quarta-feira, 22 de julho de 2009

Diários de Viagem

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.Foi publicado no periódico espanhol La Vanguardia (01/07/2009) um interessante artigo que trata de um tema que tem tudo a ver com o universo do Odepórica: os diários de viagem. A matéria, que traduzimos na íntegra, aborda o tema dos diários de viagem priorizando os autores espanhóis, mas isso não tira o interesse da leitura; pelo contrário, dá vontade de pesquisar mais profundamente o trabalho de autores brasileiros que, diga-se de passagem, publicaram- e continuam publicando - muito material contemplando a arte de viajar. Quem sabe, depois de ler o artigo abaixo, você não ganhe inspiração para levar, na sua próxima aventura, um pequeno caderno de notas transformado em diário de viagem. Experimente. Sua forma de ver o mundo pode ganhar um sentido muito mais interessante do que você imagina.



Diários de viagem


Títulos como “El món sobre rodes”, de Albert Casals ou “Bueno, me largo”, de Hape Kerkeling, significativos êxitos editoriais recentes, demonstram a vitalidade de um gênero, o diário de viagem, cultivado historicamente por nomes tão diversos como Cristóvão Colombo, Montaigne, Cinto Verdaguer ou Charles Darwin. O fato é que a viagem e o diário – escrito ou desenhado – quase sempre caminharam juntos.

“Partimos na sexta-feira 3 de agosto de 1492, da barra de Saltes, às oito horas...” Assim começa o diário de viagem mais famoso do mundo, o de Cristóvão Colombo, que registra que na noite de 11 para 12 de outubro, “às duas horas após a meia-noite apareceu a terra...” É claro que não cabe a todos os viajantes fazer descobertas tão sensacionais, mas foram - e ainda são - muitos os que, a cada noite, se empenham em deixar escrito aquilo que foi visto e vivido durante o dia.

O diário de viagem é um gênero antigo e bem definido; foi praticado por navegantes, como Colombo; naturalistas, como José Longinos (Diário das expedições às Califórnias) ou Darwin (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo); peregrinos, como Jacinto Verdaguer (Dietari dún pelegrí a Terra Santa), escritores testemunhas de guerra, como George Sand ou Pedro Antonio de Alarcón, e simples viajantes. Pode tratar-se de um documento puramente pessoal, o equivalente escrito aos antigos desenhos ou às modernas fotografias (que também podem ser incorporadas), ou pode ser algo mais: o embrião de um livro.

Assim, Javier Reverte, seguramente o principal escritor de viagem espanhol, confessa trabalhar em três fases. A primeira consiste em tomar notas em uns “cadernos pequenos, de folhas quadriculadas e de espiral metálica” que leva sempre no bolso. (Os escritores, e ainda mais se forem viajantes, se mostram especialmente maníacos quando se trata de cadernos. Bruce Chatwin chegava ao extremo de comprar os seus exclusivamente em Paris: eram os Moleskine que graças a ele estão tão na moda hoje). À noite, no hotel (ou compartimento de trem, ou camarote, ou barraca de campanha), Reverte passa a limpo as notas dos pequenos cadernos em outros cadernos, estes de tamanho mediano, que “vão sempre na minha mochila, não me separo deles nem para ir ao banheiro”. E, já em Madrid, reelabora o material para convertê-lo em livros como El corazón de Ulises, El rio de la desolación ou a Trilogía de África.

Um método parecido usa Rosa Regás, com a única diferença de que a segunda fase – a de passar as “notas curtas, desconexas, importantes ou não, mas que me chamaram a atenção” a algo mais legível tem como suporte não o papel, senão o computador portátil com o qual sempre viaja. “É então quando deixo correr a imaginação e a lembrança, atiçada pelas notas, se torna mais poderosa e me ajuda a mergulhar de cheio naquilo que estou contando”: a descoberta da Síria (Viaje a la luz del Cham) ou a América Central (Volcanes dormidos, prêmio Grandes Viajeros 2005).

Também José Ovejero (China para hipocondríacos, premio Grandes Viajeros 1998) toma notas, ainda que não seja em diários – “demasiadamente desalinhavadas” – nem servem forçosamente para escrever um relato de viagem, “podem tomar parte de outras narrativas”. A grande época dos diários de viagem é sem dúvida o século XIX. Depois dos conquistadores, colonizadores, missioneiros dos séculos anteriores, vêm agora os cientistas. O mais notável, com certeza, Charles Darwin, que não se atenta apenas às espécies, senão que relata a navegação, as paisagens, os encontros com os indígenas... Este é, por exemplo, o sumário do capítulo sobre a Terra do Fogo: “Baía do Bom Sucesso. – Relato dos fueguinos a bordo. – Entrevista com os selvagens. – Aspecto dos bosques. – Cabo de Hornos. – Condição miserável dos selvagens. – Canibais. – Matricídio. – Sentimentos religiosos. – Grande tempestade. – Construção de cabanas. – Glaciares.” (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo).

Mas o século XIX não é somente o século dos viajantes científicos, senão do início do turismo em seu sentido atual. Com a melhora dos transportes, a viagem se generaliza: deixa de ser um perigo, uma aventura; é relativamente cômodo e seguro, sem com isso deixar de ser pitoresco. A Espanha é um dos destinos mais atrativos. Em 1800, por exemplo, Wilhelm von Humboldt nos visita e anota meticulosamente suas observações sobre as mais variadas facetas da vida do país, desde as finanças até a colombofilia, passando pela situação linguística: “O catalão se fala como língua oficial do país e sem paralelo a não ser com o valenciano em Valencia”, se bem que, “em todas as reuniões sociais as pessoas educadas, ainda que raramente as mulheres, falam castelhano.” (Diário de viaje a España).

Algumas décadas mais tarde, em 1872, outro viajante, o famoso escritor italiano Edmundo de Amicis (o autor de Corazón), retrata assim os camponeses catalães: “Iam vestidos dos pés à cabeça de veludo negro e usavam em volta do pescoço uma espécie de xale com listras brancas e vermelhas, sobre a cabeça um gorro de um vermelho intenso, e umas polainas de couro ajustadas até os joelhos; outros, sapatos de tecido, com a sola de corda, abertos à frente e amarrados ao redor dos pés com faixas negras cruzadas; um vestir, no conjunto, garboso e elegante e, ao mesmo tempo, austero”. (España. Diario de viaje de un turista escritor). E haverá muitos outros viajantes-escritores que anotarão suas impressões sobre o nosso país, como Georges Borrow com La Bíblia en España ou André Gide em seu diário.

A imprensa escrita, fenômeno do século XIX, ajudou a modificar o diário de viagem, criando assim um gênero híbrido, o do diário que à medida em que se escreve se publica em um jornal. Assim, em 1859-1860, o romancista espanhol Pedro Antonio de Alarcón (autor de El sombrero de tres picos) envia à revista El Museo Universal crônicas vivas da guerra entre Espanha e Marrocos; e Jacint Verdaguer acrescenta, a seus ofícios de poeta e sacerdote, o de correspondente para um semanário de Vic, quando em 1886 peregrina à Terra Santa. O texto resultante, Diari d’un pelegrí a Terra Santa, era considerado por Josep Pla o melhor texto em prosa catalã do século XIX. E no século XX? A função de reportagem que o diário cumpriu com tanta eficácia nos séculos XVIII e XIX, mediante a palavra e com freqüência a ilustração (Napoleão, em sua expedição ao Egito, levava ilustradores, e o mesmo faziam alguns viajantes românticos de bom poder aquisitivo), herda a fotografia e logo o cinema. Forçosamente, a viagem se transforma - generalizando-se a idéia de que toda viagem é primordialmente interior – e com ela, o diário, que se torna algo íntimo, tanto ou mais do que a própria viagem: é esse o caso de Gide, com seus périplos pela Bretanha ou Argélia, ou o de Mircea Eliade, autor de Diario íntimo de la Índia.

Já não se aspira tanto a recopilação de informações objetivas como a que Paulina Fariza - editora do selo barcelonês Alba – chama de “subjetividade documentada”. Ainda que o gênero não tenha se dissipado muito em nosso país, existem alguns marcos literários. Tomás Escuder anota, por exemplo, suas impressões de um périplo pelas pequenas ilhas pertencentes à Irlanda (Diario de Aran), Miguel F. Martín nos conta como percorreu 5.000 kms pela África (La ruta del Okavango), Virginia Calvache e Javier Campos narram sua expedição ao Pólo Norte Magnético (Las huellas de Nanuk), Mercedes Rosúa conta seu ano como professora de espanhol em uma cidade no interior da China, na época da República Popular (Diario de China)...

Dois viajantes jovens, o catalão Albert Casals e o alemão Hape Kerkeling foram capazes de retomar o gênero enfrentando cada um deles uma dificuldade particular: o primeiro, viajando em uma cadeira de rodas, e o segundo, dar um novo fôlego a algo tão velho como a peregrinação a Santiago de Compostela, prova de que, com mais de cinco séculos às costas, os diários de viagem nunca morrem.
by Laura Freixas, La Vanguardia

O texto original pode ser acessado através do site La Vanguardia

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