quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Wanderlust, by Rebecca Solnit. (uma introdução)


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Às vésperas de cair na estrada, procuro por uma leitura que me inspire na jornada que virá pela frente. Geralmente releio autores que já me acompanharam em outras aventuras, entre eles Paul Bowles, Phil Cousineau, Luiz Carlos Lisboa e Fernando Pessoa, porque viajar sem poesia não tem graça nem sentido.

Dessa vez puxo da estante um livrão de capa dura que comprei no outono de 2013, já muito folheado mas nunca lido com a atenção que merece: Wanderlust – A History of Walking, de Rebecca Solnit.

Wanderlust é uma palavra de origem alemã sem tradução literal para o português, traduzida como “ânsia ou desejo de viajar”. E pegando carona nesse bonito vocábulo, a autora buscou construir a história da caminhada, as origens do ato de caminhar.



Estou encantado com a leitura desse texto, que já considero um dos melhores que li sobre a temática da caminhada (mesmo sem ter terminado a leitura); a Rebecca se acerca muito de outros autores já escreveram sobre o tema, como Fredéric Gros em seu Caminhar,uma filosofia, Michel Onfray em sua Teoriada viagem ou Adriano Labbucci com seu Caminhar,uma revolução, escritores que já passaram aqui no Odepórica. 

O diferencial de Rebecca Solnit está na maneira como ela aborda o ato de caminhar e as viagens. Para a autora estadunidense, a caminhada hoje, na realidade das cidades norte-americanas, pode ser considerada um ato subversivo.



Ela explica o que muitos de nós já sacamos faz tempo: as cidades dos EUA (principalmente, mas não exclusivamente) não são mais pensadas para os caminhantes, tudo é voltado para o deslocamento por automóveis. Grandes avenidas, horrorosos centros comerciais-  todos iguais, numa padronização assustadora - imensas autopistas que cortam o país e destroem paisagens... e o motorista, que ao chegar a casa, se tranca em sua jaula segura repleta das facilidades oferecidas pela vida moderna, a mesma que o aprisiona em escritórios, automóveis e lares.

Andar é subversivo porque se torna quase proibido! Os engenheiros urbanos pensam antes nos veículos motorizados e depois nos pedestres, ao ponto de não projetarem mais calçadas, e aqueles que decidem se aventurar numa caminhada, seja no acostamento (quando há) ou na própria estrada ou avenida, correm o risco de ter que se explicar às autoridades.



Diz a autora que ela descobriu sua voz como escritora depois que começou a viajar para o interior do país, longe da região costeira onde vive em São Francisco; em suas explorações a noção da existência de camadas históricas desses lugares lhe chamou a atenção.

Como participante de atos pacifistas contra o armamento nuclear, foi visitar alguns lugares onde antes eram feitos testes com armamentos pesados; passado o momento de loucura militar (pelo menos fisicamente nesses locais), o governo transformou o que antes eram desertos proibidos em parques naturais.



Só que antes desses parques, antes da tomada desses locais pelos militares, viviam fazendeiros ali e antes destes, provavelmente viveram os nativos mais tarde expulsos e o resto é história. São essas camadas históricas a que a autora se refere, insights surgidos após suas longas caminhadas.

Ao invés de escrever sobre a história desses locais visitados, Rebecca preferiu escrever sobre a caminhada em si. E um trecho pequeno dessa escrita é o que você lerá a seguir, um aperitivo antes da resenha que um dia farei sobre essa belíssima obra. Boa leitura.


Na marcha do pensamento

Caminhar, em teoria, é um estado no qual a mente, o corpo, e o mundo estão alinhados, como se fossem três personagens que finalmente conversam juntos, três notas que repentinamente formam um acorde.

Caminhar nos permite estar em nossos corpos e no mundo sem sermos ocupados por eles; uma liberdade para pensar sem nos perdermos em nossos pensamentos.

O ritmo da caminhada gera um tipo de ritmo de pensamento, e a passagem por uma paisagem ecoa ou estimula a passagem por uma série de reflexões. Isso cria uma estranha consonância entre a passagem externa e a interna, sugerindo que a mente também é uma espécie de paisagem e a caminhada é um meio de atravessá-la. 



Um novo pensamento frequentemente parece uma característica da paisagem que esteve ali durante todo o tempo, assim como os pensamentos estavam viajando, mais do que sendo criados em nossa mente, de modo que um aspecto da história da caminhada é a história do pensamento tornado concreto – pois os movimentos da mente não podem ser traçados, mas os dos pés podem.

Uma caminhada também pode ser imaginada como uma atividade visual, cada caminhada um passeio calmo o suficiente tanto para ver e refletir sobre as paisagens, como para assimilar o novo dentro do conhecido ou já visto. Talvez seja daí que venha a peculiar utilidade da caminhada para os pensadores.



As surpresas, a liberdade, e os esclarecimentos das viagens às vezes podem ser vivenciados simplesmente em uma volta no quarteirão ou dando a volta ao redor do mundo, não importando se a caminhada é próxima ou longínqua.

Talvez a caminhada possa ser chamada de movimento, não de viagem, pois é possível caminhar em círculos ou viajar através do globo estando imobilizado em um assento, e um certo tipo de wanderlust (a ânsia de viajar) só pode  ser aliviado pelos atos de movimento do corpo, não o movimento do carro, do barco ou do avião.



É o movimento, tanto quanto as paisagens que passam que parecem fazer as coisas acontecerem na mente, e é isso o que faz a caminhada ambígua e infinitamente fértil: ela é tanto o objetivo quanto o final, a viagem e o destino.

Leia: Wanderlust: A History of Walikg. Rebecca Solnit. Viking Penguin, 2000.