quinta-feira, 26 de março de 2009

Literatura Odepórica?

.Um dia, pesquisando na internet sobre relatos de viagem, uma palavrinha incomum chamou-me a atenção: odepórica. Clicando em um link, cujo acesso levou-me a um texto acadêmico da Universidade de Vanderbilt na Carolina do Norte (EUA), descobri fascinado a existência de duas obras que tratam com muito respeito o que alguns acadêmicos parecem não dar muita atenção. Refiro-me aos relatos de viagem, um gênero (subgênero para alguns) literário que parece estar atraindo pouco a pouco um olhar mais atento entre estudiosos e pesquisadores das mais variadas áreas das Ciências Humanas.

Certo de que a literatura de viagem merecia um espaço à altura de sua relevância acadêmica, o italiano Luigi Monga (1941-2004), professor da Universidade de Vanderbilt, começou a estudar os relatos de viajantes europeus dos séculos XVI e XVII e se identificou com esse tipo de literatura, pouco apreciada até pelos seus colegas de universidade; naquele momento, início dos anos 1980, poucas pessoas escreviam sobre literatura de viagem, mas esse quadro mudou significativamente desde então.


Se deve a Monga não só o mérito de trazer à luz a riqueza de estudos que se encontra nas páginas dos relatos de viajantes e aventureiros, mas também seu esforço em tentar classificar esse gênero literário de modo a permitir um diálogo entre estudiosos e apaixonados pelo tema em todo o mundo. Foi o próprio Monga quem cunhou o termo odepórico, do grego hodós, caminho, senda, estrada e poreuo, viajar; editou duas extensas obras sobre o tema da literatura odepórica (em outras palavras, literatura de viagem), e na primeira delas fez uma pequena introdução ao vocábulo, da qual transcrevemos um trecho:

O italiano é talvez a única língua moderna que aceitou o termo no seu léxico: odeporico, um adjetivo (‘referente a viagem’), e um substantivo (‘narrativa de viagem’), e l´odeporica, um substantivo feminino (‘literatura de viagem’). (...) Na língua francesa, por exemplo, pode-se conceber o adjetivo hodéporique (‘pertencente à literatura de viagem’) e um substantivo feminino, l’hodéporic (‘literatura de viagem’). (...) Em espanhol, contudo, o termo caminería, que foi recentemente proposto à Real Academia de la Lengua de Madrid, presumivelmente excluiria qualquer terminologia relacionada a uma plausível odepórica de ganhar aceitação. (...) Embora o Oxford English Dictionary não indique a ocorrência da terminologia que nós estamos propondo, seria impossível atestar que a palavra nunca foi usada. A razão para cunhar o termo hodoeporic é a de que o uso adjetivado do termo ‘literatura de viagem’ é um tanto incômodo; hodoeporics, além disso, poderia ser usado como um pronome, especificamente para aplicações literárias e científicas.

O cânone clássico da literatura de viagem, na visão de Monga, pode incluir sagas, relatos históricos e trabalhos de cunho geográfico. Porém, antes de aceitar todo esse material naquilo que se pode chamar de odepórico hoje, deve-se estabelecer um método objetivo de classificação. Sendo assim, Monga exclui desse gênero os poemas épicos, as viagens envoltas em lendas e situações míticas, textos clássicos como a Odisséia e Eneida, e a maioria dos épicos nacionais, pois estes não refletem viagens reais. Por outro lado, cita a gigantesca obra História, de Heródoto, escrita há mais de 2500 anos como sendo o primeiro texto de uma narrativa de viagem; testemunha ocular de seu tempo, Heródoto, um grande viajante, através de sua “[...] observação do mundo, confrontando realidade com a voz de seus informantes, tornou-se o padrão para a elaboração de uma escrita de viagem”.

O papel da memória


Talvez encontremos, a partir de Heródoto, uma das chaves mais importantes para compreendermos a importância de um relato de viagem: a memória. Não seria exatamente isso o que busca preservar aquele que toma notas de sua viagem?

"Heródoto confessa que era obcecado pela memória - sabedor de que ela é falível, frágil, limitada, temporária e até ilusória. Ele tinha consciência de que aquilo que a memória continha poderia desvanecer-se, desaparecer sem deixar vestígios. Toda a sua geração, todas as pessoas que viveram naqueles tempos estavam tomadas pelo mesmo medo. Sem memória, não se pode viver, pois ela é o que faz o homem se diferenciar dos animais, é a base da sua alma, mas, ao mesmo tempo, é enganosa, fugaz e traiçoeira. É exatamente por essa razão que os homens se sentem tão inseguros a respeito de si mesmos. (...) No mundo de Heródoto, o único depositário da memória é o próprio ser humano. Para ter acesso a algo que ficou nela guardado, é preciso chegar a um homem e, quando esse homem vive longe de nós, temos que ir ao seu encontro, partir em viagem. Quando o encontrarmos, sentaremos ao seu lado e escutaremos o que ele tem para contar- ouvir, conservar na memória e, se possível, anotar. É assim que começa uma reportagem- é de uma situação como essa que ela nasce."
(Ryszard Kapuscinski. Minhas viagens com Heródoto, 2006).

Em um texto onde aborda a “armadilha da narrativa” (“snare of narrative”) implícita na literatura odepórica, Luigi Monga assinala a dificuldade de um leitor em saber se um determinado texto é uma narrativa ficcional ou um relato pessoal de viagem. Muitas vezes, as duas situações estão presentes: o relato pessoal de uma viagem abre espaço para a imaginação do autor, permitindo que elementos de ficção se misturem a fatos reais. Partindo dessa perspectiva, Monga teve um brilhante insight ao lembrar-nos de que Hermes, o deus dos mentirosos, é também o patrono dos viajantes, pelo que podemos perceber com isso que todos os relatos de viajantes carregam uma dose de mentira, ou, pelo menos, de uma criatividade literária que não necessariamente condiz com a realidade vivenciada.

Talvez possamos entender essa “armadilha”, tomando emprestado o termo de Monga, como um método utilizado pelo escritor-viajante para tentar passar ao leitor a intensidade daquilo que encontrou, possivelmente um fenômeno tão à margem de sua realidade que idéias ordinárias não seriam capazes de traduzir tamanha surpresa, lembrando que estamos falando de uma época onde o campo visual ainda não estava contaminado pelo excesso de imagens e informações.

Se você tiver interesse em se aprofundar um pouco mais no trabalho de Monga e em conhecer o que outros teóricos escreveram sobre literatura odepórica, nossa pesquisa intitulada A literatura odepórica e a peregrinação jacobea: um estudo sobre a espiritualidade nos relatos de viagem dos peregrinos brasileiros no Caminho de Santiago (item 1.4) pode ser uma boa introdução. Esse trabalho é o resultado de mais de dez anos de pesquisa sobre o Caminho de Santiago, com ênfase nos relatos de viagem de brasileiros que toparam perambular pela Espanha atrás de um sonho, sonho este dividido depois com muita gente após a publicação de seus diários.

E é esse o objetivo, também, desse blog: compartilhar com você, leitor/a, os meus sonhos e os daqueles que, assim como eu, acham que a vida que vale a pena ser vivida é aquela cujo tempo é gasto na estrada, seja real, seja imaginária, porque ambas a seu modo carregam um enorme potencial de transformação. Namastê!

Um comentário :

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir