domingo, 5 de julho de 2009

Viagem ao Oriente, por Hermann Hesse

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Viagem ao Oriente não é o tipo de livro que vai agradar a qualquer leitor, nem mesmo àquele que se apaixonou por Sidarta, uma das mais belas obras de Hermann Hesse, merecedora de várias e várias releituras. Entretanto, para quem não sofre de preconceito contra aquilo que podemos chamar despretensiosamente de romance místico, sugerimos dar uma chance a Hesse porque seu relato de viagem é... uma viagem, boa em todos os sentidos. Mas antes, uma dica: programe-se para ler o texto de uma sentada, assim, sem interrupções, numa tarde de domingo. Faça dessa leitura um exercício de meditação, que tal? Se você for um leitor pouco distraído, não levará mais do que duas horas para terminar as cem páginas desse pequenino romance.

O romance é narrado em primeira pessoa por um músico chamado H.H., membro da Confraria, uma espécie de liga secreta formada por artistas, filósofos, escritores, poetas, entre outros, que se dedicam a participar de uma jornada sem um destino certo, numa espécie de peregrinação rumo ao Oriente. H.H. inicia a viagem com um grupo de membros da Confraria, cada qual com seu objetivo. Aliás, ter um objetivo pessoal para empreender a jornada, afirma o narrador, é uma das obrigatoriedades de cada membro. Aqui já encontramos a primeira das muitas chaves de leitura desse relato: não se faz a viagem sem um objetivo pré-determinado. Isso tem muito sentido se formos pensar na viagem como uma oportunidade de busca pessoal, e nesse ponto já temos em mãos uma segunda chave de leitura: a viagem ao Oriente é uma viagem simbólica, portanto uma viagem interior.

O objetivo de H.H em sua jornada era o de encontrar uma bela princesa chamada Fátima, e se possível conquistar o seu amor. Um outro buscaria um tesouro, por ele denominado “Tao”, e outro, ainda, desejava capturar uma serpente chamada Kundalini, à qual atribuía poderes mágicos. Qualquer um que já tenha estudado ou lido um pouco sobre a espiritualidade oriental consegue decifrar a linguagem simbólica desses objetivos. Os membros, para serem admitidos na Confraria deveriam persistir na fé, ter coragem frente ao perigo, e amar os semelhantes.

Quem já passou por algum tipo de experiência mística, ou pelo menos viveu algo que se assemelhe a isso, sabe como é difícil relatar a alguém aquilo que palavra alguma consegue captar com a mesma intensidade da experiência vivida. Trata-se do inefável, e numa passagem, logo no começo do relato, lemos um pensamento que H.H. atribui a Sidarta:

“As palavras não conseguem expressar os pensamentos com precisão; de imediato as coisas se tornam distorcidas, tolas. E mesmo assim agradam-me, e julgo que seja certo, que aquilo que para um homem parece válido e sábio, para outro caracteriza o absurdo.”

A seguir, H.H. cita uma estrofe expressa por um dos membros da Confraria que também discute essa questão:

“Quem empreender longínquas jornadas verá muitas coisas
Distantes daquilo que considera a Verdade.
E ao relatá-las, chegando a casa,
Será muitas vezes desacreditado,
Pois os empedernidos não acreditarão
Naquilo que não vêem ou sentem distintamente...”

Assim que H.H. é aceito como membro da Confraria, inicia uma peregrinação junto a um pequeno grupo, com direção ao Oriente. Diz que às vezes caminhava em pequenos grupos, às vezes sozinho, outras em multidão, com membros das mais diversas partes. Em alguns momentos, confessa, sente dificuldade em narrar os fatos porque “[...] não vagávamos somente através do espaço, mas também do tempo. Nosso destino era o Oriente, mas também viajávamos para a Idade Média e para a Idade do Ouro; percorríamos a Itália ou a Suíça, mas muitas vezes passávamos a noite no século X, em companhia dos patriarcas ou duendes.” E a terceira (e principal) chave de leitura vem a seguir: “[...] Pois nosso objetivo não era unicamente o Oriente, ou melhor, o Oriente não era apenas um país ou um fato geográfico, era também o lar e a juventude da alma, estava em toda parte e em parte nenhuma, era o conjunto de todas as eras.”.

O relato vai beirando ao fantástico, as descrições daquilo que H.H. observa conforme a peregrinação avança nos faz lembrar de uma viagem alucinógena, como se o observador tivesse experimentado algum tipo de erva ritualística, mas não se trata disso, nem desse tipo de viagem, porque quem relata a experiência demonstra ter um total controle psíquico daquilo que está vivendo. Um pequeno excerto, para apreciar:

“Jamais esquecerei o brilho mortiço da cauda dos pavões sob o luar, surgindo entre as árvores altaneiras, nem as sereias que emergiam cintilantes, com o corpo prateado, nas margens sombrias, por entre as rochas. Dom Quixote, de pé sob a castanheira ao lado da fonte, em sua primeira vigília noturna, enquanto as derradeiras velas romanas do espetáculo pirotécnico caíam suavemente sob as torres do castelo, e meu companheiro Pablo, ornado de rosas, tocava o órgão persa para as donzelas.”

Em determinado momento, ficamos sabendo que com o grupo da Confraria seguia um criado, por todos estimado, chamado Leo. Sábio, fiel, amável, de belo rosto, sua aparição no relato por um momento nos remete ao anjo de Pasolini. No segundo capítulo, quando o grupo chega ao desfiladeiro de Morbio Inferior, num dia qualquer do mês de outubro, descobre que Leo os abandonara. A partir desse fato a história ganha uma outra dimensão; H.H. desiste da viagem, tornando-se um desertor, e seu desejo a partir de então será o de elaborar a descrição da jornada por ele vivida junto à Confraria, “visando salvar sua vida, dando-lhe novamente sentido”, atitude que terá uma conseqüência profunda no desenrolar dessa história. Já não podemos prosseguir com a análise da obra, porque o que se seguirá daqui em diante é a alma de todo o relato, a surpresa que aguarda o leitor até o último momento dessa jornada fascinante.

Viagem ao Oriente trata da busca espiritual, sem dúvida, mas também pode ser decifrado através de uma leitura psicanalítica junguiana (com a qual Hesse foi muito familiarizado), quando aquilo que H.H. vivencia, sofre, questiona, alude ao processo de individuação, ao encontro com o Self. Mas isso é apenas parte de uma leitura pessoal, e pode nem mesmo ter muito sentido para aqueles que não se interessam por essa temática. Porém, nada disso importa, porque temos convicção de que cada um sairá dessa leitura tocado de alguma maneira muito especial. Experimente.

Nosso exemplar de Viagem ao Oriente, de Hermann Hesse, foi garimpado num sebo por um preço bem baixinho. É uma segunda edição, de 1971, publicado pela Editora Civilização Brasileira.

16 comentários :

  1. Oi C'esare, eu levaria mais de semana para "ler/assimilar" este livro. (duas horas de leitura para vc, n'e?) O trecho que vc relatou contem tanta simbologia que preciso para um pouco para absorver o conte'udo. Lembra os quadros do Salvador Dali. Com certeza um interessante livro para quem tem a mente aberta.
    Beijocas

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  2. Caro Cesare, muito bacana a compreensão que teve desta obra pequena em tamanho e grande em dimensão do gigante Herman Hesse. Como le em 6 dias e não numa sentada, seu texto ajudou a amarrar, definitivamente, minha compreensão. Como você se interessa por leitura de viagens e de Hesse, te recomendo a compilação "Pequenas Alegrias", em que o escritor conta sobre algumas viagens que fez.

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  3. Salve, MO. Fiquei feliz com o seu comentário, por acaso esse post é um dos mais lidos aqui no blog (vejo pelo sitemeter). Não conhecia essa obra que você indicou do Hesse; já entrei na Estante Virtual e garanti a minha, agradeço a dica! Saludos, césare.

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  4. Acabei de ler o livro e resolvi navegar na net pra ver se achava algo a respeito, pra dividir, somar...
    Adorei seu post e compartilho das mesmas idéias!
    obrigada por partilhar!
    Namaste!
    Thais

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  5. Que bOM, Thais! Fiquei contente com seu comentário! Namastê! pc

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  6. Olá! Eu descobri "Sidarta" há algumas semanas e o li com paixão. Hoje cedo saí para procurar em sebos "Demian" e "O lobo da estepe". Acabei voltando para casa com: "Viagem ao Oriente","Minha fé","Caminhada" e "Demian". E de fato li "Viagem..." numa sentada. Simplesmente genial e diferente. Vim procurar algo sobre a obra e me deparei com teu texto fiel e em sintonia com a obra. Estou encantado com a escrita de Hesse. Valeu pelo blog. Marcelo

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  7. Salve, Marcelo! Coisa boa o seu comentário, valeu mesmo. Coincidentemente, semana passada trouxe do sebo o "Caminhada" mas ainda não tive o prazer de ler. E "Demian', que você arrematou com os outros, é outra das jóias do Hesse. Namastê! pc

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  8. Hermann Hesse é "viciante" no sentido positivo da palavra! Meu primeiro livro foi Narciso e Gold Mund, depois veio Sidarta que virou livro de cabeceira, e agora não consigo parar mais! rsrsrs
    Acabei de ler Demian! Fantástico!!!

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  9. Concordo contigo! Hermann vicia! AbraçOM, pc

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  10. fala paulo! estava procurando esse livro e advinha onde vim parar? ultreya!
    abraços

    Léo (caminho de santiago)

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  11. Hey, Léo! Pois veio parar no lugar certo, há há há! Depois me conte o que achou do livro, vale? Saludos, paulo

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  12. Eu li esse livro lá pelos idos de 2004, numa versão em inglês (tive que parar para traduzir muitas palavras) com as páginas amareladas, quase pretas, e com folhas descolando da lombada. O livro é muito bom, no melhor estilo de Hesse. Anos depois meu irmão (psicólogo) leu e falou sobre ele em um clube do livro que participávamos. A reação de todos foi bem interessante, dado que o assunto do livro não era nada fácil de ser identificado. Mas ele, assim como você aqui no texto, conseguiu passar bem a ideia. abraço.

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  13. Muito bom esse post sobre Viagem ao Oriente! Tenho ele, mas nunca o li, por culpa de tantos outros livros que devo ler antes (obrigações academicas, rs).

    Pela descrição que vc dá do livro, fiquei imaginando que ele todo deve parecer um pouco com a parte mais "psicodélica" do Lobo da Estepe, quando Harry começa a ter aqueles delirios sobre a guerra e outras paranoias! A diferença talvez seja que em "Viagem...", a "onda" talvez assuma um aspecto mais positivo!

    Um grande abraço

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    1. As obras do Hesse têm sempre uma forte ligação com as questões relacionadas ao processo de individuação e às complexas camadas do inconsciente, afinal ele foi muito influenciado pela psicologia analítica junguiana (prá mim foi ainda mais além); nesse caso seus escritos acabam tendo sempre um elo em comum (poderíamos falar em arquétipos que se repetem, talvez). Dizem que há um ciclo em três de suas obras, formando uma trilogia muito especial: Sidharta, Demian e Viagem ao Oriente. Ainda não parei para estudar essa relação, mas cada uma dessas obras do Hesse fizeram muito a minha cabeça! Saludos!

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  14. Por favor onde encontro este livro
    Obrigado
    Abraço

    Att, Carlos

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