sábado, 18 de julho de 2009

Fé em Deus e pé na tábua, por Donald Miller

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Há três coisas que você não irá encontrar no relato de viagem de Donald Miller: drugs, sex, and rock’n roll. Faço esse comentário por uma razão que me pareceu óbvia antes da leitura de Fé em Deus e pé na tábua: descobrindo a essência da vida em uma Kombi: o enredo da aventura. Veja se você não concorda comigo: dois jovens na faixa dos vinte anos, duros e desencanados da vida, resolvem atravessar o interior dos Estados Unidos numa Kombi caindo aos pedaços, bem ao estilo Miss Sunshine. Esse, evidentemente, é apenas o pano de fundo da narrativa, mas o que se pode esperar de dois caras viajando por aí num carro velho, mais ou menos sem destino certo? Garotas, muita cerveja, e quem sabe um baseado para fazer a cabeça, certo?


Errado. Nessa história o mote é diferente desse lugar comum típico dos road movies a que estamos acostumados a assistir. Donald, o narrador, é aquele tipo de cara que todo mundo conheceu em algum momento na adolescência: meio gordinho, bom papo, agradável, comum em todos os aspectos. Seu companheiro de viagem, Paul, faz um tipo diferente, estilo surfista bronzeado, bonito, atlético, meio caladão e desapegado de tudo, o que lhe confere um charme peculiar. Em comum, os dois possuem uma característica que de certa forma dá o tom desse relato, que é a busca da simplicidade. E, mais profundamente, o que faz com que se tornem íntimos, é a busca de ambos por um sentido às suas vidas.


Há um leve discurso religioso (cristão) nas divagações de Don, mas quando ocorre é condizente com sua visão da vida, com sua busca, e nunca algo panfletário. A viagem dos dois pelo interior, com paisagens muitas vezes desérticas (o que sempre favorece à introspecção), parece convidar às reflexões dessa ordem. Há passagens muito interessantes, de questionamentos que Don se faz acerca do sentido da vida que eu poderia transcrever aqui, mas a beleza do momento se perderia fora do contexto em que foram escritas. Aliás, essa é uma questão interessante: quantas vezes evitamos contar aos amigos certos episódios de uma viagem porque sabemos que a emoção experimentada só tinha sentido para quem a havia vivido naquele contexto particular? Ao relatá-los, muitas vezes, esses episódios perdem grande parte da graça original, inclusive para quem os viveu.


Mas há uma pequena observação, de cunho generalista, que Don elaborou sobre o conservadorismo norte-americano que merece ser transcrita (seu relato vem carregado de certa crítica à sociedade norte-americana e seus valores). Os rapazes estavam quase chegando a Dallas, “uma grande cidade republicana evangélica”, quando Don se sai com essa: “Quando você constrói uma cidade perto das montanhas e longe do oceano, o que se consegue é materialismo e religião tradicionalista. As pessoas têm tempo demais e inspiração de menos.” Não é preciso lembrar que o antecessor de Barak Obama conseguiu a maioria dos votos da região central do país, sendo rechaçado pelos habitantes das cidades costeiras.


Porém a leitura mais interessante sobre esse relato não se encontra nos questionamentos de conteúdo espiritual de Don, mas sim na relação de amizade que se estabelece entre ele e Paul. O interessante nisso é que, ao conhecer melhor o outro, Don acaba se descobrindo mais e melhor, conseqüência natural das grandes amizades.

“Paul e eu temos histórias parecidas. Ambos crescemos em lares desfeitos; ambos descobrimos a fé ainda moços; ambos temos entusiasmo por arriscar a sorte. Mas ele é mais evoluído em altruísmo, o que sempre considerei uma espécie de brilhantismo emocional. O que quero dizer é que a maioria de nós está sempre preocupada com que os outros estão pensando. Esta preocupação se infiltra em nossas palavras, nossos atos, sonhos e sentimentos, e Paul parece estar acima disso – ou abaixo, não sei. Apenas não é afetado. Ele não se preocupa muito com nada, o que me impressiona como se fosse uma espécie de milagre. (...) Quando uma pessoa está com Paul, é confrontada com a idéia de que a vida pode ser muito mais fácil do que o resto de nós acredita ser, de que a maioria das coisas com a qual nos aborrecemos, que uma conta bancária zerada e roupas fora de moda não dão câncer. E é exatamente isso o que às vezes sinto: que um saldo bancário lá embaixo ou uma posição social inferior me dará câncer.”

Uma das atitudes que chamam a atenção no relato de Don é o total desprendimento com que ele fala de si próprio, sem medo de elencar os defeitos (na opinião dele) de sua personalidade, de sua inabilidade com as coisas, ao mesmo tempo em que potencializa, sem nenhum resquício de rancor, as virtudes alheias. Isso faz com que sintamos por ele uma empatia imediata, e a leitura vai se tornando mais e mais interessante conforme os quilômetros vão passando.


Há outras passagens nessa narrativa que merecem um olhar um pouco mais atento, porque tratam de um tipo de situação recorrente na literatura odepórica, principalmente em relatos cujo contexto tenha alguma relação com a espiritualidade, como por exemplo, nos relatos de peregrinos, embora isso possa acontecer com você em qualquer situação de sua vida, e não exclusivamente no decorrer de uma viagem.


Sabe aquele momento em que você se encontra numa enrascada? Quando perde o passaporte e todo o seu dinheiro? Quando se desespera ao perceber que tomou lá atrás uma trilha errada e não tem a mínima idéia do rumo a seguir? Daí, do nada, aparece alguém que lhe salva, alguém que encontrou sua carteira em cima de um balcão de loja, alguém que o aborda indicando a trilha certa que lhe salvará de um bando de lobos famintos ao cair da tarde... são os sinais, aqueles sinais que parecem dizer que “Alguém lá em cima” olha por você, independentemente de você acreditar ou não nessa hipótese.


Para Donald e Paul, situações desse tipo aconteceram com uma freqüência tal que fez com que parassem para refletir sobre a sincronicidade dos fatos que parecem acontecer com a intenção oculta de afirmarem sua fé em Deus. Alguns dos momentos em que essas situações ocorreram estão relacionados com a Kombi, que teimava em enguiçar nos lugares mais inóspitos mas sempre apareceu alguém disposto a ajudar – pelo simples fato de ajudar alguém necessitado. Estamos falando sobre a bondade, palavra que hoje parece não fazer parte do cotidiano de muitas pessoas.


Que lições, afinal, Don aprendeu nessa breve incursão de três meses ao interior dos Estados Unidos? Muitas, mas sem dúvida a principal delas foi o fortalecimento de sua fé em Deus. Parece um pouco piegas, mas não é. É de fato muito interessante descobrir, na loucura dos dias que correm, que ainda há jovens por aí que se ocupam desse tipo de busca espiritual; acho mesmo que pouco a pouco uma nova geração irá levar isso a sério, digo isso me referindo à questão da espiritualidade, porque há evidências de que uma nova maneira de se relacionar com o sagrado está surgindo nos últimos anos (procure saber sobre as obras e as pesquisas de Paul Heelas, especialmente seu texto, sem tradução para o português, The spiritual revolution).


Para os rapazes, a viagem que fizeram juntos - como eles mesmos concluíram no final da jornada - foi uma peregrinação, por isso mesmo, um rito de passagem.

“Meses atrás, eu teria dito que a vida é uma questão de fazer acontecer, de fazer truques como um cão amestrado, de impressionar as outras pessoas, e meus atos teriam mostrado que isso se consegue comprando bens, mantendo uma boa imagem ou indo à igreja. Já não acredito nisso. Acho que devemos ficar nos desertos e nos maravilhar em ver como o sol se ergue. Acho que devemos amar nossos amigos e apresentar as pessoas a essa história, ao pacífico e sereno porquê da vida. Acho que a vida é espiritualidade.”

Fé em Deus e pé na tábua: descobrindo a essência da vida em uma Kombi. Donald Miller. Trad. de Alexandre Martins Morais. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007. Título original em inglês: Through painted deserts: light, God, and beauty on the open road.

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