sábado, 11 de julho de 2009

As viagens de Loreena: uma jornada musical

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Todas as viagens, principalmente aquelas que nos levam a visitar uma cultura diferente da nossa, guardam características peculiares que encantam e marcam nossa memória por toda a vida। Podemos facilmente nos esquecer de como era o interior de uma catedral que apenas conseguimos situar na memória de maneira nebulosa, quando muito। Ou de um pequeno e simpático povoado onde paramos para abastecer o carro alugado e tomar um café acompanhado de um doce típico, cujo nome jamais voltaremos a pronunciar, mas que naquele instante nos pareceu o mais saboroso de toda a nossa vida।

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Entretanto, percebo que há duas coisas que fazem com que uma cena específica de uma viagem retorne como que por encanto à memória. Uma delas é o olfato. O cheiro de um pão de queijo assado, misturado com o aroma de um café recém coado pode te levar imediatamente para aquela pousadinha simpática de uma cidadezinha do sul de Minas, ou não? Claro que isso vai depender do seu histórico de vida, de como essa imagem tenha a ver com o contexto de suas lembranças.


Além do olfato, a audição tem um papel fundamental no que tange à memória de uma viagem. A música, a sonoridade da língua, o timbre de um instrumento musical, tudo isso tem muita relevância numa viagem. Tudo isso, de algum modo, nos ajuda a reviver momentos passados, cenas vividas num tempo-espaço que parece congelado em algum ponto de nossa existência.
E o que dizer, então, de uma música que nos transporta a lugares que nunca estivemos, mas que nos parecem estranha e melancolicamente familiares? Alguns artistas conseguem essa proeza. A canadense Loreena Mckennitt é uma delas.


Loreena vem se dedicando há alguns anos a divulgar a musicalidade celta, mas seu trabalho é muito mais rico e complexo do que, por exemplo, o de outra artista muito conhecida, a irlandesa Enya, a quem sempre é comparada. Enquanto esta última parece repetir a mesma fórmula em todos os seus trabalhos, Loreena surpreende seus ouvintes com álbuns de uma riqueza sonora admirável. Grande parte do potencial criativo dessa artista canadense provém do contato que ela e sua equipe mantêm com outras culturas; seus álbuns não trazem apenas a melodia do imaginário celta irlandês, mas apresentam também a musicalidade árabe, marroquina, ibérica, numa mistura que surpreende o ouvinte desde o primeiro acorde.


As viagens têm um papel fundamental no trabalho de Loreena. Nos encartes dos álbuns ou em textos publicados em seu site, journey é uma palavra recorrente. De fato, a audição de sua música pode servir como pano de fundo de uma jornada pelo imaginário celta, e essa fuga momentânea da realidade faz muito bem à alma.


Mas o que nos levou a escrever sobre Loreena Mckennitt foi o papel da viagem em sua obra e nada melhor do que irmos direto à fonte para sabermos como as viagens influenciaram seu trabalho. Os pequenos textos abaixo, fragmentos dos diários de suas viagens, foram retirados do encarte de alguns discos e do website da artista, cujo conteúdo pode ser acessado através do link http://www.quinlanroad.com/

Notas de viagem de Loreena Mckennitt

“O meu olhar vagueou através da janela aberta sobre a Espanha do século XV, através dos tons do Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, e foi atraído para um mundo fascinante de história, religião, fertilização inter-cultural... Desde o território mais familiar da costa Oeste da Irlanda, através dos trovadores em França, atravessando os Pirineus em direção a Oeste através da Galiza, descendo através da Andaluzia, para além de Gibraltar e Marrocos... As Cruzadas, a peregrinação a Santiago de Compostela, os Cátaros, os Templários, os sufistas do Egito, as Mil e Uma Noites na Arábia, as imagens sagradas Celtas de árvores, o Evangelho Gnóstico... quem foi Deus? O que é a Religião e o que é o espiritualismo? O que foi revelado e mantido em segredo?”

“Granada, Espanha... ao anoitecer... as luzes da cidade envolvem o corpo de Alhambra; nas ruas estreitas pairam os odores de lenha queimada e comida. Passeei pela área Muçulmana da cidade; comprei um pequeno espelho de ouro, um vaso para queimar incenso e um pequeno frasco de perfume... Continuo a ler o livro de Idries Shah intitulado “Os Sufistas”, cujo prefácio é de Robert Graves... sendo uma tradição secreta por detrás de todos os sistemas religiosos e filosóficos, os Sufistas influenciaram significativamente o Oriente e o Ocidente.”


“Outubro de 1990. Annaghmakerrig, Irlanda... tenho tentado criar composições e a configuração para o (álbum) The Visit. Trouxe comigo vários livros de letras de música, poemas e outras influências: a tapeçaria de unicórnio, o ramo de ouro. Converti em música algumas letras tradicionais; estou sendo atraída pelo som da harpa e a essência de uma fábula onde uma menina, afogada pela sua irmã ciumenta, reencarna primeiro como um cisne e depois é transformada em uma harpa... a região campestre da municipalidade de Monaghan seria um local ideal para uma interpretação visual, com os seus lagos, florestas e campo ondulado.”

“16 de março de 1993. Cheguei esta noite em Marrakesh e estou hospedada numa esquina próxima ao mercado. Deu-se início ao Ramadã e há muita atividade por toda parte. Estou chocada com as feições fisionômicas dos homens sendo cobertas conforme eles passam pelas claridades e escuridões: eles se parecem com monges. Cavalos, carruagens, carros, bicicletas e milhares de pessoas estão envolvidos na confusão das atividades noturnas, uns sons desafinados... Eu me retiro para o telhado de um café para olhar atentamente enquanto bebo meu chá de hortelã... Muitos círculos de vinte ou mais pessoas estão espalhadas por toda parte do mercado, cada um envolvido em seu próprio drama de música, contos de histórias, macacos nos ombros de homens, ou cobras sendo bajuladas para “dançar” nos tapetes; preparações “mágicas” de ossos, sementes, pedras e temperos sendo vendidas... As mulheres estão cobertas razoavelmente... Estou impressionada pelo sentido de intriga que o ambiente cria, tanto quanto é escondido como é revelado...”

“Ao lançar a rede de inspiração como artistas, ficamos familiarizados com a humildade que advém da constatação de que os nossos melhores planos resultaram em algo não pretendido ou de que os nossos registros se tornaram em algo diferente do esperado. Assim, partimos para Roma... e acabamos em Istambul. Partimos para o Japão... e acabamos num trem atravessando a Sibéria. A viagem, e não o destino, torna-se uma fonte de fascínio.”

“Afinal, pergunto-me se uma das mais importantes fases da nossa viagem não será aquela na qual jogamos fora o mapa. Ao nos vermos livres dos grilhões criados pelas nossas idéias preconcebidas talvez estejamos em melhor posição para revelar os verdadeiros segredos de cada local, para recordar que somos todos extensões de nossa história coletiva.”

“Outubro de 1996, Casa de Cecil Sharpe, Londres: Ao estudar a música do Oriente Médio, deparei com estas palavras provenientes de um filósofo do séc. IX, Abu Sulaiman al-Davani: ‘A música e o canto não criam no coração aquilo que não se encontra lá. ’ Outros contemporâneos de uma data mais recente sugeriram: ‘Aqueles que são afetados pela música podem ser divididos em duas categorias: aqueles que ouvem o significado espiritual e aqueles que ouvem os sons materiais. Existem resultados bons e maus em ambos os casos. ’”.

“18 de dezembro, 1995, Caminho de Ferro Trans-Siberiano. É o quinto dia da minha viagem de trem através da Sibéria. Viajando sozinha, é estranho não ser capaz de conversar com alguém mas aprendemos assim o quanto pode ser transmitido através das nossas ações, linguagem corporal, um olhar... vi alguns homens na estação hoje e um deles parecia-se mesmo com o meu pai. Tinha cabelo ruivo e uma cara muito celta que eu esperaria encontrar apenas na Irlanda e não na Rússia...”

“Placas de sinalização para Roma, um desvio para Munique, um engarrafamento a caminho de Hamburgo, um posto de gasolina na auto-estrada nos arredores de Barcelona, Páscoa em Bruxelas, ônibus e caminhões que viajam durante a noite. Vôos para Montreal, Nova Iorque ou Los Angeles, as luzes dos aeroportos, auto-estradas e estradas... a mistura exótica e eclética de experiências, desde o sublime ao ridículo, desde o tocante ao irritante, desde o rejuvenescedor ao cansativo, a nossa motivação para viajar está constantemente sendo posta à prova e reexaminada de diferentes perspectivas.”

“O meu primeiro ponto de partida nessa jornada de descoberta foi a minha investigação sobre o povo celta e suas histórias, e inclusive sobre os muitos caminhos que começaram deles, tanto historicamente quanto geograficamente. É com uma visão nessa história que este documento musical desenvolveu-se, com reflexões em temas humanitários universais sobre a vida e o amor, a conquista e a morte; sobre o lar, a identidade, as migrações dos povos e a evolução das culturas. Eu acredito que os nossos caminhos podem ser diferentes, mas as nossas buscas são compartilhadas: o nosso desejo de amar e ser amado, a nossa sede pela liberdade e a nossa necessidade de ser apreciado como indivíduos exclusivos dentro da nossa sociedade coletiva.”

“As minhas viagens em preparo para esta gravação me conduziram à hospitalidade e ao conhecimento das pessoas de vários locais, incluindo uma família nômade no interior de Mongólia e o povo uighur no noroeste da China onde se acredita que os predecessores dos celtas tenham sido encontrados. Eu visitei as grandes planícies no interior da Anatólia e Éfeso na Turquia; andei entre as flores inebriantes das laranjeiras na ilha grega de Chios; e na Jordânia, escutei os ecos das vozes circassianas e vi as rochas da antiga cidade de Petra. Conforme fico pensando sobre todos os séculos de história que nos permitem extrair lições de antigas vozes, acabo ficando convencida que somos uma culminação das nossas histórias coletivas. Eu acredito que deveria ter algo mais que nos unisse ao invés de nos afastar. Além disso, eu continuo esperançosa que conforme buscamos uma diversidade harmoniosa e integrada, seremos instruídos por convicções coletivas que são, em sua essência, afirmações sobre a vida.”

“Mansão Perleas, Chios, Grécia, 23 de abril de 2005. É o aroma das flores de laranjeiras que me faz pensar no passado, de todos aqueles séculos de primaveras e a nova vida despertando. Na distância, os pássaros, os galos, as crianças brincando e os cachorros latindo contribuem com as suas presenças para uma história sem fim. Como eu não havia estudado literatura clássica anteriormente, um dos objetivos que eu designei para mim mesma nessa viagem é de compensar por este fato. A minha busca é para compreender a identidade e o conceito do lar. Em um mundo que agora é tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, a nossa percepção dessas palavras tem sido comprometida e precisamos redefini-la.”

“Enquanto escuto um livro-áudio sobre a Odisséia de Homero, eu fico pensando sobre as jornadas que muitas pessoas fizeram em tempos antigos. As jornadas eram difíceis, muitas vezes longas e a perspectiva de nunca retornar sempre foi uma possibilidade. De fato, essas não são simplesmente experiências antigas, mas também contemporâneas. E quando pensamos em termos de jornadas, não escutamos somente as vozes daqueles que partem – para lutar nas guerras, para fugir da perseguição, ou simplesmente indo à busca de uma vida melhor – mas também as vozes daqueles que ficam para trás.”

“A minha esperança é de que este trabalho possa estimular a curiosidade do mesmo modo que os melhores livros de viagens. As melhores recordações de todas as viagens, sejam elas imaginárias ou reais, são aquelas que nos recordam que as vidas das pessoas são fortalecidas pela família e amigos, pelas nossas tentativas de criar a vida de alguém como se cria uma obra de arte e os nossos esforços para conciliar as nossas necessidades materiais com a importância das nossas relações com os outros.”

É isso. Se você ainda não conhece o trabalho de Loreena Mckennitt, no site acima indicado há links para vídeos e informações detalhadas sobre cada um de seus álbuns. Se ficou inspirado para comprar ou presentear alguém, indico três títulos irretocáveis em minha opinião: The Visit, The mask and the mirror, e The book of secrets. Boa viagem!

4 comentários :

  1. Paulo, enquanto eu estava lendo esta matérial a música dela começou a tocar. Fiquei toda arrepiada com tamanha coincidência. Agora entendo porque vc aprecia tanto ela. Beijocas

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  2. Olá. Talvez eu não devesse comentar num tópico assim tão antigo, mas devo admitir. Achei seu blog fascinante, sua escrita gostosa e o assunto, ah, o assunto é o meu assunto. É o que eu busco. Por isso comecei do início e vou até o final. E eis que o texto que me toca é sobre música. Haha. É terrivelmente irônico e você saberia melhor se me conhece. Mas enfim. Achei fantástico esse texto. E só gostaria de dizer isso. See ya.

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    1. Legal, Miss A., que vc tenha curtido o post e o blog. Siga na busca. See ya!

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