domingo, 28 de junho de 2009

A Índia, por Bruno Vassel

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Pouco sabemos de Bruno Vassel. Nascido em 1875 na Alemanha, formou-se engenheiro (ou arquiteto) e aos vinte e cinco anos foi trabalhar na Índia, onde viveu vinte anos; também passou um período de doze anos no Brasil, provavelmente entre as décadas de trinta e quarenta do século passado. O prefácio da edição de 1936 que temos em mãos foi escrito pelo autor no Rio de Janeiro e a tradução dos manuscritos do alemão para o português ficou a cargo de Lina Hirsch. Ainda no prefácio temos uma pequena comparação que o autor teceu entre a Índia e o Brasil, a saber:

“A flora das duas regiões apresenta muitas feições iguais. Medram e abundam na Índia, assim como no Brasil: bananas, mangas, abacaxis, e outras fructas assim como o arroz, a canna doce, café, chá, e muitos outros productos. Também existem na Índia muitos animaes conhecidos como espécies do Continente Sul-Americano. Differem, porém, radicalmente, os descendentes dos povos aborigenes da Índia e os do Brasil.

Este contraste revela-se tanto no typo physico dos povos, como no seu desenvolvimento cultural. De um lado vemos que a população aborigene do Brasil está desapparecendo, pela assimilação e pelo progresso nas linhas culturaes do Occidente. Todas as camadas da nação brasileira procuram e conseguem progredir e marchar à frente, contribuindo às victorias da cultura occidental; não se exceptúa nenhum componente do complexo ethnico; patenteia-se este facto em todos os ramos da vida, nas realisações, e nas obras primas creadas por grandes brasilerios. Nas sciencias, na technica, nas bellas artes, nos esportes, na literatura e por toda a parte vê-se a posição do Brasil egual em nível cultural a da Europa e da América do Norte.

Do outro lado observámos a população aborigene da Índia: este typo não desappareceu; nem desappareceram as tradições da antiga cultura da Índia; mas nesse Império do Oriente encontramos um argumento rápido da população rígida, obstinada, e fanática, das formas e idéias infantis, erros absurdos e crenças confusas. A população indígena da Índia é um conglomerado de tribus; cada uma dellas contribuiu com a sua porção de superstições phantasticas, e todas confundiram nas suas próprias idéias as doutrinas dos seus antigos legisladores com os phantasmas de suas superstições.”


Já dá para perceber, nesse curto excerto, que Vassel representa o olhar estrangeiro sobre a cultura alheia - olhar este muitas vezes repleto de preconceitos e julgamentos que, corretos ou não, trazem consigo o peso de duas décadas de convivência. Alguma lição, certamente, o autor tem capacidade para ensinar. A Índia é um relato de viagem interessante por mostrar com detalhes um pouco daquele país de sonhos e de pesadelos. É interessante por que também já viajamos por aquelas terras e muito do que lemos nesse relato, chegamos a vivenciar durante nossa jornada. É interessante por nos mostrar o cuidado que devemos ter antes de julgar uma outra cultura, embora isso não seja absolutamente uma crítica em relação à postura do autor, que se em alguns momentos pecou pelo excesso de julgamentos, também soube valorizar aquilo que viu de bom. É interessante porque os “causos” contados por Vassel emocionam, e acima de tudo porque somente um país como a Índia (ou o Brasil, quem sabe) poderia ser palco para essas histórias tão fantásticas. Interessante por esses e por muitos outros motivos também.

Gostaríamos de transcrever muitas e muitas páginas desse belo exemplar de literatura odepórica, mas comentaremos apenas alguns capítulos, cujos títulos aparecem em negrito com letras maiúsculas (mantivemos sempre a grafia original). No primeiro capítulo, BENARES, o autor fala sobre o episódio em que ocorre a morte do filho de seu empregado, um “Saiz” (guarda dos cavalos). Interessante por nos mostrar o ritual de morte hindu e os preparativos para a cerimônia, da qual extraímos uma pequena passagem:

“Afinal avistei o meu Saiz e sua esposa quasi escondida em véos densos; diante delles andava um homem levando os restos mortaes do pequeno filho, envoltos em pannos. Este homem desceu até á agua. Trez vezes mergulhou o corpo da criança morta nas ondas, e todos os presentes murmuraram as preces prescriptas. O pae espargiu grãos de trigo e flores de jasmim pelo corpo morto e amarrou nelle um vaso de barro cozido, grande e vazio. Depois o companheiro entregou-lhe o pequeno morto, e levando-o com carinho, o pae entrou mais fundo nas ondas. Quando a agua lhe tocou os hombros, elle empurrou o vaso de barro que fluctuou na superfície com o corpo do menino morto; afinal deu-lhe um empurrão forte na direcção para o meio do rio. A correnteza da agua, violenta nesta região, apoderou-se do pequeno navio da morte, e levou-o comsigo rio abaixo. A agua pouco a pouco entra pelo barro poroso, e arrasta o vaso e o morto para o fundo.
Ocorre as vezes, que o vaso de barro continua por certo espaço de tempo, nadando à superfície, e pára afinal num recife ou em dunas de areia. Em todo caso é certo que as partes de carne desapparecem dentro de poucas horas, devoradas por tartarugas, peixes, jacarés e cães bravios; ossos espalhados pelas margens do rio e nas ilhas de areia demonstram a passagem ephemera da vida humana.”

Em FUNCCIONALISMO NA INDIA, lemos sobre as normas e condutas dos funcionários ingleses a serviço do Império Britânico.

“A Grã Bretanha salvou a Índia do caos creado pelos regimens dos principes indígenas, autocratas, tão violentos nas suas façanhas arbitrarias, como isentos de escrúpulos; e, além de salvar estes Estados, a Grã Bretanha desenvolveu sua economia, conduzindo-os, systematicamente ao verdadeiro florescimento. As grandiosas obras de progresso economico e technico, as construcções gigantescas de canaes, e a expansão da rede ferroviaria, já bastariam para demonstrar o valor do grandioso trabalho britannico nessas regiões.”

O autor, valendo-se de um olhar unilateral, exalta sempre que pode o domínio e a superioridade britânica sobre a realidade sócio-cultural dos indígenas, como ele se refere aos indianos. Ao comentar em algumas passagens sobre a religião, alega que esta não passa de uma série de crendices, superstições e fanatismo. Sobre os indígenas e sua noção de superioridade sobre o homem ocidental, escreve o seguinte:

“O funccionario britannico assim como os outros “Occidentaes” que residem na Índia, devem sempre lembrar-se do orgulho, algo fanatico, dos hindús e dos outros indigenas dessa região, attitude mental que impede, ou quasi impossibilita, relações de perfeita confiança entre os representantes de dois mundos diferentes. A casta, a religião especial, as tradições de procedencia da propria familia, exageradas pela vaidade... (...) Na opinião desses indigenas da Índia, elles mesmos são muito superiores a qualquer homem do Occidente, europeu ou americano; e esta supposta superioridade estende-se mesmo até ao além, pois que os conquistadores occidentaes não têm casta, e por essa razão evidentemente não se podem elevar á dignidade de entrar no Nirvana.”

Em RAM GOBIND o autor relata a história de um criado, que perde uma perna e se torna um fakir. No mesmo capítulo ficamos sabendo um pouco sobre a religiosidade hindu através da grande festa do Khumba Mehla, onde “nenhum esforço é considerado inútil ou excessivo quando se trata de pisar o solo sacratíssimo da união dos dois rios venerados, o Ganges e o Djumna.”

No capítulo seguinte, VOLUNTARIOS MILITARES NA INDIA, Vassel narra o momento em que decide servir como soldado no corpo dos voluntários britânicos na Índia. Além de lermos algumas páginas que tratam da violência, é nesse capítulo que temos o autor em um de seus momentos mais preconceituosos da narrativa, como se pode verificar na seguinte passagem:

“Completamente desprovidos de armas neste momento, devíamos enfrentar a raiva das massas. Apesar disso, confiavamos numa defesa efficaz: guardando uma attitude firme, poderiamos esperar que o respeito intuitivo dos povos da India pela energia e superioridade dos homens do occidente, impedisse excessos ruinosos.”

Nessa passagem o autor quase foi morto por uma multidão enfurecida que queria se vingar dos soldados a serviço do Império britânico que levaram à forca presos julgados por um Tribunal de Sentença. Ele e seu companheiro só não foram linchados pela multidão porque no último momento apareceu para salvá-los um homem que o autor, num ato de compaixão, havia desistido de matar naqueles dias.

Em O ALBINO temos um relato de caça (Vassel amava caçar). O albino do título é um garotinho que acompanha o autor numa caçada a um tigre feroz que os habitantes locais acreditam ser a encarnação de um demônio. Emocionante e triste é este relato. O garoto albino, cuja mãe morrera no parto, teria a maldição de carregar a alma perversa de um demônio chamado “Sheher” (tigre). Um sacerdote brâmane havia dito ao pai do garoto para que este fosse sacrificado, a fim de evitar a vingança do demônio contra a família do garoto e de toda a aldeia. O pai, já tomado de amor pela criança, recusou-se a sacrificar o filho e deu-lhe o nome de Sheher. A maneira como a narrativa se desenrola é surpreendente.

O próximo capítulo trata de uma história sobre vingança. Um europeu, amigo do autor, casa-se “informalmente” com uma bela moça hindu, tratada mais como criada do que propriamente esposa. Depois de alguns anos, uma ex-namorada desse homem, que vivia na Europa, decide reatar a relação e casar-se com ele, indo morar na fazenda que ele administrava na Índia. GANGA, a esposa indiana, é informada que será devolvida ao pai, mas esta depois de muito implorar, consegue continuar vivendo na fazenda na condição de empregada. Só não esperavam que Ganga, cheia de rancor por conta da humilhação sofrida, iria se vingar da família. Nessa passagem, a narrativa ganha um contorno policial, onde o autor discorre sobre os mistérios da alma de uma mulher vingativa enquanto busca pistas que comprovem o crime por ela cometido. Momento Agatha Christie, em que o autor assume seu lado Hercule Poirot.

Em UMA AVENTURA, o escritor relata o encontro com um amigo alemão onde o tema da conversa gira em torno das mulheres. O amigo se diz fascinado pela magreza das mulheres indianas, ao contrário do autor, que parece não se sentir atraído pela beleza destas. O interessante nesse capítulo é a maneira como os dois homens falam das mulheres, com acentuado cunho machista. Esse olhar chauvinista aparece com freqüência na narrativa de Bruno Vassel, onde o papel da mulher, principalmente na Índia, é sempre o de ser a sombra seja do marido, seja do pai ou da figura masculina mais próxima. Na realidade, numa análise de gênero, é como se a mulher de fato não existisse enquanto ser social, sendo antes uma representação simbólica, uma Lakshimi, uma imagem que quando muito é reverenciada mas que jamais terá o poder fálico de um Deus, de um Shiva. Temos aqui uma obra que muito poderia contribuir numa leitura sobre o papel da mulher na sociedade e, é triste notar, sabemos que muito pouco mudou nessa questão de um século para cá. Como enxerga o autor a mulher hindu? Vejamos:

“(...) geralmente se nota nessas mulheres da Índia um cheiro horrível de todas as espécies de óleos e de essências com as quais ellas esfregam os cabellos e todo o corpo. (....) e mais desagradáveis achava as damas da Índia hindú, mahometana e brahmanista, quando os seus dedos das mãos e dos pés, os seus braços e o pescoço desappareciam debaixo de um amontoado de aneis, pulseiras, correntes e ornamentos de tatuagem. Pelo caminho não é preciso annunciar a sua approximação pois que o apparelhamento de metal que trazem nestes enfeites, serve de aviso barulhento como a guarnição de campainhas de um cavallo de trenó.”

Não contaremos aqui o que o amigo do autor “aprontou” com uma das funcionárias da fábrica, mas o incidente ilustra perfeitamente o olhar machista do branco europeu sobre a classe dominada, pobre, inculta, feminina, quase não-humana. Para refletir.

Todos os outros capítulos também nos ajudam a meditar sobre diversos aspectos da vida. Em KISMET, (que o autor traduz como destino ou fatalidade) lemos sobre uma comovente história de uma família cujo pai leproso acredita que a cura para a sua doença se encontra nas águas do Ganges. Partem em peregrinação durante meses rumo à cidade sagrada, mas os pais morrem por conta de uma intoxicação alimentar e o casal de irmãos, crianças, vão parar em um abrigo para leprosos e órfãos mantido por religiosos cristãos.
A menina fica e o garoto decide partir em busca de conhecimento espiritual. Histórias como essas atravessam várias páginas da obra de Vassel, que as reconta com a dose certa de emoção, depois de ouvi-las de pessoas com as quais conviveu em suas viagens pelo país. O livro termina com um relato emocionante onde o escritor alemão discorre sobre sua paixão: a caçada. O confronto com o tigre, outra reencarnação demoníaca que quase tirou a vida do autor, soa quase como uma metáfora, e faz com que este, pela primeira vez em seu relato, se questione: “Será tudo superstição? Ou existem, ainda, coisas entre o céu e a terra, que a nossa fraca inteligencia humana não comprehende?”

Se o leitor se interessou, saiba que a obra A India, de Bruno Vassel foi editada em 1936 pela Companhia Editora Nacional, São Paulo, vol. X da Collecção Viagens. Está fora de catálogo mas achamos a nossa num sebo por módicos dez reais, em perfeito estado de conservação. No site Estante Virtual é possível encontrá-la a um preço razoável. Vale a pena.

4 comentários :

  1. Oi Paulo, fiquei curiosa para saber de todas as histórias deste livro encantador do Vassel. E o texto do Stowe vc publicou para mim, não foi? Maravilhoso! Beijocas.

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    1. O autor Bruno Vassel é meu avô, pai de meu pai.
      Aqui é a historia de Bruno Vassel I, escrito por minha irma, Mary E V Hill en Ingles. http://www.maryevhill.com/aboutv.htm

      Meu Tio, Dieter Vassel, e sua filha Vera Vassel Schloffman de Boise, Idaho, EEUU, fez un publicasão privato en couro atado - tenho una copia, que é muito presioso para mim.

      Muito obrigado por este comentário!

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    2. Thank you, Elizabeth, for the comment above. You really must be very proud of having such a special family history. I would love to have a grandfather like your, with lots of adventures to tell. Mr Vassel is still alive through his writings and it was a pleasure to share his memories here, specially after your testimony. Namastê!

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    3. http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=50983431
      Photos de Bruno Vassel I

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