terça-feira, 9 de junho de 2009

A viagem sentimental de Laurence Sterne

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Um dos aspectos mais surpreendentes de Uma viagem sentimental(publicado em 1768, um mês antes da morte do autor) é a noção de que, em se tratando de comportamento humano, três séculos parecem não acrescentar muitas diferenças na maneira de estar no mundo. Não que isso seja bom, afinal nos parece natural pensar em evolução quando comparamos um período histórico a outro. Mas o próprio conceito de evolução já é por si só demasiadamente limitado, ainda mais se o aplicarmos ao âmbito da consciência humana.

Uma viagem sentimental não é um relato de viagem típico; não encontraremos, de fato, o relato de uma jornada por terras francesas e italianas no século 18. Também não teremos conhecimento de grandes aventuras e descobertas e tampouco de muitas linhas descrevendo o itinerário desse viajante passional.

Laurence Sterne escreve o relato em primeira pessoa, assumindo o alter ego de Parson Yorick, um clérigo inglês protestante aparentemente apaixonado pela França e suas mulheres (temos a impressão de que, embora tivesse passado dos cinqüenta anos, o narrador ainda não havia conseguido dominar por completo seus hormônios). O personagem decide empreender viagem pela França e Itália, usando como meio de transporte uma carruagem, mais especificamente um desobligeant, modelo em que só há lugar para um único viajante, informação dada em nota de rodapé. Dessa viagem nascerá um relato, cujo prefácio começa a ser escrito no gangorrar da carruagem.

A visão que Laurence Stern/ Parson Yorick tem dos viajantes é muito peculiar e segundo ele existem três causas gerais que motivam as “pessoas ociosas” a deixarem seu país em direção ao exterior:

1) Enfermidade do corpo;
2) Imbecilidade de espírito;
3) Necessidade inevitável.

Nas palavras do autor:

“As duas primeiras (enfermidade do corpo e imbecilidade do espírito) incluem todos aqueles que viajam por terra ou por mar, padecendo com orgulho, curiosidade, vaidade ou melancolia, subdivididos e combinados in infinitum. A terceira classe inclui todo o exército de mártires peregrinos; mais especificamente aqueles viajantes que partiram em viagem, com direito a foro especial, quer como delinqüentes, viajando sob a orientação de mentores, recomendados pelos magistrados – quer como jovens cavalheiros transportados pela crueldade dos pais e guardiões, e viajando sob a orientação de mentores, recomendados por Oxford, Aberdeen e Glascow. Existe uma quarta classe, mas seu número é tão pequeno que eles não mereceriam uma distinção, não fosse pelo fato de ser necessário a um trabalho dessa natureza usar de maior precisão e cuidado, a fim de evitar uma confusão de personalidade. E estes homens de que estou falando são daquele tipo que cruza os mares e reside, temporariamente, numa terra estranha, tendo em vista economizar dinheiro por vários motivos e sob vários pretextos (...) Assim todo o círculo de viajantes pode ser reduzido às seguintes categorias: Viajantes Ociosos, Viajantes Inquisitivos, Viajantes Mentirosos, Viajantes Orgulhosos, Viajantes Vaidosos, Viajantes Melancólicos. Seguem-se, então, os Viajantes por Necessidade: o Viajante delinqüente e perverso, o Viajante infortunado e inocente, o simples Viajante, e por último de todos O Viajante Sentimental.”

Percebemos que essa categorização do Viajante feita por Stern é bastante insólita, mas no momento em que ele justifica essas categorias (que nos parecem, a bem dizer, quase ilimitadas) encontramos a chave para aquilo que, na leitura que fizemos da obra, consideramos a questão fundamental do relato: a idéia da viagem enquanto processo de aprendizagem. Vejamos:

“É suficiente para o meu leitor, se ele próprio tiver sido um viajante, que, com estudo e reflexão a esse respeito, possa ser capaz de determinar seu próprio lugar e classificação na catalogação – será um passo no sentido de conhecer-se a si mesmo...”.

Será que não podemos, visto dessa maneira, imaginar que cada tipo de Viajante é, na verdade, um tipo psicológico? Pois nos parece interessante analisarmos a maneira como nós mesmos nos comportamos quando pomos os pés na estrada, qual o tipo (ou tipos) de personagem (persona) assumimos numa jornada. Isso pode variar também no tipo de viagem, já que uma peregrinação a Juazeiro do Norte, por exemplo, é completamente diferente de uma viagem com destino a São Paulo. Esse é o tipo de reflexão com a qual mais nos identificamos no texto de Sterne, embora sua leitura seja prazerosa por outros fatores igualmente.
Por exemplo, os costumes da época em que se passa a narrativa, como na passagem em que o personagem, Yorick, se irrita com um adversário, Monsieur Dessein:

“(...) senti, dentro de mim, a sucessão alternada de todos os movimentos inerentes à situação – examinei e reexaminei Monsieur Dessein – observei-o de perfil enquanto andava – em seguida, en face – achei que parecia um judeu – depois um turco – antipatizei com a sua peruca – amaldiçoei-o em nome dos meus deuses – quis mandá-lo ao diabo.”

Em alguns (poucos) momentos, lembrando que estamos diante de um relato de viagem, lemos uma descrição ou outra dos lugares pelos quais Yorick passou pela França (apesar de o título da obra apresentar a viagem sentimental através da França e da Itália, o livro termina sem que o personagem chegue ao território italiano), chamando-nos a atenção a descrição exagerada da bela Pont Neuf de Paris:

“Todo o mundo que já passou pela Pont Neuf deve admitir que, de todas as pontes jamais construídas, ela é a mais nobre – a mais bela – a mais grandiosa – a mais leve – a mais comprida – a mais larga que jamais uniu terra a terra na face do globo terráqueo –”

E o relato vai fluindo dessa maneira, pouco descritivo em se tratando de uma experiência deambulatória, mas cheio de emoção, humor e percepções sobre o caráter humano que encantam o leitor a cada página. Aliás, é dessa emoção, ou melhor, do emocional, que, ao fim e ao cabo, trata a obra. Pois o viajante emocional é aquele que descobre que o melhor de uma viagem é o conhecimento que se adquire, de si e do outro.

“Mesmo que seja ir apenas até o final de uma rua, tenho uma aversão mortal a regressar sem saber mais do que quando parti.” Laurence Sterne.

Leia a obra: Uma viagem sentimental através da França e da Itália. Laurence Sterne. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, introdução e notas de Marta de Senna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

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