sexta-feira, 27 de março de 2009

O Rito da Montanha Sagrada

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Em todas as partes do planeta, desde as épocas mais remotas, seres humanos das mais variadas culturas atribuíram a algumas montanhas e formações rochosas uma condição de sacralidade; muitas delas continuam atraindo pessoas, sobretudo crentes e devotos, em grande número até os dias de hoje: Monte Agung (Indonésia), Monte Croagh Patrick (Irlanda), Monte Fuji (Japão), Monte Kailash (Tibet), Monte Nebo (Jordânia), Monte Shasta (EUA), Monte Sinai (Egito), Monte Tai (China) e Ayers Rock/Uluru (Austrália) são alguns exemplos.

Poucos sabem, no entanto, que o Brasil é o mais novo guardião geográfico de uma montanha sagrada de tradição budista, localizada na Chapada dos Guimarães (MT), uma das mais antigas placas geológicas do planeta. A história dessa montanha é singular e mereceu um relato fascinante escrito por um monge budista brasileiro, Shogyo Gustavo Pinto que lançou sua obra O Rito da Montanha Sagrada na segunda quinzena de janeiro de 2009 na Palas Athena de São Paulo.

Na obra do monge Shogyo (do japonês “libertação pela prática do Buda”), ficamos sabendo como nasceu a idéia de se fazer o rito de sagração da montanha e os motivos que o levaram a eleger um dos montes dos “Morros do Testemunho”, coincidentemente - e inexplicavelmente - chamado de Morro do Japão para despertar (termo usado pelo autor) a montanha sagrada adormecida. A esse ritual se dá o nome de circunvolução, ou, mais propriamente nesse caso, Rito de circunvolução de Montanhas Sagradas.

Uma circunvolução é um movimento circular em torno de algo que se considera sagrado; quando o giro é feito no sentido horário, dá-se o nome de dextrocêntrico (para a direita) e o oposto é chamado de sinistrocêntrico, para a esquerda. No rito budista (e em grande parte de outras tantas tradições religiosas, exceção feita aos praticantes de magia negra) o rito de circunvolução é sempre exercido no sentido horário.

No relato de Shogyo, ficamos sabendo que a montanha sagrada é guardada por cinco Dyani Budas: o primeiro encontra-se no centro da montanha, a quem se dirige o peregrino para pedir permissão e benção para caminhar. Os outros quatro Budas encontram-se nos quatro pontos cardeais: no quadrante Sul-Oeste medita-se sobre a morte e aquilo que se deve deixar para trás; ao Norte, medita-se sobre a transcendência; ao Leste, o peregrino medita sobre o nascimento e a criação e finalmente ao sul, a meditação sobre a preciosidade da vida.

O despertar da Montanha Sagrada e o Buda de 108 metros
A idéia do despertar dessa Montanha Sagrada surgiu como uma forma de se resgatar um patrimônio da humanidade destruído covardemente pelo regime talibã em março de 2001, os Budas gigantes da província de Bamiyan, esculpidos em rocha há dois mil anos no território do Afeganistão.

O cenário onde se realizou o rito (e que abriga a Montanha Sagrada) chama-se Terra da Paz, situado a 65 km de Cuiabá, numa área de 2300 hectares no município de Chapada dos Guimarães. O objetivo desse projeto Terra da Paz é o de “promover a paz através do reconhecimento de que a diversidade de culturas e credos é um patrimônio que precisa ser reverenciado”. Além do cuidado com a preservação e manutenção do bioma cerrado, o que chama a atenção nos futuros objetivos da Terra da Paz é a construção, na face Norte da Montanha Sagrada, de um gigantesco Buda de 108 metros de altura, o dobro do tamanho daqueles explodidos em Bamiyan.
Não é por acaso que o Buda a ser construído na rocha terá 108 metros, número sagrado em algumas tradições religiosas orientais. “Na tradição budista”, escreve Shogyo, “o número 108 simboliza a infinitude de formas da ignorância humana e da sabedoria compassiva do Buda. Representa tanto o que o aprisiona quanto o que liberta.” Essa simbologia também será aplicada no ritual de circunvolução, já que o monge se propôs a dar, durante 108 dias, uma volta completa em torno da montanha (200 metros de altitude, 15 quilômetros de perímetro).
Tudo isso será explicado com mais detalhes logo no início da obra do monge Shogyo; entretanto, serão as reflexões em forma de diário sobre as lições que cada dia de caminhada impõe ao peregrino que farão da leitura de seu relato algo inusitado para o leitor brasileiro.
A literatura odepórica brasileira já há algumas décadas tem sido representada por um grande número de relatos de viagem de peregrinos, sobretudo aqueles que percorreram o Caminho de Santiago, mas há poucos relatos de peregrinação que não façam parte da tradição cristã, de modo que a escrita de Gustavo Pinto ganha notoriedade nesse cenário. O mais interessante nisso é que, com a leitura desse relato, podemos estudar melhor o fenômeno da peregrinação, ou da viagem enquanto processo de transformação, já que uma leitura comparativa de fenômenos semelhantes sempre acrescenta um novo olhar sobre esses mesmos fenômenos.
No budismo, assim como no cristianismo, as peregrinações atraem grande número de devotos a santuários e locais sagrados que de uma maneira ou outra, com maior ou menor comprometimento, chegam ao destino cumprindo certas normas de conduta e comportamento próprios daquele tipo de viagem. Uma montanha, assim como uma catedral, são símbolos do Axis Mundi, o eixo do mundo, o centro, que une o céu à terra, conceito amplamente explorado por Mircea Eliade em suas obras.
Em O Rito da Montanha Sagrada, podemos distinguir tanto a importância dada ao aspecto ritualístico da empreitada quanto ao conceito eliadiano do centro cósmico aplicado à Montanha Sagrada; no primeiro caso, a indumentária do peregrino, um hábito monacal totalmente branco que, para a tradição espiritual budista japonesa simboliza a morte, porque branca é a cor que se usa para vestir os mortos, mas também porque, durante a peregrinação, o viajante está simbolicamente morto para a vida mundana. Dessa forma, quando do término da peregrinação, ou mais propriamente nesse caso, do ritual de circunvolução, o neófito terá renascido após haver enfrentado todos os percalços do caminho, em outras palavras, um rito de passagem clássico.
Quanto à questão do centro, da Axis Mundi, isso fica explícito quando ficamos sabendo que os Morros do Testemunho localizam-se no centro geodésico do continente sul-americano e que a Montanha Sagrada, ali despertada ritualisticamente, é a única montanha sagrada localizada no centro de um dos cinco continentes. Esses são apenas dois exemplos que trazemos para demonstrar que a leitura da obra do monge Shogyo Gustavo Pinto merece um olhar atento, seja o leitor um simpatizante da religiosidade oriental, ou apenas um apaixonado pela natureza, em particular pelas belezas de nossa rica biodiversidade brasileira.
Nota: texto publicado originalmente no site Território Geográfico.

3 comentários :

  1. Só uma leve correção - Chapada dos Guimarães fica em MT não MS - Assim como o a Montanha sagrada.

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  2. Opa, fico feliz em ajudar. =]
    E também estou em busca de novas noticias sobre esse assunto (sobre construção do Buda em Chapada). Até onde acompanhei, havia alguns impedimentos na justiça para construção do mesmo :/

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