domingo, 14 de junho de 2009

On the road com Antonio Bivar

. Foto: Fred Chalub

Se pudéssemos fazer uma comparação, com inúmeras ressalvas, diríamos que Antonio Bivar seria o nosso Jack Kerouac brasileiro, escritor da geração beat que por sinal foi biografado pelo próprio Bivar em 2004. O que ambos têm em comum é a importância que a viagem possui em suas vidas e em suas obras. Não se pode imaginar Kerouac sem a estrada, e o mesmo se aplica a Antonio Bivar, cujo pecado é a pequena quantidade de obras publicadas desde sua estréia literária com Verdes Vales do Fim do Mundo, escrito em 1971 e lançado somente em 1984 pela L&PM (reeditado em 2006 pela mesma editora na coleção L&PM pocket).

Antonio Bivar completa 70 anos em 2009 e seu último trabalho, Bivar na corte de Bloomsbury foi editado em 2005, quando o autor já estava nos seus sessenta e poucos anos. Idade importa? Claro que não, ainda mais para escritores, e é muito interessante notar que o Bivar da terceira idade continua tão jovem quanto aquele que perambulou pela Europa no início da década de 1970. E acreditamos que o fato de estar sempre com o pé na estrada tem muito a ver com isso.

São três as obras em que a viagem é o leitmotif de Bivar: Verdes Vales do Fim do Mundo, Longe Daqui Aqui Mesmo e Bivar na corte de Bloomsbury. As duas primeiras tratam basicamente do mesmo tema: as memórias de um jovem autor de teatro que, ao completar trinta anos, vai fazer o que tantos jovens faziam no final dos anos sessenta e início dos setenta: perambular pelo mundo com uma mochila nas costas, no espírito de Alegria, Alegria de Caetano. É difícil não se encantar pela leitura de Verdes Vales logo nas primeiras linhas; temos ali o relato em primeira pessoa de um momento histórico fascinante e ao mesmo tempo conturbado, afinal o Brasil vivia sob um regime ditatorial. Mas Bivar soube aproveitar muito bem o ano em que passou na Europa para afastar, ainda que temporariamente, o fantasma da ditadura.



A Inglaterra foi o país pelo qual Bivar se apaixonou e onde mais tempo viveu. Com ele vamos conhecendo pouco a pouco a rotina às vezes bucólica, às vezes aventureira, de um viajante aberto às coisas novas: pessoas, lugares, acontecimentos, amores. Entre um baseado e outro, de cabeça feita vai perambulando por Londres, Nova Iorque, Dublin e um pouquinho de Paris. Mas o momento mais marcante acreditamos que tanto para o autor quanto para o leitor, será aquele em que Bivar vai parar no interior da Inglaterra, em Salisbury, no condado de Wiltshire, local marcado pela mitologia arturiana e pela presença da tradição celta. A aura mágica que tantos atribuem àquelas paragens contagia o relato de Bivar, como não poderia deixar de ser, dando um tempero especial à narrativa.

Em todas as viagens, mais especificamente para quem viaja sozinho, existe sempre um momento em que o viajante se sente solitário e sem rumo; é um momento muito marcante, às vezes assustador, quando finalmente surge a pergunta: para onde ir? As circunstâncias podem ou não atenuar a situação: a grana curta, o horário, o local, tudo isso contribui para que a sensação vá de um leve sentimento de abandono até ao desespero total, dependendo do estado emocional no qual o viajante se encontre. Há uma passagem em Verdes Vales que trata exatamente disso, no momento em que o autor se separa de seu companheiro de viagem e não sabe o que fazer após a sua inesperada partida de Salisbury.

"(...) Estonteado com as últimas vicissitudes, peguei a mochila e fui pela rua principal até o jardim da catedral. Sentei-me num banco ainda molhado e pedi a Deus que me orientasse. Devia ficar em Salisbury ou também entrar num ônibus e procurar outro lugar?
Foi então que vi, agachado, sorrindo, procurando meus olhos, uma das criaturas élficas que já tinha avistado na cidade. Sem perguntar nada, mas me captando inteiro, tomou forte minha mão, e com os olhos nos meus ele disse: - Vem comigo.

Foi uma das melhores sensações de toda a minha vida. Foi um ato bonito e bom. Não consegui conter as lágrimas e elas saltaram, cheias, felizes, lavando o rosto e a alma. – Onde? – perguntei, encantado, depois de passada a primeira descarga emotiva, enxugando o nariz na manga do suéter e já pegando a mochila para segui-lo. Com um modo peculiar de falar e um sotaque distinto, ele respondeu: - A uma casa de gente simpática. – Que bom ter alguém para seguir, de repente pensei."

Chegando ao local, o autor descobre que a casa é habitada por jovens que vivem no estilo comunitário alternativo, tão em voga naqueles tempos; passa poucos dias ali, dias muito felizes, partindo sem se despedir, mas antes que o livro termine ainda volta a se encontrar com os amigos que lá deixou.

Tanto em Verdes Vales quanto em Longe Daqui, ao descrever suas andanças e vivências pelo Velho Mundo, morando de favor ali e acolá, alugando pequenos quartos baratos e aconchegantes, convivendo com gente interessante, algumas bastante conhecidas, Bivar nada mais fez, ao publicar essas duas obras, do que deixar documentado um recorte da dinâmica da contracultura no início dos anos setenta. Aliás, se as duas obras pudessem ser comparadas a um filme, Hair (de Milos Forman) seria a escolha ideal, por sua leveza, seu humor e pelo espírito jovem, poético e libertário de sua mensagem. De tudo isso, Antonio Bivar tem um pouco e um tanto mais.


Já em Bivar na corte de Bloomsbury, a pegada é outra. Trata-se também de um livro de memórias, como os anteriores, mas dessa vez as viagens, ao contrário das outras, têm um objetivo previamente determinado: a visita à fazenda de Charleston, em Sussex, Inglaterra, onde Bivar se dirige todos os anos entre 1993 e 2004 para participar da Escola de Verão, voltada a estudiosos da cultura bloomsburiana. Nas palavras do autor:

"Quando se fala no Grupo de Bloomsbury, é o nome de Virginia Wolf que logo emerge como o principal – ou o mais resistente – de seus membros originários. Paralelamente ao meu interesse pela literatura woolfiana, interessei-me pelas ações do grupo a partir da descoberta de um opúsculo, Bloomsbury, escrito por Quentim Bell, sobrinho e primeiro biógrafo de Woolf. (...) Minha curiosidade, tanto por Virginia Woolf (desde 1973 quando li uma tradução brasileira de As ondas) quanto pelo Bloomsbury, fez com que eu fosse atrás de mais e mais sobre eles. Nas minhas muitas e longas temporadas inglesas, tinha de acontecer um dia ir para na Fazenda Charleston e uma vez ciente do que ela oferecia em termos daquilo que eu buscava, não me aquietei enquanto não fui aceito como participante de sua Summer School. Isso foi em 1993. Na época, apesar da idade, me senti como um adolescente, orgulhoso de ser não apenas o primeiro brasileiro, mas também o único latino-americano entre os 22 participantes – a maioria acadêmicos – daquele seu segundo ano como Escola de Verão."

Entre as várias idas e vindas à fazenda de Charleston, Bivar vai relatando em seus diários (pois a obra é a compilação de todos os diários escritos nessas viagens) tudo aquilo que viveu nesse período de onze anos, tanto dentro quanto fora do universo woolfiano. Para quem não conhece a obra de Virginia Wolf, e muito menos a de seus pares, pode parecer que o texto de Bivar seja especificamente voltado ao leitor familiarizado com o universo por ele retratado. De certo modo, é provável que a este leitor a obra encante mais. Porém, aquele que se aventurar em encarar as quinhentas páginas de Bivar na corte de Bloomsbury, mesmo sem nunca ter lido Virginia Wolf, irá se divertir com as tiradas do autor, seus comentários, suas impressões e, de quebra, ainda aprenderá um pouco mais sobre literatura e arte, duas das grandes paixões do escritor.

Os anos que separam o Bivar andarilho do Bivar bloomsburiano, pouco mais de vinte se considerarmos a primeira viagem a Charleston em 1993, mostram que, para quem tem a estrada como companheira, poucas coisas mudam na essência. O corpo envelhece, inevitavelmente, mas a alma permanece jovem e inquieta. Se por um lado o autor percorria a Europa com a sede de querer estar em todos os lugares e conhecer todas as pessoas e viver todos os amores possíveis, por outro a maturidade lhe trouxe um porto seguro onde, mesmo deambulando menos, continuou vivenciando a estrada, agora vista como metáfora de sua própria jornada interior. Para Bivar - percebemos isso na sua obra sobre Bloomsbury - Virginia Wolf é sua Santiago de Compostela, a Inglaterra o seu Caminho de Santiago. A literatura, também ela, possui a sua sacralidade.

Mas entre uma ida e outra a Charleston, Bivar faz alguns desvios: visita a Espanha, Portugal no ano 2000, para onde viaja com a família na tentativa de amenizar o luto pela perda da mãe, e uma breve viagem por terra, no ano de 2004, ao Chile, Argentina e Uruguai. Essa aventura, escreve Bivar, “é para sentir se, aos quase 65 anos, ainda dou conta de sair por aí do jeito que gosto, curtir a liberdade da maneira mais simples e barata”. E ele dá conta sim, e muito bem por sinal.

E é assim que terminamos essa breve caminhada pelo universo viajante de Antonio Bivar, um autor simples, direto, poético, culto e que ainda deve guardar, na longevidade de seus setenta anos, o espírito aventureiro do jovem hippie apaixonado pela Inglaterra, sem nunca ter perdido sua identidade brasileira.

“Em certos momentos da vida não há nada que faça mais bem à alma que viajar.”
Antonio Bivar

Leia a trilogia das viagens de Antonio Bivar:

Verdes Vales do Fim do Mundo e Longe Daqui Aqui Mesmo, foram lançados pela Editora L&PM na coleção pocket.
Bivar na corte de Bloomsbury saiu pela A Girafa Editora em 2005.

2 comentários :

  1. Li Verdes Vales há vinte anos atrás, um amigo me emprestou, fiquei feliz quando a LPeM relançou este e o Longe Perto. Aprendi com Bivar a amar Bloomsbury, mesmo nunca tendo viajado fisicamente pra lá, sinto que de alguma forma através de seus escritos visitei aquelas paisagens. Achei perfeita a comparação com Kerouac, a gente seus livros e os de Bivar com uma vontade imensa de viajar. Obrigada por ter abordado sua trilogia.

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  2. Agradeço seus comentários, Simone! Bicar voltou a revisitar seu passado numa Nova trilogia. O primeiro vol.chama-se "Mundo dentro, vida afora".LP&M.

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