrai, na verdade, é a qualidade especial das experiências que lhe é possível viver no decorrer dessas viagens. Por isso a viagem como experiência sagrada e iniciática acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada.

Por outro lado, o encantamento, a sensação de viver alguma coisa inteiramente nova e diversa que distingue a experiência sagrada da experiência profana, manifesta-se mais facilmente no tempo liberado do trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser consideradas atividades sagradas e iniciáticas. Mas porque tendemos a desempenhá-las como robôs, num estado de automatismo e semiconsciência. A experiência verdadeira do sagrado só pode ocorrer à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas. O viajante fica só no mundo. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual que é um dos objetivos principais de todo peregrino com conhecimento de causa.

Todo peregrino experiente sabe também que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso. A chegada ao lugar de destino pode ser apenas um coroamento e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Se partirmos depositando toda nossa expectativa nas eventuais gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas ao longo das estradas. Cada viagem representa a possibilidade de descoberta, como foi para mim aquela viagem de trem na infância.

A importância da viagem no processo iniciático das diferentes religiões e escolas de sabedoria, tanto orientais quanto ocidentais, foi sempre amplamente reconhecida e preconizada. Algumas escolas esotéricas impõem a seus membros que viajem continuamente. De modo geral considera-se que a fixação do noviço em hábitos cotidianos repetitivos constitui um deletério fator de “adormecimento” que entorpece e até impede o processo do “despertar” espiritual. Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias nas quais o noviço vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas da iniciação.

Mas é importante saber que a verdadeira viagem iniciática acontece no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem no mundo exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mas fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora, aquilo que na realidade ocorre no mundo subjetivo de dentro. Existe uma relação muito estreita entre esses dois mundos: um é reflexo do outro. Toda viagem no mundo exterior corresponde, de algum modo, a uma experiência no mundo interior. E toda aventura no mundo interior modifica nossa percepção do mundo exterior. Convém ter sempre isso em mente quando se coloca o pé na estrada, para que o aproveitamento seja o melhor possível.

A moderna psicologia, em especial a psicologia analítica, aproxima-se notavelmente das grandes escolas de crescimento espiritual. Ambas defendem a idéia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta do mundo (objetivamente) ou no plano da fantasia, do sonho e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência psicológica é o mesmo. Nossa psique não conhece diferença entre o que se vive fora e o que se vive dentro. É exatamente esse o significado daquela historinha zen-budista na qual um monge sonha ser uma borboleta que vai de flor em flor. Ao despertar, o monge vive uma grande dúvida: será ele um monge que sonhou ser borboleta, ou uma borboleta que sonha ser um monge?

E por falar em sonhos – mensagens que o inconsciente envia ao consciente para comunicar coisas importantes ligadas à evolução psicológica do sonhador -, frequentemente eles assumem a forma de “viagens”. E muitas vezes viagens cheias de peripécias, aventuras e desafios que devem ser enfrentados e vencidos. As viagens oníricas são viagens simbólicas para representar uma busca que vai da penumbra do mundo inconsciente à luz da consciência desperta. As etapas e provas enfrentadas no decorrer das viagens constituem ritos de purificação e aprendizado necessários à expansão da consciência do sonhador.

A viagem simbólica é, outras vezes, feita após a morte, como no caso das epopéias da alma no além, relatadas nos Livros dos Mortos egípcio e tibetano, grandes clássicos da literatura espiritual. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, uma vez que o objetivo supra-humano (a fusão com o centro espiritual) ainda não foi alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Bardo Thodol (o “Livro dos Mortos” tibetano) e concluiu que as experiências vividas pela alma humana em sua viagem no mundo além da morte, conforme descritas naquele livro, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais passamos ao longo da vida, em nosso processo de individuação.

E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum rito secreto de transformação e de crescimento interior através do movimento da viagem? Certamente. O desejo de movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.

Toda viagem implica movimento, e todo movimento é, em última análise, uma viagem. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência.

Leia: Os pés alados de Mercúrio: relatos de viagem à procura do self, de Luis Pellegrini, Editora Axis Mvndi. 1997. Pela mesma editora Pellegrini lançou, em 2003, um romance esotérico intitulado Árvore do Tempo.

Um comentário :

  1. Dei risadas gostosas com este texto. Recordei partes boas da nossa infância. Também fiquei inspirada a fazer uma viagem. Depois te conto. Beijocas, Pá

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