domingo, 21 de junho de 2009

A arte de bem viajar, por Leland Stowe

.
Leland Stowe (1899-1994), jornalista norte americano, ganhador de diversos prêmios, entre eles o Pulitzer, ficou internacionalmente conhecido quando se tornou correspondente de guerra, tendo sido um dos primeiros a reconhecer o caráter expansionista do regime nazista alemão. Seus artigos, escritos em 1933 quando de sua primeira visita à Alemanha, foram considerados alarmistas e por isso não foram publicados, de modo que Stowe os reuniu em um livro intitulado Nazi Germany Means War, (Nazismo alemão significa Guerra) numa evidente alusão aos anos de terror que se seguiriam desde então.

Por conta da guerra, Stowe viajou o mundo, cobrindo 44 países em quatro continentes. Em 1955 iniciou sua carreira acadêmica dando aulas de jornalismo na Universidade de Michigan e no mesmo período exerceu a função de editor e escritor da revista Reader’s Digest (conhecida no Brasil como Seleções). Foi de um artigo dessa revista, escrito por Leland Stowe e publicado em 1960, que retiramos o texto intitulado Arte de bem viajar, da coleção 35 janelas para o Mundo. O leitor perceberá que as opiniões desse viajado jornalista norte-americano sobre a arte de bem viajar continuam, apesar dos anos, incrivelmente atuais, e sobretudo úteis àqueles que levam essa arte a sério.

Arte de bem viajar

Leland Stowe

Não existe aventura mais estimulante, mais instrutiva nem mais compensadora do que descobrir como vive o povo em outras partes do mundo. Primeiro tem-se a impressão superficial de que existem grandes diferenças de um povo para outro; geralmente, porém, compreendemos que no fundo somos todos iguais. E descobrimos também, com um alívio nascido da participação, que não há fronteiras geográficas para o coração humano. Pode-se ser patrioticamente brasileiro, norte-americano, inglês ou francês, e ao mesmo tempo sentir-se dono e parte do mundo. Aproximar-se uma pessoa de gente de tradições e hábitos diferentes dos seus é redescobrir-se e entrar para a categoria de cidadão do mundo.

Apresentamos aqui algumas sugestões para os que desejam realmente transformar as viagens numa constante procura de relações humanas.

Lembre-se de que é um hóspede. Não torne incômoda sua presença. Num café, ou qualquer outro lugar público, tenha em mente que a sua presença é notada pela circunstância de que é “estrangeiro”. Procure não atrair maior atenção. O visitante polido faz-se bem-vindo, unicamente porque o merece.

Não faça uma tragédia de pequenos aborrecimentos. Se você se esqueceu de declarar algumas carteiras de cigarros, a culpa não é do funcionário aduaneiro. O visitante que proclama em altas vozes que “essa gente não sabe fazer café” revela apenas que não é pessoa viajada. Se um motorista de táxi lhe cobrar demais, não se esqueça que em sua terra acontece o mesmo. Quando não puder arranjar o desjejum a que está acostumado.... ora, aqui para nós, por que saiu de casa? Não há ditado mais expressivo do que o velhíssimo “Cada terra com seu uso...”.

Não critique outros povos porque vivem e trabalham de maneira diferente. Eles têm boas razões para fazê-lo. Por que será que os bascos, vivendo em um clima quente, usam grandes boinas em vez de chapéus de palha? Mas é claro: os bascos não dispõem de palha, criam extensos rebanhos lanígeros, e a boina lhes protege tanto a cabeça quanto os olhos. Por que será que os fazendeiros normandos arrancam os galhos das árvores? A lenha é escassa naquela região, e ao se cortar a ramaria inferior das árvores, o tronco permanecerá intato – e assim poderá produzir mais combustível.

Não restrinja suas relações às pessoas de sua profissão ou de seu nível intelectual. Na medida do possível, procure conhecer a maior variedade de pessoas. Conheço um professor que passou um ano em Paris. Seu círculo de amizades nunca se estendeu além de uns poucos intelectuais franceses, e ele conheceu apenas meia dúzia de recantos daquela cidade incomparável. Raríssimas vezes provou a mais deliciosa comida do mundo nos restaurantes. Sua preocupação era juntar dinheiro para comprar um automóvel, quando regressasse. Fico imaginando se ele fez uma idéia de como esse automóvel lhe custou caro! Voltou à Pátria sabendo o mínimo que é possível saber-se sobre a França e os franceses. Gente igual a ele encontra-se em todos os países, insulada por vontade própria em células estanques, perdendo uma oportunidade de enriquecer cotidianamente suas vidas com novos conhecimentos e novos amigos!

Trate as pessoas como iguais. Durante a guerra, um gerente de hotel de Karachi, no Paquistão, me disse dos ingleses: “Eles não sabem tratar as pessoas de igual para igual.” Essa observação tem provado ser verdadeira para a maioria dos colonizadores. Mostrou-se notoriamente verdadeira no tocante aos nazistas. E, com excessiva freqüência, cabe também a norte-americanos em viagem pelo estrangeiro. Em Praga – corria o ano de 1946 – uma jovem tchecoslovaca, de boa cultura, me afirmou: “Pensávamos que somente os alemães se comportassem como raça de senhores. Esperávamos muito mais de seus patrícios; a maioria deles, no entanto, nos olha de cima, só porque somos um país pequeno. Alguns se assemelham aos nazistas em arrogância. Os americanos, que aqui vieram ter, nos causaram uma triste decepção.”

Nada fere mais profundamente do que uma atitude de superioridade, assumida por visitantes. Sinto uma intensa afeição pelo camponês espanhol, porque, já o disse o filósofo Miguel de Unamuno, “os camponeses são os únicos fidalgos legítimos da Espanha”. Recebem qualquer pessoa como igual – e nada além disso! Ao tratarmos com seres humanos, não precisamos de outros recursos. E talvez seja esta a chave mestra para abrir-mos o coração de um estranho.

Demonstre interesse por tudo o que for ou típico ou incomum, nos lugares que visitar. Em sua primeira visita aos Estados Unidos, o atual Rei da Suécia, então Príncipe Coroada, andou em trens subterrâneos, inspecionou linhas de montagem nas fábricas, visitou museus e universidades, assistiu a uma partida de basebol. Os norte-americanos, fazendo-lhe inteira justiça, reconheceram imediatamente que o real visitante sueco era um ótimo camarada e um verdadeiro democrata – que em realidade era e ainda é.

Você pode não achar graça na primeira tourada que vir; mas, a menos que vá a algumas, ser-lhe-á impossível tentar compreender os espanhóis ou os mexicanos. Uma orquestra húngara de música cigana pode desagradar-lhe; mas, se a música de um povo não o comover, você jamais conseguirá sentir-se próximo dele.

Quando conhecer e apreciar realmente a comida, a música e os esportes favoritos de qualquer país, você não só descobrirá o quanto gosta da sua gente, como também verá que a maioria dela o aprecia. O viajante que inspira mais piedade é aquele do qual os anfitriões dizem: Ele não vai com a nossa comida, nem mesmo com a nossa música”, o que significa: “Ele não procura gostar de nós.”

Toda nação é igual a uma caixa de surpresas: compete a você desembrulhá-la. E não há povo sobre a terra que não se sinta satisfeito e lisonjeado quando um estrangeiro deseja conhece-lo em todos os aspectos de sua vida e de seu país.

Mostre boa vontade em admitir que os seus patrícios têm defeitos e limitações – e que você mesmo tem os seus. Em um discurso perante Winston Churchill e os círculos governantes da Inglaterra, em 1951, o então General Eisenhower declarou: “Vejo nesta sala personalidades com as quais, durante a Segunda Guerra Mundial, mantive, por longo tempo, acesas discussões.” E então confessou publicamente haver chegado à “conclusão final de que nem sempre estava certo em minhas posições”. Afirmações dessa ordem exemplificam a humildade honesta e simpática que qualquer cidadão de qualquer país pode muito bem permitir-se onde quer que esteja.

Este texto faz parte de uma coletânea intitulada "Janelas para o mundo", vol35 da Seleções do Reader's Digest, 1960.

Nenhum comentário :

Postar um comentário