sexta-feira, 31 de julho de 2009

Andaluz, desvendando os mistérios da Espanha moura

.
Andaluz, ou Al-Andaluz, foi o nome dado à Península Ibérica pelos mouros no século VIII. Os moros, de origem árabe-berbere, chegaram à Península vindos da região do Saara ocidental e da Mauritânia, o que explica a origem do termo “mouro”, do latim tardio “mauri”. Com o tempo, mouros e sarracenos foram termos que se utilizaram para designar as pessoas de origem árabe e/ou muçulmana, embora esses vocábulos tenham surgido antes do nascimento de Maomé (séc.VII), portanto antes da era islâmica.




Partindo dessa origem, a da ascendência árabe na Península Ibérica, é que Jason Webster constrói seu relato de viagem. Andaluz é o segundo livro escrito por esse travel writer californiano; nascido em 1970, Jason Webster graduou-se em árabe e história islâmica pela St. John’s College em Oxford, não tendo seguido a carreira acadêmica; ao invés disso, foi bater pernas pelo mundo e acabou se apaixonando pela Espanha, onde vive atualmente com a esposa, uma professora de flamenco, em Valencia.

Webster fez bem ao trocar a academia pela literatura de viagens, gênero ao qual se apegou. Se a academia perdeu um professor competente, nós leitores ganhamos um bom contador de histórias. Quando entrevistava um professor de história medieval, especializado em cultura árabe, percebeu que este ficou incomodado quando a conversa “acadêmica” tomou um rumo mais focado na situação dos árabes cada vez mais presentes em sua cidade natal, como se o discurso acadêmico não tivesse nada a ver com a realidade prática cotidiana. Veja o que Jason escreveu:

“Parecia típico da abordagem acadêmica: uma cultura inteira reduzida a algum minúsculo aspecto da linguagem árabe, um poeta esquecido, ou um período de história enterrado em livros empoeirados e debaixo de dunas de areia. Muito poucos pareciam ter um contato vivo com o mundo árabe, e você ficava se perguntando se alguns deles conseguiriam sequer travar uma conversa de verdade com um árabe comum, ou se cuidadosamente evitavam ter que falar a língua, como os professores do corpo docente em Oxford, com os quais estudei. Existiam algumas exceções notáveis e incomuns, mas frequentemente eu me questionava se um ambiente acadêmico não acabava sendo inadequado para o que pretendia ter como objetivo: a compilação e a transmissão de conhecimento.”

O relato de Jason começa com ele se infiltrando em um ambiente que poucos de nós, acredito, imaginamos existir num país como a Espanha. Trata-se de grandes fazendas ao longo da costa espanhola que abrigam gigantescas estufas feitas de plástico projetadas para o cultivo de frutos durante todas as estações do ano. A mão de obra é em sua maioria composta por imigrantes marroquinos, que entram ilegalmente no país e acabam trabalhando nessas fazendas como verdadeiros escravos do século XXI. Foi nesse ambiente que Jason começou a procurar suas primeiras fontes de pesquisa, em parte pela facilidade em encontrar uma quantidade grande de marroquinos, os mouros que o ajudariam a construir a sua tese. Mas sua entrada ilegal na fazenda quase lhe custou a cabeça, e foi exatamente um desses moros, um jovem marroquino chamado Zine, que lhe salvou a vida literalmente.

Evidentemente, Jason e Zine conseguem fugir da fazenda, e é dessa relação, de dois estrangeiros que se encontram fora de seus países, embora sob condições completamente distintas, que nasce uma amizade forte que ajuda a fazer dessa viagem algo além de uma simples pesquisa histórica.

O relato de Jason, agora acompanhado do marroquino Zine, nos leva a conhecer os lugares mais marcantes da presença árabe na Espanha: Valência, Alzira, Almería, Granada, Córdoba, Sevilha, Toledo... em todos eles, o que Jason busca, com a ajuda de Zine, é uma confirmação à sua teoria, que aparece explícita na seguinte passagem:

“- De que trata essa sua viagem, Jasie? Uma caça ao tesouro, você disse.
Por um minuto eu apenas mantive os olhos na estrada. Sentia-me um pouco relutante de contar muito a ele, mas ao mesmo tempo, me descobrindo me abrindo com ele.
- Eu tenho uma teoria de que a Espanha ainda é, na realidade, um país mouro. Só que isso está escondido, disfarçado por trás de uma fachada extrema católica e européia. Vou sair por aí e ver que provas eu consigo encontrar.
- A Espanha um país mouro?
- Alguns mouros podem ter partido, mas muitos ficaram. Eles apenas se tornaram cristãos e mantiveram muitos de seus costumes árabes: cozinha, ditados, arquitetura, música. Esse tipo de coisa. “Olhe para os rostos – estou sempre vendo pessoas nas ruas que me lembram amigos árabes ou até iranianos.”

O que torna o relato de Jason cativante é a maneira como ele conduz essa teoria, conseguindo fazer com que a história não fique parecendo uma aborrecida aula de termos e cultura árabe (você irá aprender muitas coisas interessantes nesse sentido) dentro de uma narrativa de viagem. O deslocamento dos personagens pelo território mouro espanhol é tão relevante quanto as descobertas que nos vão sendo feitas entre as conversas de Jason, Zine e outros personagens que aparecem ao longo da viagem. Por quê? Porque se você procura uma resposta, se algo lhe inquieta de verdade a alma, então você precisa ir aonde sua intuição lhe diz “vá até lá, vá verificar com seus próprios olhos”, e é isso o que Jason faz, e é isso o que todos deveríamos fazer ao menos uma vez na vida.

Talvez alguém ao ler a história de Jason, que vale lembrar não é nem de longe um viajante leigo na temática árabe, faça críticas quanto à maneira na qual ele vai tecendo suas interpretações, às vezes um tanto superficiais (teria essa impressão se estivesse lendo um texto acadêmico), mas isso seria uma bobagem total. A questão não é a de provar ao leitor que sim, sim, a Espanha é mais moura do que os espanhóis poderiam imaginar. E muito mais do que, verdade seja dita, poderiam aceitar. Um exemplo disso aparece na narrativa, quando Jason descobre que um espanhol não aceita de modo algum o fato de que duas das palavras mais conhecidas de seu belo idioma, Hola! e Olé! têm origem no termo árabe wallah, que significa “por Deus” (Allah). Quer outra? O vocábulo Ojalá, em espanhol (Oxalá, em português), “Se Deus quiser”, provém do árabe “in sha’Allah”. E paramos por aqui porque esse negócio vai longe.

Para encerrar, escolhi uma passagem de que gostei muito, não pelo fato de ser algo poético, inovador, surpreendente, nada disso. Mas achei que o autor conseguiu, num momento de abstração enquanto tomava um refresco numa praça em Barcelona, sintetizar o espírito de toda a sua busca pelo legado mourisco espanhol. Note como ele vai costurando os acontecimentos corriqueiros, que você mesmo está cansado de enxergar no seu dia a dia (e talvez por isso mesmo já nem enxergue mais), com tudo o que assimilou da cultura árabe. Veja se você não concorda comigo:

“Enquanto bebericava um suco de laranja, olhei para as pessoas sentadas ao nosso redor no bar, e prestei atenção no que estavam comendo e bebendo, em suas roupas, no que estavam fazendo: um homem de meia idade sentado numa mesa ao nosso lado vestia calças de algodão e uma camisa de seda, chupando os lábios e gengivas como se tivesse acabado de limpar os dentes; em outra mesa um casal estava comendo almôndegas num molho grosso de tomate e cebola, com arroz e uma salada de espinafre; um outro homem, de cabelos pretos, lustrosos de gomalina, penteados para trás, à moda de muitos espanhóis de direita, lia a matéria de primeira página de um jornal sobre a mais nova geração de foguetes prestes a serem usados contra os iraquianos. Ele parecia desinteressado, entretanto, e logo passou para a página de horóscopos, bebericando um refresco gelado, num copo duplo, com bastante gelo. Apenas a poucos metros de distância dois homens idosos estavam debruçados sobre seu jogo de xadrez, um deles, distraidamente, mexendo o açúcar em seu café com um ruído de tinque-tinque-tinque contínuo, enquanto tentava decidir a próxima jogada. Três mulheres do outro lado tagarelavam sem cessar, mas, por um segundo, a conversa entre elas inexplicavelmente se acabou.
- Deve ter sido um anjo que passou no céu – disse uma.

E comecei a ver. Talvez por causa de minha visita ao príncipe, ou como resultado de minha jornada, enquanto eu absorvia o ambiente que me cercava, as peças começaram a se encaixar em minha mente, o quadro que eu estava tentando compreender há tanto tempo. Antes me parecia algo apenas fora de meu campo de visão. Porém, agora, eu me dava conta do quanto daquela cena na Barcelona moderna vinha diretamente dos mouros. Mesmo assim a conexão era quase invisível.

Perguntei a mim mesmo se o homem vestindo calças de algodão saberia que o algodão foi plantado em grande escala pela primeira vez na Espanha pelos mouros, e que então se difundiu pela Europa. A palavra “algodão” – algodón, em espanhol, vinha do árabe al-qutun. O conhecimento da manufatura da seda foi trazido para o mundo árabe depois de 840, quando o astrólogo e poeta Yahya al-Ghazal, ou João, a Gazela, visitou Bizâncio. Clandestinamente, ele trouxe consigo as técnicas quando voltou a viajar para o norte. A pasta de dentes chegou à Espanha de Bagdá, no século IX; almôndegas, arroz e espinafre todos vieram para a Espanha através dos mouros; o papel em que o jornal era impresso era um legado direto da primeira fábrica de papel em Játiva; a tecnologia de foguetes foi construída sobre a matemática avançada traduzida para o latim do árabe em Toledo; horóscopos, astrologia e com eles a astronomia, foram trazidos para a Europa através da Espanha mourisca – hoje em dia astrônomos ainda se referem às muitas estrelas usando seus nomes originais árabes, como, por exemplo, a Betelgeuse.

Refrescos servidos com gelo eram mencionados no livro As mil e uma noites, no qual eram servidos ao califa Harun al Rashid – a palavra árabe para bebidas geladas, sharba, ainda era lembrada na palavra espanhola sorbete, e nas inglesas sherbet e sorbet, bem como em syrup (xarope). O primeiro europeu a descobrir a fórmula para fazer vidro foi um espanhol andalusi, no século IX, chamado Ibn Firnas – a Espanha mourisca, subsequentemente, tornou-se uma produtora de vidro e o exportou para seus vizinhos cristãos. Ziryab, o músico de Bagdá que ditava tendências, introduziu o xadrez na Espanha no século IX. Por volta da mesma época, uma porção de superstições persas tornaram-se comuns na Espanha islâmica – dentre elas estavam as idéias de que anjos passando acima no céu faziam cessar conversas em andamento, que quebrar espelhos era algo ruim e que o número treze dava azar. A Espanha mourisca também havia introduzido o açúcar na Europa – o açúcar era mencionado na Espanha já em 714, apenas três anos depois da invasão moura, e o açúcar tornou-se um dos principais artigos de produção da Península Ibérica. Laranjas eram virtualmente desconhecidas na Europa antes da conquista árabe. Vi tudo isto em um único e compacto segundo.”



Leia: Andaluz: desvendando os mistérios da Espanha moura. Jason Webster; tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. Vale lembrar que o primeiro trabalho de Jason Webster, Flamenco, foi publicado no Brasil pela mesma editora. Estou lendo-o no momento e me parece tão bom quanto Andaluz.

Um comentário :

  1. Oi Paulo, esta passagem é muito rica, sem dúvida iluminada. Foi uma ótima escolha. Beijocas.

    ResponderExcluir