sábado, 25 de julho de 2009

Via Láctea: relato de viagem de um peregrino brasileiro no Caminho de Santiago

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A literatura odepórica jacobea contabiliza, no Brasil, mais de uma centena de obras de peregrinos que percorreram o Caminho de Santiago a partir dos anos 1990. É um número bastante significativo, ainda mais em se tratando de um tema tão específico quanto este. Talvez poucas pessoas saibam, mas houve um momento em que o Brasil era um dos países mais presentes, em número de peregrinos, no Caminho de Santiago, e foi justamente nesse período que a maioria dos relatos de viagem (diários) foram escritos.


O relato mais famoso, como todos sabem, é na verdade uma narrativa ficcional, pois é assim que Paulo Coelho cataloga seu Diário de um mago, de 1987. Ficção, mas baseada num fato real (a peregrinação de fato aconteceu) que acabou por construir todo um imaginário místico em torno do fenômeno dessa peregrinação milenar, para horror de alguns e diversão de outros.


Depois de Coelho, alguns autores ainda seguiram relatando suas aventuras pelo Caminho de Santiago como pano de fundo para uma experiência iniciática, esotérica, recheada de elementos próprios dos novos movimentos religiosos, vulgarmente denominados de Nova Era, uma tendência que ainda perdura em alguns relatos. Muitos deles divertidíssimos, se você não for um leitor preconceituoso e muito exigente – literariamente falando. Nesse universo dos relatos de viagem, um pouquinho de esquisitice é sempre bem-vindo.


Hoje, depois de haver lido uma centena desses diários, quando alguém me pede para indicar apenas um, não tenho dúvida: indico sem medo a obra que considero a mais prazerosa de todas: Via Láctea: pelos Caminhos de Santiago de Compostela, editada em 1999 pelo fotógrafo Guy Veloso, brasileiro de Belém do Pará.


O autor percorreu o Caminho em 1993, numa época em que a rota começava a ganhar notoriedade depois de anos de quase ostracismo. Peregrinar naquela época, em que celular e GPS eram coisas exóticas (já existia GPS?) era uma experiência diferente da de hoje, mais simples em alguns sentidos. Mas sem romantismos bobos: ainda que hoje o Caminho esteja mais saturado e com “mais turistas e menos peregrinos”, isso não invalida, de forma alguma, a peregrinação de ninguém. Como julgar a experiência de alguém?


O relato de Guy Veloso é daqueles que você não consegue largar facilmente, por vários motivos. Primeiro, porque ele escreve bem, é direto, não se perde em devaneios e sabe dosar o drama com o humor de maneira correta. Tem o lado místico também? Tem sim, mas aí vai depender daquilo que você entende por “místico”, e isso de certa forma se aplica a qualquer relato sobre peregrinações, porque invariavelmente todos eles apresentam doses generosas de subjetividade.


Embora ainda fosse bem jovem na época em que peregrinou a Santiago (23 anos), percebe-se que o autor tinha maturidade suficiente para questionar seu papel dentro daquela experiência transformadora. Verdadeiro rito de passagem, o Guy que partiu não foi o mesmo que retornou de Compostela. O Caminho deixou uma marca profunda nesse viajante, em parte porque ele estava aberto ao novo, ao desconhecido, embora em alguns momentos pontuais chegasse a questionar se o que vivenciava era mesmo um sinal, uma resposta do universo às suas indagações, um milagre. No final do livro, se você topar o convite de lê-lo algum dia, irá se surpreender com o “milagre”, que fecha a narrativa de maneira fascinante.


Guy Veloso hoje é um fotógrafo premiado, tendo seu trabalho reconhecido no Brasil e no exterior. O interessante é que você consegue perceber facilmente a influência do Caminho de Santiago em sua obra. Como? Basta conferir em http://fotografiadocumental.com.br/, já destacado nos sites indicados pelo Odepórica. Na apresentação do site em algum momento você irá ler o seguinte: “Seu trabalho enfoca a religiosidade brasileira, em especial o ‘uso do corpo como transcendência’.” Interessante, não? De certa forma, isso resume de maneira satisfatória a experiência da peregrinação.


Deixei para terminar esse pequeno texto com um excerto de Via Láctea, para dar um pequeno aperitivo ao leitor que chegou até aqui. Não me decidindo por nenhuma passagem em especial, recorri à manjadíssima técnica de abrir a obra e deixar o acaso decidir por mim. Acho que não poderia ter sido melhor, veja se você não concorda comigo:

“Após merecida siesta, fomos todos chamados para uma reunião íntima no claustro da abadia, cujas paredes e colunas são contemporâneas das grandes expedições marítimas ibéricas.
Éramos doze andarilhos sentados em círculo, além do hospitaleiro que saudou os visitantes e pediu que cada um falasse sobre suas experiências naqueles dias de peregrinação.
Ouvi testemunhos emocionantes, de pleno desabafo de alma. Pessoas que se despiam das comuns amarras e barreiras do dia-a-dia e em poucos minutos resumiram suas vidas. Na minha vez, todos fizeram questão de que eu falasse em minha língua-mãe, embora já estivesse bem acostumado ao castelhano. Pausadamente, em português mesmo contei-lhes de minhas dores, dúvidas e alegrias nesta jornada que já se tornava porção essencial e inseparável de minha história.
Na verdade, não sei se fui entendido em tudo que disse. Pensando bem, aquelas palavras, naquele momento, não precisavam fazer sentido algum. A emoção do grupo disposto em círculo e a aura de um lugar santo e muito antigo sobrepujavam quaisquer verbalizações. Era aquela a nossa língua.
Esse desabafo me reanimou, já que foi a primeira vez em semanas que pude exteriorizar minhas sensações. Além disso, descobri que não era o único a passar por tudo aquilo. Que havia pelo menos mais onze pessoas que atravessavam experiências semelhantes e, com elas, construíam algo novo em suas vidas.
Ainda juntos, ouvimos à missa ao lado da tumba do santo de Ortega. O celebrante, Dom José Alonso, outra figura carismática e famosa do Caminho, conduzia a liturgia de forma incomum, gesticulando e conversando diretamente com os fiéis, quebrando quaisquer barreiras entre o altar e a assistência, acompanhado de dois jovens peregrinos belgas – os quais eu não sabia serem eclesiásticos – que concelebraram o ofício.
Ao jantar, sentamos todos em uma ampla mesa da cantina do mosteiro junto com o hospitaleiro e os curas. Sem que nada fosse combinado, cada um botou sobre ela toda a comida que guardava.
Assim, quem só tinha bocadillos, tomou sopa. Salames foram trocados por pedaços de pão. Quem ofereceu chocolates – o meu caso – também comeu carne de peru. Todos esbanjaram-se e saciaram-se.
E de tudo o que passei durante a Rota Peregrina, esta foi talvez a maior lição que tive. Na verdade, algo que, de tão simples, passa muitas vezes ao largo, à margem.
Pois é certo que cada um dos homens e mulheres que fazem o Caminho de Santiago aprende, inevitavelmente, a grande arte de compartilhar.
“Seja comida, seja sentimento.”

Esse texto foi postado no dia 25 de julho, dia de Santiago.

Leia Via Láctea: pelos caminhos de Santiago de Compostela, de Guy Veloso. Editora Tempo d’imagens, Fortaleza. Caso compre o seu através do site Estante Virtual, procure por volumes a partir da 2ª edição, já que a 1ª edição da obra não veio contemplada com as fotografias do autor.

5 comentários :

  1. Oi Paulo, meus olhos ficaram marejados com esta leitura. Que vontade de peregrinar!!!
    Beijocas,

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  2. Recebi esse testemunho de minha amiga peregrina Ana Rê e achei legal compartilhar aqui.
    Valeu Aninha! beijOM, pc

    BELORADO

    Vários momentos marcaram "meu" caminho a Santiago de Compostela no Anno Santo de 1999.
    Vou relatar um deles do qual, muito especialmente, guardo uma lembrança maravilhosa, mágica e muito feliz!
    A vida pareceu se resumir naquelas poucas horas em que eu, meu querido amigo Mário (brasileiro) e outros peregrinos, fomos chegando, já no final da tarde, ao albergue de Belorado.
    Este parecia um pouco abandonado: meio sujo, panelas e louça a serem lavadas, lixo na cozinha...
    Mas nada de tão grave assim! Cada um que chegava ia colocando sua mochila, seus cajados, suas tralhas nas beliches.
    Como ainda tinha sol, sentamo-nos na calçada, um pouco estreita, para aproveitar a luz do dia que já se ia. O frio naqueles dias havia sido intenso: aquela noite não seria diferente!
    Conversamos entre nós, cidadãos, ali, peregrinos, da África do Sul, França, Alemanha, Inglaterra, Brasil, Espanha,e outros os quais não me lembro.
    Como todos já estavam cansados do dia de caminhada, cada um foi cuidar de si, tomar seu banho, arrumar suas coisas e a fome começou a bater em todo mundo.
    Lembro ser um domingo. Cada um colocou o que tinha na mesa e resolvemos fazer um jantar comunitário! Isso aconteceu naturalmente!
    Saímos eu e Mário para comprar algumas batatas e cebola e alho, pois soubemos por um morador, que havia uma senhora que as vendia na sua casa mesmo. De lá voltamos com tudo isso mais uns tomates.
    Uns ajudam os outros a lavar a louça, varrer e limpar o "comedor" e a comprida mesa de madeira que lá havia.
    Outros se empenhavam em descascar e cortar os alimentos e cozinhar.
    Um espanhol, cujo nome não me lembro, trouxe um maço enorme de folhas verdes e as cozinhou, refogada com cebola e alho.Ele as havia encontrado num mato ali perto (não sei que verdura era, mas .. nham nham.. deliciosa!)
    Na hora do jantar, resolvemos nos apresentar: cada falava seu nome e seu país. Haviam duas peregrinas, que, por coincidência, faziam aniversário naquele mesmo dia!
    Resolvemos cantar Feliz Aniversário: todos cantaram para as aniversariantes na música e na língua de seu país. Foi divertido!!
    O jantar seguiu num clima de total alegria, solidariedade e amizade!
    Foi mágico.. inequescível. Como poucos momentos nos cativam e trazem um significado especial e belo na nossa vida.
    Mesmo sem encontrar mais aquelas pessoas, tenho certeza, que criamos um vínculo de fazer o bem, de nos empenharmos
    em sermos bons uns com os outros, em fazer nossa vida a melhor possível, em melhorar o mundo em que vivemos.
    Esse foi nosso trato aquela noite. Silenciosamente saímos no dia seguinte, rumo ao caminho, mas crentes que estávamos mais ricos em sabedoria. Crentes que jamais esqueceremos aquele encontro especial naquela fria noite de Belorado, mas com os corações aquecidos.

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  3. Oi Pá! O relato do Guy é mesmo assim, emociona. Quem sabe você não se anima a dar um abraço no Apóstolo? Te dou a maior força!
    BeijOM,
    paulo

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  4. Salve Santiago! Salve o Caminho! No dia de santo peregrino eu estava em Porto Velho, Rondônia no 12º Intereclesial das CEBs. E num que neste evento, justamente no dia 25, teve uma caminhada de encerramento? Participaram 10 mil pessoas. E não é que eu encontrei com um peregrino-padre recém chegado do Caminho? E as CEBs tem o lema de "Povo que caminha". Comunidades de peregrinos! Ultreya!

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  5. Salve, peregrina! Saudades! Você vê, uma vez no Caminho, sempre no Caminho, não? Incrível como tudo se conecta, como "todos os caminhos, ao fim e ao cabo, levam para o mesmo lugar"...
    BeijOM, Monicanandají. Apareça sempre, vale?
    pcésare

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