quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os funerais de "anjinho" na literatura de viagem, por Luiz Lima Vailati

.

.
Está disponível no site da Revista Brasileira de História, vol.22 no.44, 2002, um excelente artigo acadêmico escrito pelo historiador Luiz Lima Vailati intitulado Os funerais de “anjinho” na literatura de viagem que merece nossa atenção por dois motivos principais: primeiro, porque o autor enfatiza a importância das narrativas de viagem que, “quando submetidas a um crivo criterioso, têm se revelado fontes fundamentais para o desenvolvimento de temas como a família, as relações de gênero, a alimentação, as práticas religiosas, as formas de convívio e sociabilidade, dentre outras.” O segundo motivo é a maneira como o autor se valeu das narrativas dos viajantes do século XIX para estudar o cotidiano do Brasil dos oitocentos, em particular, como o próprio título entrega, o tema da morte das crianças e os rituais que se seguiam em torno dessa ocasião.


Embora seja um texto acadêmico, a leitura do artigo de Lima Vailati não assusta o leitor pouco habituado a esse tipo de produção. Pelo contrário, torna-se mesmo difícil abandonar a leitura das vinte páginas, repletas de informações que tratam basicamente do olhar estrangeiro sobre a nossa cultura e os nossos costumes. A morte, não se pode negar, é um tema que chama a atenção de qualquer pessoa, e ainda que estejamos à mercê de uma mídia que explora essa temática de maneira intensa e desavergonhada, vendendo-a como um produto vulgar, ainda assim estamos diante de um tabu, o que talvez ajude a explicar o fascínio/terror que desperta entre os seres humanos.


Há várias passagens interessantíssimas sobre como eram os ritos funerários infantis, verdadeiros espetáculos que se distinguiam dos cerimoniais fúnebres dos adultos, e que causavam perplexidade nos viajantes estrangeiros que aqui se encontravam de passagem. Iremos transcrever dois pequenos excertos desse texto apenas para que você, leitor, se sinta impelido a ler o artigo completo cujo link aparece no final dessa postagem.

O "ANJINHO"


Afora essas impressões mais gerais, o que os viajantes nos informam, de fato, dos funerais infantis? Apesar do grande número de viajantes que se interessaram em registrar suas experiências dos enterros de "anjinho" no Brasil, não temos nenhum que tenha feito uma descrição completa com todos os eventos que se seguiam à morte de uma criança. É possível afirmar que, de modo geral, estes relatos se concentram em dois momentos particulares do cerimonial fúnebre de criança: um deles, que diz respeito à forma como se apresentava o cadáver à visitação, nos informando sobre como o corpo era preparado e sobre o aparato material que o acompanhava; o outro é a procissão fúnebre, sendo que vez por outra fazem descrições sobre os lugares e formas de enterramento e alguns cuidados pós-sepultamento.


Sobre o "anjinho", os visitantes estrangeiros se mostraram favoravelmente surpresos pelo esmero em que esses pequenos defuntos eram arrumados e expostos. "Prazerosamente", "ricamente" são os termos por meio dos quais homens como John Lucccock, já no começo do período estudado, e mais tarde Daniel Kidder, lançam mão para descrever a maneira pela qual eram preparadas as crianças. Nesse fato se encontra, dentro do conjunto das práticas fúnebres, a primeira manifestação de que às crianças mortas não se votava qualquer tipo de menosprezo. Diferentemente do que hoje isso nos possa parecer, essa dimensão do gestual funerário está bem longe de ter uma importância secundária, restrita ao plano estético, conforme parece ter sido interpretada por esses estrangeiros. Tendo origem em tempos nos quais a crença na separação entre corpo e alma após a morte não era algo bem definido, a idéia de que a forma como se era enterrado e também como se entraria no além resistiu por muito tempo aqui. Assumindo uma dimensão de insondável importância, devia-se cuidar do aspecto pelo qual o corpo se ia apresentar no reino dos mortos, e disso dependia mesmo a direção que a alma irremediavelmente tomaria na geografia do outro mundo. De tal modo a escolha da última roupa interferia nos destinos da alma, que todo aquele que testava procurava informar em detalhe como queria estar vestido nessa ocasião.


Residindo no Brasil em meados da década de 1840, Thomas Ewbank mostrou-se particularmente interessado por esse aspecto do cerimonial fúnebre no Brasil. No caso das crianças, ele nos informa que em alguns casos as crianças eram vestidas como santos:
As crianças com menos de 10 e 11 anos são vestidas de frades, freiras, santos e anjos. Quando se veste de São João o cadáver de um menino, coloca-se uma pena em uma das mãos e um livro na outra. Quando é enterrado como São José, um bordão coroado de flores toma o lugar da pena, pois José tinha um cajado que florescia com o de Araão. A criança que tem o mesmo nome que São Francisco ou Santo Antônio usa geralmente como mortalha um hábito de monge e capuz. Para os maiores, São Miguel Arcanjo é o modelo. Veste-se então o pequeno cadáver com uma túnica, uma saia curta presa por um cinto, um capacete dourado (de papelão dourado) e apertadas botas vermelhas, com a mão direita apoiada sobre o punho de uma espada. As meninas representam "madonas" e outras figuras populares
.

O CORTEJO FÚNEBRE

(...) Durante grande parte do século XIX brasileiro, rezava o costume de realizar o translado do corpo à igreja para ali ser enterrado (hábito que, por dois séculos, será debaldadamente combatido pelas autoridades eclesiásticas e médicas, até que fosse definitivamente abandonado) à noite
. Ora, segundo experiência também compartilhada por outros viajantes, o francês Arago, vagando pelas ruas da Corte, foi surpreendido, ao dobrar uma esquina, com um cortejo fúnebre "en plein jour": tratava-se de um pequeno defunto com destino ao cemitério. Com efeito, esse diferença não passou despercebida a Kidder que, ao enumerá-las, lhe ocorreu mencionar, em primeiro lugar, a questão do período do dia em que essas cerimônias aconteciam. Estamos novamente diante de uma prática que relaciona a morte da criança a um acontecimento cujo sucesso já se conhece de antemão. As cerimônias de um adulto eram noturnas, com tudo aquilo que a noite encerra de mistérios e perigos, em bastante conformidade com o que se acreditava serem os primeiros momentos que presidiam a passagem para o além. O dia, por sua vez, é o lugar do cotidiano, daquilo que é familiar. Se o defunto adulto realizava sua última viagem nas trevas, como referência ao seu decisivo e desafiador trajeto para o outro mundo, onde até os mais pios poderiam se perder, para a criança morta esse transportar-se não comportava risco ou surpresa. As procissões diurnas eram índice de que se dava por garantido sua salvação.

Interessante, não? A matéria completa pode ser acessada no seguinte endereço eletrônico:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000200006&lng=en&nrm=iso

Nenhum comentário :

Postar um comentário